Havan descarta IPO e foca expansão no Norte e Nordeste até 2027

7 min de leitura
Havan Foto: Havan - Foto: ImagensstockBR / Shutterstock.com

O empresário Luciano Hang, fundador e único acionista da Havan, anunciou nesta quinta-feira (15) que a rede varejista descartou abrir capital na Bolsa de Valores e focará sua expansão nas regiões Norte e Nordeste. Com R$ 3,5 bilhões em caixa e aplicações financeiras, a empresa sediada em Brusque (SC) planeja alcançar 210 lojas em operação até 2027 utilizando apenas recursos próprios, sem recorrer a novos investidores.

A decisão encerra em definitivo o projeto de oferta pública inicial de ações (IPO, sigla em inglês para a estreia de uma empresa na Bolsa), estudado e engavetado em 2021, quando a varejista cogitou vender entre 5% e 10% do negócio. “Não vamos mais abrir capital. Nós temos capital para continuar seguindo o nosso caminho sozinho, sem interferência do mercado de capitais que às vezes cobra um curto prazo e não vê a longo prazo”, afirmou Luciano Hang.

Expansão da Havan no Norte e Nordeste mantém formato de megalojas

As regiões Norte e Nordeste serão as prioridades da companhia nos próximos anos para ampliar a presença onde a marca ainda tem poucas unidades. O avanço seguirá o formato tradicional de megalojas, que reúnem eletrodomésticos, eletrônicos, roupas, brinquedos, decoração e artigos domésticos no mesmo espaço. Hang avalia que a variedade atual de produtos “está perfeita” e mantém o foco do negócio em “encantar os clientes”, aproveitando a baixa concorrência com outras redes de grande porte fora dos grandes centros urbanos.

Relembre: Luciano Hang comemora marca histórica da Havan com lucro bilionário e expansão no varejo nacional

Hoje, a estrutura consolidada da rede concentra-se no Sul e no Sudeste, distribuída principalmente em quatro estados:

  • Santa Catarina: quase 50 lojas em operação;
  • Paraná: mais de 40 unidades;
  • São Paulo: mais de 40 unidades;
  • Rio Grande do Sul: previsão de ultrapassar 30 lojas.

Segundo relatório da agência de classificação de risco Fitch Ratings, a Havan contabilizava 189 lojas em funcionamento em 30 de junho de 2026. A projeção analisada pela instituição aponta que a varejista deve encerrar 2026 com 203 unidades e atingir 210 lojas em 2027, o que representa a abertura de 21 novos pontos comerciais em relação ao registrado em junho. A lista detalhada das cidades específicas do Norte e do Nordeste que receberão as novas megalojas até 2027 ainda não foi confirmada.

Continue lendo: Estátua da Havan é pichada em Natal e gera busca por suspeito

Caixa de R$ 3,5 bilhões da Havan e investimentos até 2027

O balanço financeiro de 30 de junho de 2026 avaliado pela Fitch Ratings mostra que os R$ 3,5 bilhões em caixa e aplicações financeiras da Havan superam a dívida total ajustada da companhia, calculada em R$ 2,2 bilhões. Desse endividamento, R$ 1,3 bilhão refere-se a obrigações de longo prazo com aluguéis, enquanto a dívida financeira direta — formada por empréstimos e debêntures (títulos de dívida emitidos por empresas) — soma R$ 670 milhões, com vencimentos até o fim de 2027 e sem previsão de novas captações. Além do caixa da varejista, o grupo econômico ligado a Luciano Hang detém cerca de R$ 4,9 bilhões em aplicações financeiras diversas, inclusive no exterior, sendo metade desse montante classificada como caixa restrito, sem disponibilidade imediata.

