Os pesquisadores norte-americanos James Lauer Green (Jim Green), ex-cientista-chefe da NASA e ex-diretor da Divisão de Ciência Planetária da agência espacial, e Edward Belbruno (Ed Belbruno), professor de matemática na Universidade Yeshiva e pesquisador associado sênior na Universidade de Princeton, apresentaram nos Estados Unidos uma teoria que propõe redefinir a fronteira gravitacional do Sistema Solar. Pelo novo modelo, o limite da influência do Sol estende-se a quase 3,8 anos-luz da estrela, uma distância equivalente a cerca de 241.000 unidades astronômicas (UA, medida baseada na distância média entre a Terra e o Sol), o que coloca a borda do sistema na mesma escala da separação entre estrelas vizinhas.
A proposta utiliza medições do campo gravitacional da Via Láctea, incluindo a sua matéria escura, para recalcular até onde vai o domínio solar no espaço. Na edição de agosto de 2026 da revista ROOM (The Space Journal of Asgardia), publicação voltada ao público geral, os dois autores argumentam que a extremidade da vizinhança planetária não funciona como uma linha rígida, mas como uma “dança complexa entre forças, energias e trajetórias”, em tradução livre. Para Ed Belbruno, o cálculo alcançado pela dupla “é um resultado realmente bom e significativo”.
Pontos de Lagrange L1 e L2 do Sistema Solar e captura de objetos
O modelo matemático indica que os pontos de Lagrange solares L1 e L2 — regiões do espaço onde a atração gravitacional entre dois grandes corpos se equilibra, neste caso na relação entre o Sol e o Centro Galáctico — são gravitacionalmente estáveis. De acordo com os cientistas, essas zonas funcionam como portais de entrada pelos quais objetos interestelares lentos, a exemplo de cometas ou planetas errantes (corpos celestes que vagam pelo espaço sem orbitar uma estrela), podem ser capturados pela gravidade solar e passar a integrar o Sistema Solar.
Jim Green afirmou que “descobrir a localização do ponto L1 entre o Sol e o centro galáctico é importante, já que objetos de movimento lento que entram nessa região podem ser capturados pelo nosso Sol e se tornar parte do nosso Sistema Solar”. O ex-cientista-chefe da NASA acrescentou que essa mecânica abre margem para a existência de astros ainda não detectados na periferia do sistema: “Quem sabe se pode haver um grande planeta errante capturado a caminho do Sistema Solar neste exato momento”.
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A confirmação da chegada de corpos vindos de fora da vizinhança solar ganhou um novo registro em 1 de julho de 2025, quando o telescópio ATLAS, instalado em Rio Hurtado, no Chile, descobriu o cometa 3I/ATLAS. Citado por Green e Belbruno como exemplo de visitante em trajetória hiperbólica (rota aberta em que o astro apenas atravessa o sistema), o cometa tornou-se o terceiro objeto interestelar confirmado a cruzar a região. Segundo os autores, a identificação de corpos desse tipo “abriu uma janela inteiramente nova sobre o material e os processos que moldam os sistemas planetários em toda a galáxia”.
Parâmetros da fronteira do Sistema Solar e dados do cometa 3I/ATLAS
- Extensão estimada da fronteira gravitacional a partir do Sol: quase 3,8 anos-luz (cerca de 241.000 unidades astronômicas).
- Passagem do cometa interestelar 3I/ATLAS pelo periélio (ponto da órbita mais próximo do Sol): 30 de outubro de 2025, à distância de 1,4 UA (210 milhões de quilômetros).
- Maior aproximação do cometa 3I/ATLAS em relação à Terra: 1,8 UA (270 milhões de quilômetros).
- Primeira submissão do estudo matemático de captura permanente: 30 de junho de 2024, às 23h49 (horário UTC).
- Divulgação pública do detalhamento para reavaliação do Sistema Solar: 16 de outubro de 2026, às 07h00 (horário de Brasília).
Da rota para a Lua em 1987 ao cálculo do tamanho do Sistema Solar
A formulação apresentada na revista ROOM baseia-se na palestra principal ministrada por Ed Belbruno no Instituto Niels Bohr em agosto de 2025 e no artigo científico “Permanent Capture into the Solar System”, assinado por Belbruno e James Green e publicado em 2024 no periódico Celestial Mechanics and Dynamical Astronomy (volume 136, artigo 52). Esse estudo anterior demonstrou matematicamente a existência de uma região no espaço de fase ao redor do Sol, dotada de estrutura fractal (padrão geométrico que se repete em diferentes escalas), na qual a perturbação gravitacional provocada pela massa da Via Láctea permite tanto a captura fraca quanto a captura permanente de objetos interestelares, evitando que eles colidam com o Sol ou retornem ao espaço profundo.
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O método utilizado pelos pesquisadores deriva da teoria da fronteira de estabilidade fraca, aplicada pela primeira vez por Belbruno em 1987 com o objetivo de encontrar rotas de baixa energia até a Lua da Terra por meio da captura balística de espaçonaves. O matemático também detalhou o conceito de viagens espaciais com baixo consumo de combustível — processo que ele compara a “surfar no campo gravitacional” — em seu livro “Fly Me to the Moon: An Insider’s Guide to the New Science of Space Travel”, lançado pela editora da Universidade de Princeton em 2007.
Ao comentar a evolução da metodologia ao longo de quase quatro décadas, Belbruno declarou: “Este novo trabalho representa uma nova aplicação da teoria da fronteira de estabilidade fraca, aplicada pela primeira vez em 1987 para encontrar novas rotas para a Lua da Terra, usando captura balística para espaçonaves”. O pesquisador completou a explicação apontando o alcance atual do cálculo: “Agora, sua aplicação é substancialmente estendida para a captura balística em nosso Sistema Solar a partir do espaço interestelar e na estimativa do tamanho do nosso Sistema Solar”.
Uso da sonda New Horizons e busca por tecnoassinaturas nos pontos L1 e L2
Além da dinâmica de cometas e planetas errantes, o artigo publicado na revista ROOM levanta a hipótese de que civilizações extraterrestres avançadas poderiam utilizar os pontos de Lagrange estelares L1 e L2 como alavanca gravitacional para viajar pela galáxia. Os cientistas propõem que esses locais sejam investigados em busca de tecnoassinaturas (sinais ou evidências físicas de tecnologia fora da Terra). No texto, Green e Belbruno escrevem: “Permanecendo nesses locais, eles poderiam observar a vida dentro de um sistema estelar praticamente sem gasto de energia, então talvez devêssemos procurar grandes estações espaciais nas localizações estelares L1 e L2 como uma tecnoassinatura de vida inteligente avançada?”.
Para testar na prática as coordenadas recém-calculadas dos pontos L1 e L2 solares-galácticos, Jim Green informou que iniciou discussões com a equipe da sonda espacial New Horizons, da NASA. A espaçonave realizou o sobrevoo de Plutão em 2015 e segue em operação na região externa da heliosfera (bolha magnética criada pelo vento solar que envolve o sistema planetário). Segundo Green, “mesmo a poeira acumulada nessa região poderia verificar muitos dos cálculos que fizemos, incluindo a extensão da matéria escura em nossa galáxia”.
Ainda não há confirmação de que a sonda New Horizons realizará as observações sugeridas nos pontos L1 e L2 do Sistema Solar. Até o momento, o uso dos instrumentos da espaçonave para buscar objetos ou poeira acumulada nessas coordenadas permanece apenas em fase de discussão entre Jim Green e os integrantes da equipe da missão na NASA.
