Populações ribeirinhas das bacias dos rios Tapajós e Amazonas, no Pará, apresentam menor efeito tóxico do mercúrio devido aos altos níveis de selênio no organismo, aponta um estudo coordenado pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP) e divulgado na quarta-feira (14). A pesquisa demonstrou que o nutriente, consumido em abundância na região principalmente por meio da castanha-do-pará, protege moradores que chegam a registrar índices do metal no sangue até 12 vezes acima do limite de segurança da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O trabalho foi conduzido em parceria com a Université de Pau et des Pays de l’Adour, da França, e comprova que o selênio interfere diretamente na trajetória do contaminante antes mesmo do início dos danos às células. “Os resultados sugerem que o selênio não atua apenas depois que o mercúrio começa a produzir danos, reforçando as defesas antioxidantes do organismo. Sua ação parece ocorrer antes disso, na própria toxicocinética do contaminante, isto é, nos processos que determinam como ele circula no organismo, se distribui entre os tecidos e passa por transformações até ser finalmente eliminado”, declarou Fernando Barbosa Júnior, professor da FCFRP-USP e coordenador da pesquisa no Brasil.
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Como o selênio age contra o mercúrio no sangue e nos rins?
Esta é a primeira investigação na Amazônia a realizar a especiação química simultânea — técnica que separa e mede as diferentes formas de um mesmo elemento — das duas principais variações do metal (metilmercúrio e mercúrio inorgânico) no sangue total, no plasma sanguíneo e na urina dos mesmos voluntários. Na região amazônica, os moradores são expostos sobretudo pelo consumo de peixes, nos quais mais de 80% do contaminante está na forma de metilmercúrio, composto orgânico capaz de atravessar membranas biológicas e atingir o sistema nervoso central, provocando perda de coordenação motora, falhas de memória, problemas de visão e danos ao desenvolvimento neurológico de fetos.
As análises demonstraram que apenas 7% do metilmercúrio presente no sangue estava associado ao plasma (a parte líquida responsável por transportar substâncias para outros tecidos), enquanto os outros 93% permaneceram retidos nas células sanguíneas, principalmente nas hemácias. Os cientistas descreveram pela primeira vez em seres humanos que, conforme aumentam as concentrações de selênio no sangue, diminui a passagem do metilmercúrio das células para o plasma. No sangue total dos avaliados, o metilmercúrio correspondeu em média a 76% do metal detectado e o mercúrio inorgânico a 24%; já no plasma, a proporção média mudou para 49% na forma de metilmercúrio e 51% na forma inorgânica.
O estudo também identificou que concentrações mais altas de selênio no sangue e na urina estão associadas a uma maior proporção de mercúrio inorgânico eliminado pela via renal. Essa constatação sustenta a hipótese científica de que o nutriente favorece a desmetilação, processo químico em que o metilmercúrio perde parte de sua estrutura dentro do corpo e se transforma em mercúrio inorgânico, que é a variação predominantemente excretada pelos rins.
Dois mecanismos bioquímicos principais explicam essa barreira no organismo humano. O primeiro é a afinidade química direta entre o selênio e o mercúrio — superior à atração que o metal tem pelo enxofre —, o que gera compostos pouco solúveis e com menor capacidade de circular livremente e interagir com estruturas celulares. O segundo mecanismo envolve a atuação das selenoproteínas (proteínas que contêm selênio em sua estrutura) como enzimas antioxidantes, encarregadas de neutralizar espécies reativas de oxigênio, que são moléculas instáveis cuja produção é agravada pela presença do metal pesado.
