O inventor, impressor e político norte-americano Christopher Latham Sholes (1819–1890) desenvolveu no século 19 o teclado QWERTY, padrão que dá nome às seis primeiras letras da fileira superior esquerda (Q, W, E, R, T, Y) e segue utilizado em computadores e celulares. O desenho definitivo recebeu a patente norte-americana nº 207.559 em 27 de agosto de 1878 para evitar o travamento das hastes metálicas das primeiras máquinas de escrever e atender operadores de telégrafo.
Antes de chegar ao formato atual, Sholes e os co-inventores Carlos Glidden e Samuel W. Soulé registraram a patente norte-americana nº 79.265 em 23 de junho de 1868, na cidade de Milwaukee, no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos. Nos primeiros protótipos, que traziam as teclas organizadas em ordem alfabética, o acionamento rápido de duas teclas vizinhas ou muito utilizadas fazia com que as hastes metálicas — chamadas em inglês de typebars, braços que batiam no papel — colidissem e travassem dentro do cesto tipográfico no ponto exato de impressão.
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Testes de Christopher Latham Sholes e acordo de US$ 12.000 com a Remington
Para impedir que os braços metálicos batessem uns nos outros sem obrigar o datilógrafo a diminuir o ritmo de trabalho, Christopher Latham Sholes e seu investidor e parceiro de negócios, James Densmore, passaram anos testando novas disposições para o equipamento. A dupla reorganizou o painel separando pares de letras acionados com frequência em sequência na língua inglesa, como o encontro consonantal “TH”, distribuindo o movimento das alavancas de maneira alternada pelo cesto tipográfico da máquina.
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O avanço comercial do projeto ocorreu em 1 de março de 1873, quando os detentores da patente venderam os direitos de fabricação pelo valor total de US$ 12.000 para a fabricante de armas E. Remington and Sons (Remington Arms Company), que deu início à produção industrial da máquina batizada de Sholes & Glidden. Naquele modelo comercializado em 1873, a fileira superior apresentava a sequência “Q W E . T Y”, trazendo o ponto final no lugar da letra R, além de não contar com teclas próprias para os algarismos 1 e 0, que eram substituídos na digitação pelas letras maiúsculas I e O. A inclusão da letra R ao lado da letra E na fileira superior só foi oficializada cinco anos depois, com a concessão da patente de 1878 a Sholes.
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Estudo da Universidade de Kyoto sobre o teclado QWERTY e o código Morse
Embora a explicação tradicional atribua o formato do equipamento principalmente à separação mecânica de pares de letras para conter o choque das hastes, pesquisadores japoneses demonstraram que o desenho também respondeu a demandas de outro setor da comunicação. No estudo histórico “On the Prehistory of QWERTY”, publicado em 2011, os pesquisadores Koichi Yasuoka e Motoko Yasuoka, ambos da Universidade de Kyoto, apontaram que o painel evoluiu a partir das necessidades de operadores de telégrafo que precisavam transcrever mensagens em código Morse em tempo real.
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A pesquisa acadêmica refutou a versão popular de que a disposição das teclas teria sido projetada propositalmente para reduzir a velocidade de escrita dos operadores. “E a pergunta mais frequente sobre o teclado é: ‘Por que as letras do teclado estão dispostas da maneira que estão?’ Vários artigos na área de processamento de informação respondem à pergunta assim: ‘Para desacelerar o operador.’ Isso é um absurdo”, afirmaram Koichi Yasuoka e Motoko Yasuoka, em tradução livre, no artigo científico.
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Cronologia das patentes e da consolidação industrial do teclado QWERTY
A transformação do modelo em padrão da indústria passou por registros de patentes, mudanças mecânicas nas oficinas norte-americanas e acordos comerciais ao longo de mais de quatro décadas:
- 23 de junho de 1868: concessão da patente norte-americana nº 79.265 a Christopher Latham Sholes, Carlos Glidden e Samuel W. Soulé pelo primeiro modelo de máquina de escrever do grupo, em Milwaukee.
- 1 de março de 1873: assinatura do acordo de produção industrial com a E. Remington and Sons e venda dos direitos de patente por US$ 12.000.
- 27 de agosto de 1878: registro da patente norte-americana nº 207.559 por Sholes, estabelecendo o diagrama completo do teclado QWERTY com a letra R na linha superior.
- 1878: lançamento comercial da máquina Remington No. 2, que introduziu a tecla Shift para alternar entre letras maiúsculas e minúsculas no mesmo aparelho, já que o modelo original de 1873 e 1874 imprimia apenas caracteres maiúsculos.
- 1889: registro de uma nova patente por Sholes (US Patent nº 568.630, concedida após a sua morte) com um arranjo alternativo mais otimizado, que não chegou a substituir o padrão anterior no comércio.
- 1890: marca aproximada de 100.000 máquinas de escrever com teclado QWERTY produzidas pela Remington em operação no mercado.
- 30 de março de 1893: fundação da Union Typewriter Company pelas cinco maiores fabricantes do setor (Remington, Caligraph, Yost, Densmore e Smith-Premier), oficializando o padrão na indústria.
- Década de 1910: adoção do arranjo pelo sistema de transmissão de textos Teletype, levando o formato das máquinas mecânicas para os terminais de telecomunicações.
Por que o teclado QWERTY continuou nas telas dos celulares e computadores?
Com a substituição dos componentes mecânicos por circuitos eletrônicos e, décadas mais tarde, pelas telas sensíveis ao toque dos smartphones, o risco físico de travamento das hastes deixou de existir. Mesmo sem a barreira mecânica original, a indústria manteve a disposição criada no século 19 em razão da memória muscular acumulada por gerações de usuários e do alto custo financeiro e produtivo que empresas e instituições teriam para reeducar milhões de datilógrafos e digitadores.
Na Europa, o modelo passou apenas por adaptações regionais voltadas à frequência de letras em diferentes idiomas, dando origem ao padrão AZERTY, adotado na França e em países francófonos, e ao formato QWERTZ, utilizado na Alemanha e na Europa Central, no qual as posições das letras Z e Y são invertidas devido ao uso mais recorrente do Z na língua alemã.
Ao longo dos séculos 20 e 21, pesquisadores e desenvolvedores criaram formatos alternativos voltados à ergonomia e à redução do cansaço articular, mas nenhum deles superou o domínio comercial do modelo de 1878. Em 1936, o professor norte-americano August Dvorak patenteou o teclado simplificado Dvorak, que concentrava as vogais e as principais consoantes na fileira central para diminuir o deslocamento dos dedos. Setenta anos depois, em 2006, o desenvolvedor Shai Coleman lançou o layout Colemak, projetado para alterar a posição de exatas 17 teclas em comparação ao teclado QWERTY e preservar a localização de comandos comuns dos sistemas operacionais modernos, como os atalhos Ctrl+C e Ctrl+V.
