O empresário Luciano Hang, fundador e único acionista da Havan, anunciou nesta quinta-feira (15) que a rede varejista descartou abrir capital na Bolsa de Valores e focará sua expansão nas regiões Norte e Nordeste. Com R$ 3,5 bilhões em caixa e aplicações financeiras, a empresa sediada em Brusque (SC) planeja alcançar 210 lojas em operação até 2027 utilizando apenas recursos próprios, sem recorrer a novos investidores.
A decisão encerra em definitivo o projeto de oferta pública inicial de ações (IPO, sigla em inglês para a estreia de uma empresa na Bolsa), estudado e engavetado em 2021, quando a varejista cogitou vender entre 5% e 10% do negócio. “Não vamos mais abrir capital. Nós temos capital para continuar seguindo o nosso caminho sozinho, sem interferência do mercado de capitais que às vezes cobra um curto prazo e não vê a longo prazo”, afirmou Luciano Hang.
Expansão da Havan no Norte e Nordeste mantém formato de megalojas
As regiões Norte e Nordeste serão as prioridades da companhia nos próximos anos para ampliar a presença onde a marca ainda tem poucas unidades. O avanço seguirá o formato tradicional de megalojas, que reúnem eletrodomésticos, eletrônicos, roupas, brinquedos, decoração e artigos domésticos no mesmo espaço. Hang avalia que a variedade atual de produtos “está perfeita” e mantém o foco do negócio em “encantar os clientes”, aproveitando a baixa concorrência com outras redes de grande porte fora dos grandes centros urbanos.
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Hoje, a estrutura consolidada da rede concentra-se no Sul e no Sudeste, distribuída principalmente em quatro estados:
- Santa Catarina: quase 50 lojas em operação;
- Paraná: mais de 40 unidades;
- São Paulo: mais de 40 unidades;
- Rio Grande do Sul: previsão de ultrapassar 30 lojas.
Segundo relatório da agência de classificação de risco Fitch Ratings, a Havan contabilizava 189 lojas em funcionamento em 30 de junho de 2026. A projeção analisada pela instituição aponta que a varejista deve encerrar 2026 com 203 unidades e atingir 210 lojas em 2027, o que representa a abertura de 21 novos pontos comerciais em relação ao registrado em junho. A lista detalhada das cidades específicas do Norte e do Nordeste que receberão as novas megalojas até 2027 ainda não foi confirmada.
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Caixa de R$ 3,5 bilhões da Havan e investimentos até 2027
O balanço financeiro de 30 de junho de 2026 avaliado pela Fitch Ratings mostra que os R$ 3,5 bilhões em caixa e aplicações financeiras da Havan superam a dívida total ajustada da companhia, calculada em R$ 2,2 bilhões. Desse endividamento, R$ 1,3 bilhão refere-se a obrigações de longo prazo com aluguéis, enquanto a dívida financeira direta — formada por empréstimos e debêntures (títulos de dívida emitidos por empresas) — soma R$ 670 milhões, com vencimentos até o fim de 2027 e sem previsão de novas captações. Além do caixa da varejista, o grupo econômico ligado a Luciano Hang detém cerca de R$ 4,9 bilhões em aplicações financeiras diversas, inclusive no exterior, sendo metade desse montante classificada como caixa restrito, sem disponibilidade imediata.
Para sustentar a abertura de megalojas e a modernização do seu centro de distribuição, as estimativas indicam investimentos de aproximadamente R$ 1 bilhão ao longo de 2026 e de cerca de R$ 700 milhões em 2027. Mesmo com esses aportes e com a distribuição prevista de dividendos de R$ 1 bilhão em 2026 e R$ 1,7 bilhão em 2027 — parte da qual deve retornar à operação via aumento de capital —, a Fitch projeta um fluxo de caixa livre positivo entre R$ 240 milhões e R$ 250 milhões. O resultado operacional medido pelo EBITDAR (indicador que calcula o lucro antes de juros, impostos, depreciação, amortização e custos com aluguéis) deve chegar a R$ 3,6 bilhões em 2026 e a R$ 4,2 bilhões em 2027.
Lucro recorde de R$ 1,49 bilhão da Havan e impacto dos juros no cartão
A capacidade de autofinanciamento da rede apoia-se no salto dos resultados recentes do Grupo Havan, cujos demonstrativos combinados englobam também atividades imobiliárias, participação em pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), investimentos no exterior e serviços financeiros. O lucro líquido da companhia subiu de R$ 424,9 milhões em 2022 para o recorde de R$ 1,49 bilhão em 2025, um crescimento de 249,7%, enquanto o faturamento bruto avançou de R$ 14,25 bilhões para R$ 18,34 bilhões no mesmo intervalo (com receita líquida de R$ 13,7 bilhões em 2025). No primeiro trimestre de 2026, o lucro líquido somou R$ 285,4 milhões, alta de 12,9% sobre igual período do ano anterior, com faturamento bruto de R$ 4,56 bilhões (avanço de 18,7%) e projeção da empresa de alcançar R$ 22 bilhões de faturamento bruto no ano em que completa quatro décadas.
Apesar da folga financeira, Luciano Hang afirma que a desaceleração do consumo, o custo do crédito e as incertezas fiscais exigem prudência na gestão do varejo. “O empresário e o cliente só compram quando se sentem seguros na economia, quando veem que a inflação vai baixar, os juros vão baixar e a economia vai melhorar”, declarou o fundador da rede.
A cautela recai diretamente sobre o cartão próprio da Havan, que responde por cerca de metade das vendas das lojas. “Juros altos significa, lá na frente, um aumento da inadimplência. Já sofremos isso em 2022 e 2023, então estamos cautelosos”, disse Hang. Na avaliação da Fitch Ratings, porém, a operação de crédito ao consumidor da varejista é rentável e mantém inadimplência controlada, razão pela qual a agência exclui do cálculo da dívida da empresa cerca de R$ 2,3 bilhões em valores a receber do financiamento a clientes.
Nota máxima AAA(bra) da Havan na Fitch Ratings e metas de vendas
Em relatório publicado em 8 de setembro de 2026, a Fitch Ratings reafirmou a classificação nacional de longo prazo AAA(bra) da Havan S.A., nota máxima na escala de risco de crédito no país, com perspectiva estável. O nível é o mesmo atribuído à joalheria Vivara e superior ao da rede de academias Smart Fit, avaliada em AA+(bra) por apresentar maior endividamento proporcional à geração de caixa, ainda que opere com margens acima de 40%.
As projeções da agência para o desempenho da varejista nos próximos anos consideram os seguintes indicadores operacionais e macroeconômicos:
- Crescimento nas vendas das lojas já existentes: alta de 12% em 2026 e avanço anual entre 8% e 10% a partir de 2027;
- Margem operacional de EBITDAR: estabilidade entre 23% e 24% nos próximos três anos, acima da média dos concorrentes de itens não essenciais;
- Premissas de juros médios no Brasil: 14% ao ano em 2026 e 12,1% ao ano em 2027;
- Premissas de inflação anual: 5% em 2026 e 4% em 2027.
Como a companhia já ocupa o topo da escala nacional de crédito, não há espaço para elevação da nota atual. A Fitch ressalta que uma revisão negativa da classificação só ocorreria em caso de perda relevante de participação de mercado, queda seguida nas margens de lucro ou aumento contínuo do endividamento.
