A ciência explica: por que a mesma dieta não funciona para todo mundo

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FIta métrica, gordura, obesidade ou emagrecimento - Lee Charlie/shutterstock.com Foto: FIta métrica, gordura, obesidade ou emagrecimento - Lee Charlie/shutterstock.com

O mapeamento dos quatro fenótipos da obesidade conduzido pela Mayo Clinic, em Rochester, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos, e diretrizes clínicas aplicadas em São Paulo demonstram nesta quinta-feira (15) que o padrão biológico e comportamental da fome determina o sucesso ou a falha de dietas e medicamentos. A divisão científica identifica perfis específicos de ganho de peso e comprova que pacientes com alterações hormonais de saciedade perdem em média 21,5% do peso corporal em seis meses com terapia direcionada, quase o dobro dos 11,7% registrados nos demais grupos.

O trabalho nos Estados Unidos é liderado pelo médico gastroenterologista, professor associado de medicina e diretor do Precision Medicine for Obesity Lab (Laboratório de Medicina de Precisão para Obesidade) na Mayo Clinic, Andres Acosta. Segundo o pesquisador sênior, a identificação prévia do mecanismo biológico evita abordagens padronizadas ineficazes. “A obesidade é uma doença complexa impulsionada por diferentes mecanismos biológicos. Nossas descobertas sugerem que podemos começar a identificar quais pacientes têm maior probabilidade de responder a terapias específicas, em vez de tratar a obesidade como uma doença única”, afirmou Acosta, em tradução livre.

Os 4 fenótipos da obesidade mapeados por Andres Acosta na Mayo Clinic

A equipe chefiada por Andres Acosta classificou o ganho de peso em quatro fenótipos biológicos principais a partir de testes clínicos, detalhados pelo médico em 21 de abril de 2026 na publicação da Mayo Clinic Press sobre o entendimento dos fenótipos da obesidade. O primeiro padrão é a fome cerebral, chamada em inglês de Hungry Brain, que se caracteriza pela saciedade reduzida durante a refeição e exige um grande volume de comida ou de calorias para que o indivíduo se sinta satisfeito. O segundo grupo é o da fome intestinal, ou Hungry Gut, no qual o paciente apresenta esvaziamento gástrico acelerado e duração anormal da saciedade pós-prandial (o período logo após a ingestão de alimentos), fazendo com que a pessoa sinta fome novamente pouco tempo depois de comer porções normais.

O terceiro perfil biológico mapeado nos Estados Unidos é a fome emocional, denominada Emotional Hunger, que envolve o comportamento alimentar hedônico, condição em que a comida é utilizada pela pessoa como mecanismo direto de enfrentamento diante de quadros de ansiedade ou estresse. Já o quarto fenótipo é o metabolismo lento, ou Slow Burn, diretamente associado a uma baixa massa muscular e a um menor gasto energético de repouso pelo organismo. Os pesquisadores apontam que esses padrões não são estáticos e mudam ao longo da vida conforme a idade, o painel hormonal, o nível de atividade física e as circunstâncias individuais.

Balança, emagrecimento, dieta
Foto: Balança, emagrecimento, dieta – Fabio Balbi/ Shutterstock.com

Dados e cronologia dos estudos da Mayo Clinic e do protocolo no Brasil

As pesquisas clínicas e diretrizes sobre o tratamento individualizado da obesidade reúnem dados populacionais, testes farmacológicos e programas de capacitação médica nos dois países:

  • Amostra do estudo farmacológico de 16 de julho de 2026: 483 adultos com obesidade avaliados pela Mayo Clinic na revista científica Gastroenterology.
  • Amostra do estudo transversal de fevereiro de 2024: 464 pacientes adultos com índice de massa corporal (IMC) acima de 30 kg/m² analisados no International Journal of Obesity.
  • Divisão de perfis no estudo transversal: 294 pacientes apresentaram até um fenótipo isolado e 170 pacientes (36,6% do total) tiveram dois ou mais fenótipos simultâneos.
  • Alcance da capacitação clínica no Brasil: mais de 1.500 médicos treinados em programas de educação médica sobre obesidade e padrões alimentares.
  • Locais de referência das pesquisas e diretrizes: unidades da Mayo Clinic em Rochester (Minnesota, EUA), Universidade de São Paulo (USP) e Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em São Paulo (SP).

