Agência israelense Discover-Tech usa anúncios para espionar usuários

espionagem - DC Studio - shutterstock.com

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A agência israelense de publicidade digital Discover-Tech utilizou uma rede de anúncios online para rastrear usuários globalmente e distribuir programas espiões em dispositivos sem exigir qualquer interação das vítimas. A operação foi revelada nesta quinta-feira (15) em relatórios simultâneos do grupo de monitoramento cibernético Citizen Lab, da Universidade de Toronto, no Canadá, e da empresa de segurança publicitária Confiant, de Nova York, nos Estados Unidos.

Os investigadores apontam que a estrutura serviu para identificar alvos, extrair números de telefone de smartphones e viabilizar invasões em computadores. Wolfie Christl, pesquisador do Citizen Lab e coautor do estudo ao lado de Bill Marczak, John Scott-Railton e do diretor Ron Deibert, classificou o modelo atual do mercado publicitário como um risco direto à segurança digital. “A forma como a publicidade online funciona hoje é uma ameaça sistêmica à segurança. Para os Estados, o setor privado, a sociedade civil e todos os demais”, afirmou Christl.

Como funcionava a operação da Discover-Tech e a técnica AdFection?

Foto: Golpe telefônico, hack ou fraude. Hacker de dados on-line com smartphone – Tero Vesalainen/shutterstock.com

Sediada em Tel Aviv e registrada em março de 2020 por seu fundador e diretor executivo Dekel Boni, a empresa operava um software chamado Controlium. Essa ferramenta conectava o sistema de leilões de anúncios em tempo real — tecnologia conhecida no mercado publicitário pela sigla RTB, que vende espaços de propaganda de forma automatizada enquanto uma página carrega — diretamente a empresas de vigilância comercial. Por meio desse painel, clientes conseguiam criar perfis em massa, retirar o anonimato de internautas e selecionar alvos específicos para ataques usando propagandas com aparência comum, como ofertas de telefones e fones de ouvido.

O Citizen Lab batizou o método de AdFection no documento oficial identificado como Relatório 195, definindo o caso como a primeira confirmação técnica pública do uso de publicidade direcionada para entregar spyware mercenário do tipo zero-click, modalidade em que o programa invasor infecta o aparelho apenas com o carregamento visual do anúncio na tela, sem necessidade de clique. A investigação técnica teve início em 12 de abril de 2026, data em que um anúncio malicioso disparou alertas nos sistemas de varredura da Confiant. O serviço da Discover-Tech abriu espaço em plataformas operadas por Google, Microsoft, Beeswax (subsidiária da Comcast) e pela empresa russa Yandex para fornecedores israelenses de tecnologia de vigilância, incluindo Bindecy, Intelos e a fabricante de spyware Candiru, que passou a adotar o nome comercial Integrity Labs.

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O levantamento conjunto das duas instituições dimensionou o volume da operação a partir dos seguintes números:

  • Alcance das parcerias: mais de 120 mil sites e 75 mil aplicativos exibiram as peças publicitárias da agência israelense.
  • Volume diário: pelo menos 10 milhões de anúncios eram distribuídos por dia em todo o mundo, segundo estimativa de Jerome Dangu, cofundador e diretor de tecnologia da Confiant.
  • Escala de rastreamento: centenas de milhões de usuários foram potencialmente monitorados por meio da rede e de acordos de compartilhamento de dados conhecidos como cookie matching.
  • Dispositivos invadidos: pelo menos 45 computadores com sistema Windows pertencentes à rede de notícias Al Jazeera, do Catar, foram comprometidos pelo spyware da Candiru entre 2024 e 2025.

Alvos da Discover-Tech no Oriente Médio e em redes de defesa

A invasão contra a Al Jazeera foi confirmada após a emissora catari compartilhar seus registros internos de tráfego de rede com a equipe do Citizen Lab. Além dos ataques direcionados à imprensa, Jerome Dangu apontou que os territórios palestinos estavam saturados pelas peças publicitárias da companhia israelense. “Você acessa praticamente qualquer site na Palestina — qualquer site — e encontra um anúncio da Discover-Tech. Isso lhes dá uma visibilidade muito completa das atividades digitais de um país inteiro”, declarou o executivo da Confiant.

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Para Jonathan Rozen, diretor adjunto de pesquisa do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), o caso demonstra o desvio de finalidade das ferramentas comerciais da internet. “A arquitetura de vigilância em massa que sustenta a publicidade online está sendo aproveitada para outros fins e coloca jornalistas em risco”, disse Rozen, em tradução livre. Os pesquisadores também descobriram que a própria Discover-Tech expôs por engano seus registros de autenticação na internet em um endereço de download desprotegido sem senha, o que revelou acessos realizados a partir de endereços IP localizados em Israel, na Europa e na região do Golfo.

Fora do Oriente Médio, os anúncios ligados à agência foram exibidos em redes de mais de uma dúzia de governos nacionais e de corporações estratégicas:

  • Órgãos governamentais e multilaterais: Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Pentágono), Organização das Nações Unidas (ONU), Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Comissão Europeia, Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e Tribunal Penal Internacional (TPI).
  • Indústria de semicondutores: redes internas das fabricantes de chips Nvidia, Sandisk, Broadcom e Micron.
  • Comunicação: empresas de mídia localizadas na Áustria, Dinamarca, França, Israel, Itália, México, Noruega e Suécia.

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Bloqueios contra a Discover-Tech e histórico de alertas militares

A exposição do esquema levou a bloqueios imediatos no setor de tecnologia em 15 de outubro de 2026. Após ser notificado pelos pesquisadores, o Google baniu a Discover-Tech de suas plataformas por violação sistemática de políticas e passou a exibir alertas de segurança no navegador Chrome para visitas a páginas vinculadas ao grupo. A associação europeia de marketing digital IAB Europe suspendeu a empresa de sua lista global de fornecedores aprovados após uma auditoria, e a Beeswax removeu a agência de seu sistema. “É desastroso que grandes fornecedores de anúncios e organizações aparentemente não tenham sido capazes de detectar nem de impedir as operações de publicidade maliciosa da empresa durante anos”, afirmou Wolfie Christl, em tradução livre, acrescentando que “o bloqueio de anúncios deve agora ser considerado uma prática recomendada de cibersegurança”.

O uso de ferramentas comerciais para fins de inteligência já havia motivado restrições governamentais anteriores. A própria Discover-Tech já contou em seu conselho com nomes conhecidos da indústria de spyware mercenário, como Eric Banoun. Já a parceira Candiru foi incluída pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos em sua lista de restrições comerciais (Entity List, relação oficial de empresas sujeitas a sanções e bloqueios de exportação) em 2021, acusada de fornecer programas espiões usados contra autoridades governamentais, jornalistas, empresários, ativistas, acadêmicos e funcionários de embaixadas. No início de 2026, o Pentágono também relatou que tropas norte-americanas enviadas a zonas de guerra foram alvo de ataques baseados em dados de localização coletados por corretores de dados e empresas de publicidade, fato que levou divisões das Forças Armadas dos Estados Unidos a desativarem o rastreamento publicitário em aparelhos militares.

Os relatórios publicados não identificaram qual governo ou cliente específico contratou os ataques de spyware contra os computadores da Al Jazeera, e os pesquisadores mantiveram sob sigilo os nomes das empresas de mídia atingidas na Europa, no México e em Israel. A Discover-Tech, seu diretor executivo Dekel Boni, os proprietários da Candiru, a emissora Al Jazeera e a empresa russa Yandex não responderam aos pedidos de manifestação sobre o caso.

Jeronimo Santos: Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing