Casos na família do Papa Leão XIV mostram como a genética pode influenciar o risco de câncer

Papa Leão XIV - X/Twitter/pontifex

Papa Leão XIV - X/Twitter/pontifex

O líder da Igreja Católica, Papa Leão XIV, de 71 anos, recebeu o diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar após passar por uma cirurgia no Hospital Policlínico Gemelli, em Roma, na Itália, na terça-feira (13). A operação retirou o lobo inferior do pulmão direito do pontífice, e o Vaticano suspendeu todos os compromissos públicos e audiências até a próxima terça-feira (20).

Enquanto o pontífice se recupera em território italiano, o irmão mais velho dele, Louis Martín Prevost, de 74 anos, enfrenta um tratamento contra o mieloma múltiplo (câncer sanguíneo que atinge as células plasmáticas e a medula óssea) em um hospital na Flórida, nos Estados Unidos. Sobre a cirurgia realizada em Roma, o médico Luigi Carbone e o professor Stefano Margaritora, chefe de cirurgia torácica do Hospital Gemelli, declararam em boletim divulgado pela Santa Sé: “Para garantir a remoção total da lesão, o lobo inferior do pulmão direito foi removido através de uma técnica assistida por vídeo. O exame histológico intraoperatório confirmou o diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar, tal como suspeitado pelos exames pré-operatórios”.

Recuperação do Papa Leão XIV no Hospital Gemelli em Roma

O procedimento cirúrgico em Roma não teve complicações. O Papa Leão XIV apresentou evolução clínica positiva nos dias seguintes à retirada do nódulo. Em comunicado emitido nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, às 14h02 no horário local de Roma (09h02 pelo horário de Brasília), a Sala de Imprensa da Santa Sé atualizou o quadro de saúde do líder religioso.

“O Santo Padre realizou, esta manhã, os exames de rotina, cujos resultados estão dentro da normalidade. A radiografia do tórax revelou uma boa recuperação do pulmão operado”, afirmaram Luigi Carbone e Stefano Margaritora no documento oficial. No dia anterior, quarta-feira (14), a administração do Vaticano já havia informado que o paciente teve noites tranquilas, retomou a alimentação e as caminhadas pelo hospital, iniciou sessões de fisioterapia respiratória e enviou um agradecimento acompanhado de pedido de orações aos fiéis.

O próprio pontífice havia anunciado a descoberta de um pequeno nódulo em fase inicial durante a cerimônia do Angelus, no Vaticano, no domingo (11).

Cronologia e dados clínicos da internação do Papa Leão XIV

  • Local da operação: Hospital Policlínico Gemelli, em Roma, Itália.
  • Tempo de procedimento: cerca de 90 minutos de cirurgia videoassistida, com permanência aproximada de três horas no centro cirúrgico.
  • Previsão de internação hospitalar: cerca de uma semana a partir de 13 de outubro de 2026.
  • Taxas de sobrevida em cinco anos para adenocarcinoma pulmonar segundo a Associação Internacional para o Estudo do Câncer de Pulmão (IASLC): de 90% a 92% no estágio 1A1 (mais inicial); de 52% a 65% no estágio 2; de 12% a 41% no estágio 3; e de até 15% no estágio 4.
  • Incidência da doença no Brasil: cerca de 31 mil novos casos de câncer de pulmão são registrados anualmente no país.

Irmão do Papa Leão XIV realiza terapia celular na Flórida

A confirmação do tumor pulmonar do pontífice ocorreu um dia depois de uma etapa do tratamento oncológico de seu irmão nos Estados Unidos. Louis Prevost recebeu o diagnóstico inicial de mieloma múltiplo em 2017 e manteve a doença controlada após um transplante de células-tronco em 2019. Há três meses, contudo, o quadro saiu de remissão. Ele ingressou em um ensaio clínico de terapia celular CAR-T (tratamento que modifica células de defesa do próprio paciente em laboratório para combater o tumor) e recebeu a infusão de novas células na segunda-feira (12).