Sobreposição de perfis na Mayo Clinic e perda de 21,5% do peso com tirzepatida

Os levantamentos estatísticos de Andres Acosta revelam que cerca de um terço dos pacientes com obesidade reúne mais de um padrão biológico ao mesmo tempo, o que agrava o quadro clínico. “Quase um terço dos pacientes terá dois ou mais fenótipos. O que é interessante é que, se você tem dois ou mais fenótipos, você tem maior peso corporal, então você é mais pesado. E você tem mais risco de doenças relacionadas à obesidade, mais risco de doença cardiovascular, mais risco de diabetes”, declarou o diretor do laboratório da Mayo Clinic, em tradução livre.

A separação por subtipos biológicos também altera a resposta aos medicamentos modernos baseados em hormônios intestinais. No estudo divulgado em 16 de julho de 2026 na revista Gastroenterology, o grupo liderado por Acosta acompanhou o uso da tirzepatida e identificou um subtipo específico de fome intestinal, presente em cerca de um em cada quatro participantes da pesquisa, caracterizado por níveis mais baixos do hormônio GLP-1 natural e esvaziamento mais rápido do estômago. Após seis meses de tratamento medicamentoso, esses pacientes eliminaram em média 21,5% do peso corporal total, superando a média de 11,7% de redução observada nos demais grupos analisados.

Classificação de Andressa Heimbecher Soares na USP e resposta aos análogos de GLP-1

No Brasil, a médica endocrinologista e metabologista Andressa Heimbecher Soares, doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), professora instrutora na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e autora do livro Dieta do Padrão Alimentar, aplica nos consultórios uma divisão voltada ao comportamento prático diante da comida. A especialista classifica os pacientes entre o padrão volumétrico (que necessita de grandes quantidades no prato para obter saciedade), o beliscador misto (ligado ao sistema dopaminérgico do cérebro, que produz neurotransmissores voltados à sensação de prazer e recompensa em alimentos doces e salgados) e o beliscador de doce (associado ao sistema serotoninérgico, que atua na regulação do humor e leva o paciente a recorrer ao açúcar diante de episódios de ansiedade).

A diretriz clínica brasileira demonstra que o ajuste do cardápio falha quando ignora a origem biológica do apetite de cada grupo. Para o paciente com perfil beliscador de doce, o corte radical de carboidratos tende ao fracasso, sendo recomendado o consumo de alimentos de baixo índice glicêmico, que evitam picos e quedas bruscas de glicose no sangue e desarmam o gatilho para a próxima vontade de comer açúcar. Para o padrão volumétrico, a indicação substitui restrições severas de quantidade por porções generosas de alimentos de baixa densidade calórica e ricos em fibras ao longo do dia, enquanto no beliscador misto o plano alimentar precisa preservar mecanismos de recompensa para evitar o abandono do protocolo.

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Essa diferença comportamental explica a variação de eficácia dos medicamentos análogos de GLP-1, substâncias que imitam a ação do hormônio intestinal responsável por sinalizar saciedade ao cérebro. No perfil volumétrico, o fármaco provoca saciedade precoce e reduz a porção ingerida sem esforço consciente; já nos perfis beliscadores, o medicamento diminui a fome física e ajuda a manter o intervalo entre as refeições, mas não apaga isoladamente o hábito ligado a tédio, estresse ou telas ligadas. Nos quadros de comer emocional, em que a busca é por regulação de humor e não por fome física, a medicação reduz o apetite, mas não elimina o gatilho comportamental, exigindo que a escolha terapêutica parta do diagnóstico prévio do padrão alimentar do paciente.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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