Pesquisadores do Instituto Smithsonian de Pesquisas Tropicais (STRI) registraram em Gamboa, no Panamá, os duetos vibratórios que as cigarrinhas da espécie Guayaquila gracilicornis realizam através dos caules das plantas durante o cortejo. O estudo, divulgado pela instituição em 30 de setembro de 2026, mostra que as fêmeas têm participação ativa na comunicação e manipulam o comportamento dos machos por meio de ondas mecânicas inaudíveis para os seres humanos.
A investigação foi conduzida pela pesquisadora de pós-doutorado em comportamento animal Judith A.H. Smit, bolsista financiada pela Fundação NOMIS no STRI, junto com a estagiária Maria Paz Rueda Rodríguez e o bolsista RaMP-UP Omar Morosse. Segundo a cientista, o mecanismo substitui o som propagado pelo ar por tremores no tecido vegetal. “Nós, humanos, não conseguimos ouvir ou sentir esses sinais vibratórios porque não somos sensíveis a eles, então é uma forma de comunicação inteiramente diferente da que estamos acostumados, mas é muito comum entre os insetos”, afirmou Judith A.H. Smit, em tradução livre.
Como as cigarrinhas Guayaquila gracilicornis produzem e sentem os sinais na planta?
Os insetos pertencem à família Membracidae, grupo conhecido popularmente como membracídeos ou, em inglês, treehoppers. Para emitir uma mensagem sem cantar no ar, a cigarrinha prende as pernas firmemente ao caule da planta hospedeira e sacode o abdômen com rapidez. Esse movimento gera ondas mecânicas que viajam pelo interior do tecido vegetal até alcançar outros indivíduos posicionados nos ramos conectados, que captam a vibração pelas próprias pernas.
Durante o período de acasalamento da espécie tropical Guayaquila gracilicornis, machos e fêmeas alternam essas emissões em duetos coordenados que permitem ao casal ajustar o comportamento e se localizar na estrutura da planta. Judith A.H. Smit comparou essa troca de coordenadas à brincadeira de cabra-cega “Marco Polo”, na qual um participante chama e o outro responde para indicar a direção. A informação viaja codificada na duração, no intervalo e na frequência do movimento que percorre o substrato, sofrendo variações conforme atravessa caules, folhas e pontos de ramificação que filtram determinadas frequências.
Quando os registros mecânicos são convertidos em arquivos de áudio para análise humana, as diferenças entre os sexos ficam evidentes na faixa audível. O chamado do macho de Guayaquila gracilicornis começa em tons graves, sobe para os agudos e apresenta uma sequência de pulsos marcados. Já a resposta emitida pela fêmea receptiva é longa e diminui gradualmente de tom. “As fêmeas quase soam como baleias”, declarou a pesquisadora do STRI ao descrever a sonorização das gravações.
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Experimentos com laser e vibrador em Gamboa testaram reação dos insetos
Para captar uma movimentação tão sutil sem a interferência de ruídos externos ou de outros animais, a equipe coletou os insetos juntamente com suas plantas hospedeiras e transferiu os casais para recintos silenciosos nos laboratórios do STRI em Gamboa. Os cientistas instalaram acelerômetros e utilizaram um vibrômetro laser Doppler, equipamento óptico de alta precisão que mede microvibrações na superfície da planta sem tocá-la. O processo permitiu associar cada padrão vibratório diretamente ao comportamento observado no casal, descartando a ideia de que qualquer tremor no caule seja uma conversa de acasalamento.
Além de gravar os duetos naturais, o grupo executou testes de reprodução, técnica científica chamada de playback, acoplando às plantas um pequeno aparelho semelhante ao motor vibratório de um telefone celular. Com o equipamento, os pesquisadores transmitiram sinais artificiais pelo caule para medir a reação das cigarrinhas em tempo real. “Nós acoplamos este dispositivo à planta e tocamos diferentes vibrações. Sintetizamos diferentes sinais de cigarrinhas, para torná-los mais longos ou mudar o tom, e os reproduzimos para ver como as cigarrinhas respondiam, se elas mudavam seu comportamento”, explicou Judith A.H. Smit.
Os resultados dos testes em laboratório revelaram que as fêmeas não apenas respondem aos chamados, mas conduzem a interação e alteram a conduta dos parceiros, contrariando a premissa científica tradicional sobre o cortejo entre animais. “Muito do que sabemos sobre comunicação animal é focado nos machos que produzem essas danças ou cantos, enquanto as fêmeas são frequentemente vistas como bastante passivas, não participando muito da interação. Parece algo muito unilateral. Mas estudar os membracídeos e seus duetos mostra o quão ativas essas fêmeas são, e como elas manipulam o comportamento do macho também. Isso desafia o que sabemos sobre comunicação animal”, avaliou a líder do estudo.
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Números, datas e ficha técnica da pesquisa sobre os membracídeos no Panamá
A documentação institucional do estudo e o levantamento de biodiversidade dos membracídeos no continente americano reúnem marcas específicas de tamanho, distribuição geográfica e cronologia de divulgação:
- Espécie analisada nos testes de cortejo: Guayaquila gracilicornis (família Membracidae).
- Comprimento médio dos insetos estudados: menos de 1 centímetro (equivalente a meia polegada).
- Total de espécies de membracídeos conhecidas no mundo: mais de 3.000 espécies.
- Diversidade registrada apenas no território do Panamá: cerca de 300 espécies descritas.
- Local de coleta e dos testes de laboratório: instalações do STRI em Gamboa, no Panamá.
- Divulgação oficial do estudo em espanhol pelo STRI: 29 de setembro de 2026.
- Divulgação oficial do estudo em inglês pelo STRI: 30 de setembro de 2026.
- Repercussão internacional do trabalho científico: 3 de outubro de 2026.
Relação da Guayaquila gracilicornis com formigas e registros anteriores em vídeo
Fora dos momentos de cortejo individual, as cigarrinhas da espécie Guayaquila gracilicornis vivem agrupadas nas plantas e alimentam-se sugando a seiva vegetal. Elas possuem uma estrutura corporal característica no pronoto — a placa dorsal do tórax — que se desenvolve no formato de um capacete ou espinho. Esses insetos mantêm uma relação de benefício mútuo, chamada de mutualismo, com colônias de formigas: as cigarrinhas excretam uma substância açucarada, conhecida pelo termo em inglês honeydew, que serve de alimento para as formigas, e recebem em troca proteção física contra predadores.
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O interesse científico pelo código mecânico dessa família de insetos já havia gerado registros audiovisuais uma década antes das descobertas feitas em Gamboa sobre o papel das fêmeas. Em 31 de maio de 2016, a revista científica bioGraphic, vinculada à Academia de Ciências da Califórnia (California Academy of Sciences), publicou em sua plataforma o documentário curto “Invisible Nature: Code of the Treehopper”, dirigido por Flora Lichtman e disponibilizado em canal de vídeo em 1º de junho de 2016, demonstrando como a tecnologia a laser começava a tornar audíveis os sinais transmitidos pelos caules.