Em declaração nos Estados Unidos, Louis Prevost comentou a recuperação do irmão em Roma: “Recebi uma mensagem do braço direito dele dizendo que ele tinha saído da cirurgia, estava acordado, sentindo-se bem e sem dor. Então, até onde sei no momento, ele está em boa forma, em boas mãos. Eles descobriram cedo o suficiente, e ele poderá se recuperar da cirurgia e seguir com seu ministério papal”, disse, em tradução livre. Ele também avaliou a postura de ambos diante dos diagnósticos e afirmou acreditar que a atitude positiva dos dois ajudou muito a mantê-lo vivo e relativamente saudável, acrescentando que o mesmo acontecerá com o pontífice.

A esposa de Louis e cunhada do pontífice, Deborah Prevost, relatou que houve contato direto entre os irmãos antes da intervenção médica na Itália. Segundo Deborah, o Papa ligou para avisar a família sobre o procedimento, e os parentes continuam rezando e mantendo o ânimo elevado pelos dois irmãos.

Histórico familiar dos Prevost e fatores genéticos do adenocarcinoma

O diagnóstico simultâneo dos irmãos soma-se ao histórico oncológico dos pais de Robert Francis Prevost, nome de batismo de Leão XIV. A mãe do pontífice, Mildred Agnes Martínez Prevost, morreu em 1990 em decorrência de um câncer, após realizar sessões de quimioterapia. O tipo específico de tumor que a vitimou não foi detalhado. O pai, Louis Marius Prevost, morreu em 1997 vítima de câncer de cólon e de doença cardíaca.

O adenocarcinoma pulmonar diagnosticado no líder católico é o subtipo mais frequente de câncer no órgão, inclusive entre pacientes sem histórico de tabagismo, como é o caso do pontífice. Um estudo científico que analisou mais de 24 mil casos de câncer de pulmão apontou que, quando o tumor não tem origem no hábito de fumar, o risco médio de desenvolver a doença é cerca de 1,51 vez maior em indivíduos com antecedentes na família, elevando-se quando o parente afetado é um irmão. A associação genética direta, porém, é mais forte quando os familiares apresentam tumores no mesmo órgão, sendo menos expressiva quando cada parente desenvolve um tipo diferente de câncer.

Além da hereditariedade e do fumo, tumores pulmonares podem decorrer da exposição à poluição, a agentes tóxicos ou de mutações genéticas espontâneas. Segundo o médico Helano Freitas, colíder do Centro de Referência em Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo Cancer Center, alterações específicas orientam o tratamento moderno da doença. “Mutações no gene EGFR estão presentes em cerca de 20% dos casos de adenocarcinoma de pulmão. Inibidores de EGFR foram as primeiras terapias-alvo a demonstrar maior eficácia e melhor tolerância em relação à quimioterapia, há cerca de uma década”, afirmou o especialista, em análise que também contou com a participação de Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas e colaborador da Americas Health Foundation.

Viagem de Leão XIV à América Latina depende de laudo definitivo

Nascido em Chicago em 14 de setembro de 1955 e eleito em 8 de maio de 2025 como o primeiro pontífice norte-americano da história, Leão XIV enfrenta a primeira internação hospitalar de seus 17 meses de pontificado; antes disso, o registro médico conhecido do religioso incluía apenas uma hospitalização por febre tifoide em 1985. O Vaticano ainda não divulgou o estágio exato do adenocarcinoma pulmonar nem o perfil de mutações genéticas do nódulo retirado.

A equipe médica aguarda o resultado do laudo anatomopatológico definitivo para definir se o Papa precisará de tratamentos complementares, como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou terapia-alvo. A realização da viagem oficial que Leão XIV tem agendada para a América Latina em novembro de 2026 dependerá da evolução de sua recuperação clínica e das conclusões desse exame patológico final.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.