Cardumes com até 100 tubarões-martelo-recortados juvenis (Sphyrna lewini) foram filmados por drones do programa governamental de segurança pública SharkSmart em águas rasas do sudeste de Queensland, na Austrália. O levantamento científico, publicado em 11 de setembro de 2026 na revista Marine Biology, reúne registros de uma espécie classificada globalmente como criticamente ameaçada de extinção em praias frequentadas por banhistas.
A pesquisa teve liderança da cientista Maddison C. Cross, vinculada à Universidade da Sunshine Coast (UniSC) e ao Departamento de Indústrias Primárias de Queensland (DPI), com coautoria da pesquisadora Bonnie J. Holmes, também da UniSC. O artigo foi aceito para publicação em 26 de agosto de 2026 e detalha como áreas costeiras próximas à faixa de areia reúnem indivíduos jovens ao longo de diferentes anos. “Embora essas zonas costeiras possam não atender aos critérios para áreas de berçário, elas provavelmente servem como importantes áreas de agregação juvenil que justificam consideração de manejo preventivo, dado o uso repetido e a presença de múltiplas classes etárias juvenis”, afirmaram Maddison C. Cross e os coautores no estudo, em tradução livre.
Monitoramento do programa SharkSmart em nove praias de Queensland
Para mapear a presença dos animais na costa leste australiana, a equipe científica examinou o banco de dados de 20.911 voos realizados por drones sobre nove praias do sudeste de Queensland entre 1 de setembro de 2020 e dezembro de 2024. Durante os quatro anos de acompanhamento aéreo, o tubarão-martelo-recortado foi detectado em 84 ocasiões distintas, que juntas somaram 2.696 observações de indivíduos. Os autores explicam que o total de observações não equivale ao número exato de animais únicos na região, uma vez que os mesmos tubarões podem ter sido filmados em mais de um sobrevoo ao longo do período analisado.
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A distribuição dos registros variou conforme o ponto monitorado no litoral. Enquanto na maioria das nove praias os animais apareceram sozinhos ou em pares, dois locais turísticos concentraram grandes agrupamentos nas águas rasas. Em Noosa Main Beach, localizada na região de Sunshine Coast, ao norte da área de estudo, os equipamentos flagraram o maior cardume do levantamento, com cerca de 100 indivíduos reunidos. Já em Burleigh Beach, situada na região de Gold Coast, no sudeste do estado, as câmeras aéreas registraram grupos formados por até 80 tubarões.
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As filmagens aéreas também permitiram identificar um padrão sazonal e geográfico bem definido nessas duas praias principais, com as maiores concentrações registradas durante os meses de abril, maio e junho, período que corresponde ao outono e ao início do inverno no hemisfério sul. Em Burleigh Beach, os grupos nadaram repetidamente nas águas próximas ao promontório rochoso na extremidade sul da praia, apresentando rotas de movimentação sobrepostas nos registros de 2023 e 2024, comportamento que aponta para o uso recorrente do espaço para abrigo e alimentação.
Tamanho dos tubarões-martelo-recortados e método de medição por drones
O cálculo das dimensões dos animais foi feito a partir das imagens captadas do alto sem necessidade de captura física. Os cientistas compararam o corpo dos tubarões nas gravações com pranchas de stand-up paddle de tamanho conhecido que flutuavam nas proximidades durante os voos. A medição indicou um comprimento médio estimado de 1,09 metro, o equivalente a 3,6 pés, dimensão compatível com indivíduos no primeiro ano de vida até a faixa de um a dois anos de idade, descartando a presença predominante de filhotes recém-nascidos.
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“Embora os indivíduos observados compreendessem uma mistura de animais do primeiro ano de vida e juvenis mais velhos, de 1 a 2 anos, em vez de neonatos, a ocorrência repetida de tubarões de tamanho semelhante ao longo de vários meses e anos sugere o uso sazonal e interanual dessas áreas”, declararam Maddison C. Cross e os demais autores na publicação científica, em tradução livre.
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Durante as operações do programa SharkSmart, os aparelhos voaram na altitude operacional padrão, igual ou superior a 20 metros acima da superfície do mar. Nessa faixa de altura, as gravações mostraram que os tubarões-martelo-recortados não apresentaram reações de fuga nem comportamentos erráticos diante da passagem das aeronaves, o que confirmou a eficácia dos drones como ferramenta de monitoramento não invasivo e de perturbação mínima para a fauna marinha.
Risco de extinção do Sphyrna lewini e capturas na Austrália
O registro de dezenas de jovens reunidos em águas rasas ocorre em um momento de declínio populacional severo para o Sphyrna lewini em todos os oceanos. A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), organização internacional dedicada à preservação da biodiversidade e avaliação do estado das espécies, classifica o tubarão-martelo-recortado globalmente como criticamente ameaçado de extinção. Apesar desse status de proteção e do porte juvenil dos animais filmados, as duas praias que abrigam os maiores cardumes — Burleigh Beach e Noosa Main Beach — integram a rede oficial do programa de controle de tubarões de Queensland, que utiliza equipamentos letais para reduzir o risco de incidentes com banhistas.
Dados históricos do programa estadual de controle em Queensland, referentes ao intervalo entre 2001 e 2024, somam números expressivos na relação com a espécie e com o histórico mundial de incidentes monitorado pelo Arquivo Internacional de Ataques de Tubarão (International Shark Attack File), banco de dados mantido pelo Museu da Flórida:
- 675 tubarões-martelo-recortados foram capturados pelos equipamentos do programa de controle de Queensland entre os anos de 2001 e 2024.
- 665 desses animais capturados na costa do estado morreram em decorrência da retenção nos aparelhos.
- 63 exemplares da espécie foram retidos em redes de proteção instaladas especificamente nas praias de Burleigh Beach e Noosa Main Beach.
- 2 indivíduos foram fisgados em linhas de anzol com isca posicionadas nessas mesmas duas praias de Gold Coast e Sunshine Coast.
- 18 mordidas não provocadas envolvendo todas as espécies de tubarões-martelo em seres humanos foram registradas em todo o mundo desde o ano de 1580, sem nenhuma morte humana contabilizada no arquivo do Museu da Flórida.
Hipóteses em aberto e próximos passos da pesquisa em Queensland
Apesar do volume de imagens coletadas nos quatro anos de sobrevoos, as razões exatas que levam os jovens tubarões-martelo-recortados a se concentrarem tão perto da faixa de areia permanecem como hipóteses científicas não confirmadas. Os pesquisadores avaliam se os cardumes buscam presas disponíveis nos recifes e formações rochosas costeiras ou se a formação de grandes grupos funciona como estratégia de defesa coletiva para evitar predadores maiores.
Outra limitação apontada pela equipe é a impossibilidade de distinguir exemplares específicos apenas pelos vídeos aéreos, o que impede saber se são exatamente os mesmos indivíduos que retornam ano após ano às praias avaliadas. Para comprovar a chamada fidelidade ao local e acompanhar o deslocamento dos animais a longo prazo, os cientistas informaram que o próximo passo do trabalho exigirá a integração dos voos com técnicas de fotoidentificação e o uso de telemetria por meio da aplicação de marcadores individuais nos tubarões.