Para sustentar a abertura de megalojas e a modernização do seu centro de distribuição, as estimativas indicam investimentos de aproximadamente R$ 1 bilhão ao longo de 2026 e de cerca de R$ 700 milhões em 2027. Mesmo com esses aportes e com a distribuição prevista de dividendos de R$ 1 bilhão em 2026 e R$ 1,7 bilhão em 2027 — parte da qual deve retornar à operação via aumento de capital —, a Fitch projeta um fluxo de caixa livre positivo entre R$ 240 milhões e R$ 250 milhões. O resultado operacional medido pelo EBITDAR (indicador que calcula o lucro antes de juros, impostos, depreciação, amortização e custos com aluguéis) deve chegar a R$ 3,6 bilhões em 2026 e a R$ 4,2 bilhões em 2027.

Lucro recorde de R$ 1,49 bilhão da Havan e impacto dos juros no cartão

A capacidade de autofinanciamento da rede apoia-se no salto dos resultados recentes do Grupo Havan, cujos demonstrativos combinados englobam também atividades imobiliárias, participação em pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), investimentos no exterior e serviços financeiros. O lucro líquido da companhia subiu de R$ 424,9 milhões em 2022 para o recorde de R$ 1,49 bilhão em 2025, um crescimento de 249,7%, enquanto o faturamento bruto avançou de R$ 14,25 bilhões para R$ 18,34 bilhões no mesmo intervalo (com receita líquida de R$ 13,7 bilhões em 2025). No primeiro trimestre de 2026, o lucro líquido somou R$ 285,4 milhões, alta de 12,9% sobre igual período do ano anterior, com faturamento bruto de R$ 4,56 bilhões (avanço de 18,7%) e projeção da empresa de alcançar R$ 22 bilhões de faturamento bruto no ano em que completa quatro décadas.

Apesar da folga financeira, Luciano Hang afirma que a desaceleração do consumo, o custo do crédito e as incertezas fiscais exigem prudência na gestão do varejo. “O empresário e o cliente só compram quando se sentem seguros na economia, quando veem que a inflação vai baixar, os juros vão baixar e a economia vai melhorar”, declarou o fundador da rede.

A cautela recai diretamente sobre o cartão próprio da Havan, que responde por cerca de metade das vendas das lojas. “Juros altos significa, lá na frente, um aumento da inadimplência. Já sofremos isso em 2022 e 2023, então estamos cautelosos”, disse Hang. Na avaliação da Fitch Ratings, porém, a operação de crédito ao consumidor da varejista é rentável e mantém inadimplência controlada, razão pela qual a agência exclui do cálculo da dívida da empresa cerca de R$ 2,3 bilhões em valores a receber do financiamento a clientes.

Nota máxima AAA(bra) da Havan na Fitch Ratings e metas de vendas

Em relatório publicado em 8 de setembro de 2026, a Fitch Ratings reafirmou a classificação nacional de longo prazo AAA(bra) da Havan S.A., nota máxima na escala de risco de crédito no país, com perspectiva estável. O nível é o mesmo atribuído à joalheria Vivara e superior ao da rede de academias Smart Fit, avaliada em AA+(bra) por apresentar maior endividamento proporcional à geração de caixa, ainda que opere com margens acima de 40%.

As projeções da agência para o desempenho da varejista nos próximos anos consideram os seguintes indicadores operacionais e macroeconômicos:

  • Crescimento nas vendas das lojas já existentes: alta de 12% em 2026 e avanço anual entre 8% e 10% a partir de 2027;
  • Margem operacional de EBITDAR: estabilidade entre 23% e 24% nos próximos três anos, acima da média dos concorrentes de itens não essenciais;
  • Premissas de juros médios no Brasil: 14% ao ano em 2026 e 12,1% ao ano em 2027;
  • Premissas de inflação anual: 5% em 2026 e 4% em 2027.

Como a companhia já ocupa o topo da escala nacional de crédito, não há espaço para elevação da nota atual. A Fitch ressalta que uma revisão negativa da classificação só ocorreria em caso de perda relevante de participação de mercado, queda seguida nas margens de lucro ou aumento contínuo do endividamento.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

Notícias relacionadas