Comunidades indígenas da etnia Avá Guarani recuperaram o cultivo das variedades de milho sagrado Saboró Branco e Saboró Preto em áreas de retomada nos municípios de Guaíra e Terra Roxa, no Oeste do Paraná. A partir de uma única espiga da variedade Saboró Preto, o plantio gerou 60 novas espigas, conforme os resultados divulgados nesta sexta-feira (16) pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
O material colhido na Terra Indígena Guasu Guavirá já foi dividido com mais três agricultores indígenas para multiplicação na próxima safra. A reintrodução das sementes contou com a intermediação da Embrapa Pantanal, de Corumbá (MS), da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e do banco de sementes da Escola Indígena Jaguapiru, situada na Tekoha Jaguapiru, em Dourados (MS). “Mais do que retomar uma cultura agrícola, o processo representa uma tentativa de reconstruir vínculos entre território, alimentação, espiritualidade e identidade. O cultivo das variedades tradicionais tem apresentado resultados positivos na produção e reforça a importância das sementes para a autonomia das comunidades”, afirmou o engenheiro agrônomo Alberto Feiden, pesquisador da Embrapa Pantanal e professor conveniado do programa de doutorado em Desenvolvimento Rural Sustentável da Unioeste.
Proteção genética do milho Saboró contra transgênicos e agrotóxicos
Para proteger o material genético, os agricultores realizaram o plantio na parte mais baixa da aldeia, área que concentra maior umidade e fica isolada de propriedades vizinhas. Essa distância evitou a contaminação pelo pólen de lavouras de milho transgênico e reduziu a exposição aos agrotóxicos aplicados nas monoculturas do entorno. Ao longo do ciclo na lavoura, as plantas não registraram ataques de pragas e alcançaram entre 1,80 metro e 2 metros de altura, até que as espigas fossem colhidas, despalhadas e penduradas sobre o fogão das casas para que a fumaça auxilie na conservação dos grãos.
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As instituições públicas envolvidas no projeto atuaram exclusivamente como intermediárias entre as aldeias de Mato Grosso do Sul e do Paraná, sem acesso direto aos grãos. O modelo garante que os próprios indígenas mantenham o controle sobre a seleção e a guarda das sementes, reduzindo a dependência de insumos comerciais. Nas roças, o cereal cresce em sistema de consórcio com a mandioca e o feijão-de-corda, planta que utiliza os pés de milho como suporte para manter as vagens afastadas do solo.
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“Ao recuperar uma espiga e transformá-la em dezenas de novas sementes, o agricultor não apenas aumenta a produção. Ele amplia uma rede de compartilhamento. As espigas são distribuídas a outros agricultores, que passam a reproduzir a variedade e, futuramente, poderão repassá-la a novas famílias. O movimento cria um ciclo de conservação que depende da comunidade”, disse Feiden.
Diagnóstico da Unioeste e etapas do cultivo nas aldeias do Paraná
O trabalho de recuperação começou após uma solicitação do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (CAPA) de Marechal Cândido Rondon (PR). Professores e estudantes das disciplinas de Métodos Interdisciplinares e Participativos e de Seminários II, do doutorado da Unioeste, visitaram nove aldeias de retomada no estado e identificaram o desaparecimento de sementes tradicionais em razão do histórico de deslocamento territorial. “Essa ação foi uma demanda do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia de Marechal Cândido Rondon, instituição que atua em projetos junto às comunidades indígenas. Entre as questões levantadas paralelamente ao diagnóstico foi de que as comunidades haviam perdido muitas de suas variedades tradicionais, inclusive de variedades de milho de caráter sagrado”, declarou o pesquisador.
O estudo científico de acompanhamento da safra foi assinado por Alberto Feiden, E. Koefender, C. Vera, A. Feiden, M. R. Villalva e pelo cacique Raúl Medina, da aldeia Tokoha Yvy Raty Porã. Embora os grãos vindos de Dourados tenham sido entregues a diferentes tekohas (territórios tradicionais) da Terra Indígena Guasu Guavirá, a falta de recursos logísticos e a decisão das lideranças de separar os lotes para impedir o cruzamento entre variedades concentraram o monitoramento técnico detalhado em uma única aldeia e na espécie Saboró Preto. As etapas do projeto e o calendário de manejo seguem datas definidas pelos pesquisadores e agricultores:
- 13 de setembro de 2023 — Início do diagnóstico participativo da Unioeste e da Embrapa Pantanal em nove aldeias de retomada Avá Guarani no Paraná.
- 15 de setembro de 2023 — Conclusão do levantamento de campo que apontou a perda de variedades sagradas de milho nas comunidades.
- 16 de outubro de 2026 — Divulgação oficial dos resultados da colheita de 60 espigas de Saboró Preto e da recuperação do Saboró Branco.
- Início de setembro (próxima safra) — Primeiro período programado para o novo plantio na lua minguante, com o uso de sementes retiradas de 10 espigas.
- Início de outubro (próxima safra) — Segundo período de semeadura na lua minguante, com grãos de outras 10 espigas, mantendo um lote adicional de 10 espigas como reserva técnica.
Valor espiritual do milho sagrado no modo de viver Avá Guarani
Além de garantir a alimentação nas áreas de retomada, o retorno das variedades Saboró Branco e Saboró Preto sustenta cerimônias religiosas e a reconstrução do Ñande Reko, expressão da língua guarani que significa “nosso modo de viver”. As colheitas fornecem a matéria-prima para receitas ancestrais ligadas a rituais da comunidade, como pamonha, rorá, chicha, canjica, chipa e milho cozido ou assado. “O retorno do Saboró Branco e do Saboró Preto às áreas de cultivo contribui para a retomada de práticas que foram fragilizadas pelo deslocamento das comunidades e pela transformação de seus territórios”, afirmou Feiden.
Para o cacique Raúl Medina, coautor da pesquisa, a retomada do manejo tradicional se opõe ao modelo comercial de larga escala que cerca as terras indígenas no Oeste paranaense. “A cultura guarani valoriza a suficiência e a partilha. O milho é cultivado para alimentar a comunidade, não para gerar lucro. Como diz o Caderno Mapa Guarani Continental: nós não vivemos para comprar terra, nós vivemos apenas para usá-la de acordo com nossos costumes”, declarou a liderança.
A continuidade da reprodução nas mãos dos três novos agricultores indígenas seguirá a regra tradicional de semear e colher durante a lua minguante, prática adotada pelas aldeias para evitar o ataque de carunchos nos grãos armazenados e diminuir o risco de perdas por eventos climáticos.
