Delegados governamentais e pesquisadores reunidos na 28ª Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM) aprovaram o fim do segundo bissexto, mecanismo que ajusta os relógios atômicos à rotação do planeta. A decisão, tomada na quinta-feira (15) no Palais des Congrès de Versailles, em Versalhes, na França, antecipa em oito anos o cronograma fixado anteriormente para 2035 e passa a valer a partir de 2027.
Oficializada pela Resolução 5 do encontro, que é organizado pelo Escritório Internacional de Pesos e Medidas (BIPM, órgão intergovernamental responsável pela padronização mundial das medições), a medida cria o chamado Tempo Universal Coordenado (UTC) contínuo. A mudança foi acelerada pelo risco inédito de ser necessário subtrair um segundo dos relógios devido à rotação mais rápida da Terra. “Consideramos que esta medida é necessária e oportuna diante dos importantes riscos que poderia representar, nos próximos anos, a introdução pela primeira vez de um segundo intercalar negativo, dada a aceleração observada da rotação da Terra”, afirmou Dolores del Campo Maldonado, diretora da Divisão de Grandezas Mecânicas e Engenharia do Centro Espanhol de Metrologia (CEM) e chefe da delegação espanhola na 28ª CGPM, em tradução livre.
Tolerância do Tempo Universal Coordenado passa para 3.600 segundos
O segundo bissexto, também chamado de segundo intercalar, foi criado para alinhar duas formas distintas de medir a passagem dos dias: o Tempo Universal Coordenado (UTC), calculado por relógios atômicos de alta precisão, e o tempo astronômico (UT1), determinado pela rotação real da Terra. Esses dois sistemas não avançam no mesmo compasso porque a velocidade de giro do planeta sofre variações provocadas pela ação das marés e por movimentos no núcleo terrestre, nos oceanos e na atmosfera.
Pela regra em vigor, toda vez que a diferença entre a contagem dos relógios atômicos e a posição astronômica do planeta se aproximava do limite máximo de 0,9 segundo, um segundo extra era inserido na hora oficial. Com a aprovação da Resolução 5 na reunião realizada de terça-feira (13) a quinta-feira (15), essa margem máxima tolerada entre o UT1 e o UTC deixará de ser de uma fração de segundo e subirá para 3.600 segundos, o equivalente a 1 hora inteira. Na prática, o UTC poderá se afastar gradualmente da rotação terrestre por vários séculos sem que nenhum segundo seja acrescentado ou retirado para corrigir a defasagem.
Aceleração da Terra e o risco de 30% de um segundo bissexto negativo
Na 27ª edição da conferência, realizada em 2022, os países já haviam aprovado a Resolução 4, que determinava a suspensão do ajuste até o ano de 2035. O adiantamento do prazo para 2027 ocorreu porque a Terra passou por períodos recentes de aceleração no seu giro, encurtando ligeiramente a duração dos dias solares. Esse comportamento levantou a possibilidade de os responsáveis pela medição do tempo precisarem aplicar, pela primeira vez na história, um segundo bissexto negativo — ou seja, atrasar os relógios mundiais retirando um segundo, em vez de adicioná-lo.
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Estimativas técnicas apontavam uma probabilidade de 30% de que esse segundo negativo precisasse ser acionado até 2035 caso o limite de 0,9 segundo continuasse valendo. Como os sistemas digitais globais nunca foram testados para lidar com o desaparecimento de um segundo na contagem oficial, a manutenção da regra antiga representava risco de panes em infraestruturas críticas que exigem sincronização exata, incluindo redes de distribuição de energia elétrica, bolsas de valores, navegação por satélite (GPS), transporte, telecomunicações e data centers.
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“Os segundos bissextos podem ser difíceis de implementar de forma confiável. Se não forem aplicados corretamente, podem causar diferenças de tempo entre redes, potencialmente levando à falha de sistemas como redes de telefonia celular ou redes elétricas”, declarou Setnam Shemar, cientista principal do Laboratório Nacional de Física do Reino Unido (NPL, instituto britânico de padrões de medição).
Histórico de falhas tecnológicas em 2012 e 2016 e cronograma do UTC
Desde que o mecanismo foi instituído, 27 segundos bissextos — todos positivos, acrescentando tempo aos relógios — foram aplicados sem intervalos fixos, sempre que a variação da Terra exigia a correção. Mesmo na modalidade positiva, o ajuste já provocou interrupções em serviços digitais e de aviação ao redor do mundo. A evolução do sistema e os principais marcos da decisão aprovada na França envolvem as seguintes datas:
- 30 de junho de 1972: data da primeira inserção de um segundo bissexto no ano em que o mecanismo entrou em operação para alinhar o UTC ao tempo solar.
- 30 de junho de 2012: adição de um segundo extra causou instabilidades e quedas nas plataformas Reddit e LinkedIn, além de panes no sistema de reservas e atrasos em voos da companhia aérea australiana Qantas.
- 31 de dezembro de 2016: último registro de inserção de um segundo bissexto, aplicado às 23h59min60s UTC, que gerou falhas e interrupções nos servidores de DNS (sistema que traduz endereços de páginas na internet) da empresa de computação em nuvem Cloudflare.
- 15 de outubro de 2026: aprovação da Resolução 5 na 28ª CGPM, em Versalhes, encerrando os ajustes periódicos.
- 20 de maio de 2027: entrada em vigor do UTC contínuo, data escolhida por celebrar o Dia Mundial da Metrologia.
Impacto do fim do segundo bissexto nos fusos horários e na astronomia
Para a população em geral, o encerramento das correções em 20 de maio de 2027 não trará mudanças visíveis na rotina. A medida não altera os fusos horários de nenhum país nem interfere nas regras de horário de verão. Os relógios comuns e os atômicos seguirão operando normalmente, livres apenas das paradas pontuais para compensar o ritmo do planeta.
Embora a Resolução 5 tenha sido aprovada pelos representantes reunidos em Versalhes, o placar exato de votos a favor e contra entre os Estados-membros não foi divulgado nas atas públicas imediatas do encontro; informações preliminares indicam que a decisão passou por maioria entre 69 países votantes.
A resolução estabelece ainda que os astrônomos que necessitarem da posição exata do planeta em relação aos astros continuarão acompanhando o movimento terrestre e usando diretamente o tempo astronômico (UT1). Para garantir essa precisão técnica após a mudança, o documento determina que o BIPM mantenha o trabalho conjunto com quatro entidades — a União Internacional de Telecomunicações (UIT), a União Astronômica Internacional (UAI), a União Internacional de Geodésia e Geofísica (IUGG) e o Serviço Internacional de Rotação da Terra e Sistemas de Referência (IERS) — para monitorar a diferença entre o UT1 e o UTC e orientar os usuários desses sistemas.