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Dados, instituições e números da pesquisa sobre mercúrio no Pará
O artigo científico tem como primeira autora Juliette Esplugas e como autora correspondente Zoyne Pedrero, ambas pesquisadoras do Institut des Sciences Analytiques et de Physico-chimie pour l’Environnement et les Matériaux (IPREM), ligado à universidade francesa e ao Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Assinam também como coautores Gabriel Neves Cezarette, da FCFRP-USP, além de Emmanuel Tessier, Maïté Bueno e Camille Chen, da instituição francesa, em uma rede que envolveu cientistas da Espanha, Eslovênia, Rússia e Estados Unidos. Os principais parâmetros técnicos do levantamento incluem:
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- Artigo e periódico: estudo intitulado “Species-Resolved Mercury in a Brazilian Amazonian Population: Tracking Selenium Modulation of Blood Partitioning and Urinary Excretion”, publicado online em 22 de julho de 2026 na revista científica Environment & Health, da American Chemical Society (ACS Publications), e divulgado em 14 de outubro de 2026 pela Agência FAPESP.
- Coleta de campo: amostras biológicas de sangue e urina recolhidas entre outubro e novembro de 2022 junto a 1.089 voluntários adultos de 13 comunidades ribeirinhas das bacias dos rios Tapajós e Amazonas, no Pará.
- Recorte de especiação: seleção de 56 participantes com ampla variação sanguínea de mercúrio e selênio, moradores de localidades como Brasília Legal, Aveiro, Boim, Arapixuna, Surucuá, Cametá, Parauá, Pinhel, Amorim e Suruacá.
- Escala do programa: os dados integram um Projeto Temático financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) que reúne atualmente informações de mais de 3 mil participantes na Amazônia.
Origem do mercúrio no Tapajós e alertas sobre dieta e suplementos
A investigação atual dá sequência a mais de duas décadas de acompanhamento na região, onde um estudo publicado pelo mesmo grupo em 2013 já havia provado que indivíduos com maior fração de metilmercúrio no plasma sofriam efeitos tóxicos mais graves. Paralelamente, pesquisas ômicas (análises moleculares em larga escala) reforçaram o quadro: em 2025, um artigo na revista Environmental Pollution mostrou que ribeirinhos altamente expostos ao metal, mas com taxas elevadas de selênio, mantinham perfis metabólicos semelhantes aos de pessoas pouco expostas, enquanto um levantamento de transcriptômica detectou alterações na expressão de mais de 14 mil genes ligados à exposição crônica ao contaminante. Sobre a origem do metal nas águas, embora o garimpo despeje entre 90 e 110 toneladas anuais de mercúrio metálico na bacia do Tapajós e revolva sedimentos, pesquisas da década de 1990 na mesma bacia (que atribuíram cerca de 3% do total diretamente à atividade garimpeira) e de 2001 no rio Negro, conduzidas por Pedro Fadini, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e Wilson Jardim, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apontaram que grande parte do elemento está acumulada naturalmente no solo há milhares de anos e chega aos rios por lixiviação (lavagem do solo pelas chuvas).
Nos últimos 20 anos, os cientistas registraram queda nos níveis de exposição ao mercúrio nas comunidades do Tapajós, mas advertem que a redução decorre da troca do peixe por frango congelado e ultraprocessados, como salsichas e outros embutidos, impulsionada pela chegada da energia elétrica e pela menor disponibilidade de pescado diante de mudanças climáticas e ambientais. “Há comunidades com deficiência de ferro e de iodo, além de anemia. Este já é um quadro de insegurança alimentar. Uma atuação para que essa população diminua o consumo de peixe por causa do mercúrio tenderia a piorar a situação. Se a intervenção dos agentes de saúde não considerar tudo isso, poderá trocar um problema por outro ainda maior”, afirmou Barbosa Júnior.
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Os autores também alertam que as descobertas não justificam o consumo indiscriminado de suplementos de selênio, uma vez que o nutriente se torna tóxico quando ingerido em excesso e sua ação depende da dose, da forma química e das condições nutricionais de cada indivíduo. Ainda não se sabe exatamente quais biomoléculas específicas realizam o transporte e a desmetilação observados nos moradores da Amazônia, e a próxima etapa da pesquisa buscará identificar a participação de três principais candidatas nesse processo: a selenoproteína P, a enzima antioxidante glutationa peroxidase e as formas de selênio ligadas à albumina.
