Quatro estrelas com composições químicas incomuns, antes consideradas provas da existência de hipernovas na Via Láctea e em uma galáxia vizinha, formaram-se provavelmente a partir de supernovas comuns e da fusão de estrelas de nêutrons. A conclusão integra dois estudos conduzidos por pesquisadores do Mullard Space Science Laboratory, laboratório de ciência espacial da University College London (UCL), em Londres, no Reino Unido, divulgados em 5 de outubro de 2026.
Publicados na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, os trabalhos desenvolveram modelos matemáticos que descartam a necessidade de explosões colossais para justificar os elementos observados nesses astros. “Desenvolvemos modelos matemáticos que levaram isso em conta e descobrimos, em todos os casos, que estrelas com uma mistura muito incomum de ingredientes foram muito provavelmente formadas a partir de supernovas comuns. Toda a evidência que vemos para hipernovas de repente desaparece”, afirmou Anmol Aggarwal, doutorando no Mullard Space Science Laboratory da University College London e primeiro autor dos estudos, em tradução livre.
Distribuição de oxigênio e enxofre nas supernovas explica três estrelas analisadas pela UCL
A equipe composta por Anmol Aggarwal e pelo coautor Ralph Schoenrich, pesquisador no mesmo laboratório da instituição britânica, baseou os cálculos no fato de que uma supernova comum não espalha seu material de maneira esférica e uniforme pelo espaço. Quando a explosão ocorre, elementos químicos são arremessados de forma assimétrica, fazendo com que novas gerações estelares se formem a partir de fragmentos isolados da ejeção, e não de uma mistura homogênea de toda a estrela original. “Se olharmos para uma supernova atualmente, os materiais da estrela não se espalham de maneira uniforme. O oxigênio pode voar predominantemente em uma direção, o enxofre em outra. Novas estrelas podem se formar a partir de uma mistura de pedaços da supernova, e não de sua mistura geral de elementos”, declarou Aggarwal.
No primeiro estudo, os cientistas aplicaram essa distribuição desigual de detritos para avaliar três das quatro estrelas investigadas. Os resultados demonstraram maior probabilidade estatística de que o trio tenha surgido de explosões estelares tradicionais. Entre os astros analisados pelos pesquisadores britânicos, um pertence à galáxia anã do Escultor, vizinha da Via Láctea, enquanto outro apresenta menos de um centésimo de milésimo da proporção de ferro registrada no Sol. A terceira estrela do grupo havia sido atribuída, em análises anteriores, a uma estrela progenitora com cerca de 80 vezes a massa solar que teria gerado uma explosão com mais de 20 vezes a energia de uma supernova comum, hipótese agora substituída pelo modelo de espalhamento assimétrico.
Para calcular a proporção exata de substâncias que deu origem a esses corpos celestes, os pesquisadores simularam a estrutura interna das estrelas antes do colapso. “Pouco antes de uma estrela virar uma supernova, ela tem camadas como uma cebola, com elementos mais pesados no centro e os mais leves mais para fora. Nosso modelo analisa a quantidade de material de cada camada ou de cada região que seria necessária para se ajustar à estrela observada”, explicou Schoenrich.
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Origem da gigante vermelha no halo da Via Láctea envolve estrelas de nêutrons
O segundo artigo científico concentrou-se na quarta estrela do levantamento: uma gigante vermelha localizada no halo da Via Láctea que apresenta alta concentração de elementos pesados, como prata, urânio e tório. Até a publicação do novo cálculo, a presença dessas substâncias era tratada como indicativo de uma hipernova, já que a alternativa conhecida — a fusão de estrelas de nêutrons, que são restos estelares densos e massivos — havia sido descartada em pesquisas prévias. Os astrônomos consideravam que não haveria tempo suficiente para que estrelas de nêutrons se formassem e colidissem antes do nascimento da gigante vermelha, além de o astro não exibir todos os elementos esperados após uma colisão isolada desse tipo.
Ao cruzar os dados em um modelo da Via Láctea enriquecido com elementos mais pesados que o hidrogênio e o hélio, Aggarwal e Schoenrich identificaram uma trajetória diferente para o astro. A simulação apontou que a gigante vermelha se formou originalmente em uma galáxia anã pobre em metais que, mais tarde, fundiu-se com a Via Láctea. Nesse ambiente, a composição química da estrela foi resultado da combinação entre uma fusão de estrelas de nêutrons e os detritos de uma supernova comum.
Diferenças entre supernovas e hipernovas nos estudos de outubro de 2026
Na astronomia, a identificação dos elementos químicos funciona como um registro da origem das estrelas. As supernovas ocorrem quando estrelas massivas esgotam seu combustível para a fusão nuclear que sustenta suas estruturas, sofrem colapso gravitacional do núcleo sobre si mesmas e explodem, lançando no espaço a matéria-prima que será incorporada por novas estrelas e planetas. Já as hipernovas foram propostas teoricamente para justificar astros com composições químicas incomuns no halo da Via Láctea e em galáxias próximas, sob a hipótese de ocorrerem em estrelas ainda mais massivas, de rotação rápida ou fortemente magnéticas, gerando explosões pelo menos 10 vezes mais energéticas que uma supernova típica — premissa que os dois estudos divulgados em 5 de outubro de 2026 contestam para as quatro estrelas avaliadas.
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Dados dos artigos da University College London sobre hipernovas
- Instituição responsável: Mullard Space Science Laboratory, da University College London (UCL), em Londres, Reino Unido.
- Periódico científico: Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.
- Data de divulgação do comunicado da UCL: 5 de outubro de 2026.
- Autores: Anmol Aggarwal e Ralph Schoenrich.
- Títulos originais dos dois artigos: “An unexplored enrichment stochasticity and its implications for stellar abundance patterns” (sobre a estocasticidade de enriquecimento inexplorada e padrões de abundância estelar) e “Mixing stochasticity relinquishes evidence for magnetorotational hypernovae” (sobre como a estocasticidade de mistura dispensa evidências de hipernovas magnetorrotacionais).
- Amostra analisada: 4 estrelas no total, sendo 3 explicadas por supernovas comuns no primeiro estudo e 1 gigante vermelha explicada por supernova comum somada à fusão de estrelas de nêutrons no segundo estudo.
Apesar de os resultados refutarem as evidências químicas atribuídas a hipernovas nessas quatro estrelas específicas, os próprios pesquisadores apontam que ainda não se sabe com exatidão o grau de mistura do material ejetado por supernovas no meio interestelar antes que novas estrelas se formem. “Ainda não sabemos quão bem o material da supernova se mistura antes de formar novas estrelas. Isso apesar de décadas de trabalho nesta área. Nossa pesquisa sugere que alguma mistura ocorre, mas uma mistura incompleta. Precisamos levar isso em conta em nossos modelos de como os elementos químicos evoluem nas galáxias e de como o meio interestelar funciona”, afirmou Schoenrich.
