Cometa 3I/ATLAS chega a 1,82 bilhão de km da Terra com gás lento

7 min de leitura
Cometa 3I/ATLAS Foto: Cometa 3I/ATLAS - Telescópio Espacial Hubble/NASA,

O cometa interestelar 3I/ATLAS, também catalogado como C/2025 N1, afasta-se do planeta na direção da constelação de Gêmeos nesta sexta-feira (16), enquanto relatórios científicos divulgados em outubro de 2026 apontam que o objeto expele gás na metade da velocidade normal. Além da lentidão no fluxo gasoso, as análises confirmam que o terceiro visitante de fora do Sistema Solar já descoberto apresenta sinais fortes de ferro neutro e níquel metálico, somados a uma coma — a nuvem de gás e poeira ao redor do núcleo — de coloração avermelhada estável.

Os dados espectrais mais recentes sobre o comportamento dos metais e da velocidade do gás foram obtidos pelo Telescópio Hobby-Eberly, localizado no estado norte-americano do Texas, sob a liderança de Anita Cochran, astrônoma do McDonald Observatory, da Universidade do Texas em Austin. O trabalho foi publicado no periódico científico The Planetary Science Journal. “Ao estudar o 3I/ATLAS, esperamos aprender sobre as condições no sistema planetário natal deste alvo e/ou sobre sua longa jornada interestelar”, afirmou Cochran, em tradução livre.

Como o gás lento e a coma avermelhada do 3I/ATLAS foram medidos?

Cometa 3I/ATLAS
Foto: Cometa 3I/ATLAS – ESA/Juice/JANUS

Para mapear a estrutura física do visitante espacial, a equipe coordenada por Anita Cochran utilizou o espectrógrafo VIRUS — instrumento que decompõe a luz para identificar elementos químicos — instalado no Telescópio Hobby-Eberly. As medições demonstraram que o gás do 3I/ATLAS flui para fora do seu núcleo central a cerca de metade da velocidade típica observada em cometas originários do próprio Sistema Solar quando estão à mesma distância do Sol, apresentando linhas de emissão invulgarmente intensas de ferro neutro e níquel metálico ao longo do trajeto.

Leia também: Cometa interestelar 3I/ATLAS rompe armadura de 20 metros e libera compostos químicos essenciais à vida

A causa exata pela qual esse fluxo gasoso viaja na metade da velocidade padrão ainda não está confirmada e permanece tratada pelos cientistas como uma hipótese em modelagem matemática. Uma das explicações possíveis sugeridas pelos pesquisadores envolvidos no estudo é que a presença de um gás pesado e rico em dióxido de carbono esteja desacelerando a expansão do material a partir do núcleo.

Saiba mais: Astrônomos recalculam rota do cometa interestelar 3I/ATLAS no cosmos

Paralelamente aos dados obtidos no Texas, um grupo internacional de cientistas que inclui o Instituto do Observatório Astronômico da Universidade Adam Mickiewicz, situado em Poznań, na Polônia, divulgou em 16 de outubro de 2026 um relatório detalhando a evolução de gás e poeira do objeto. O estudo, publicado na revista científica The Astrophysical Journal e que contou com a participação dos professores e pesquisadores Tomasz Kwiatkowski e Dagmara Oszkiewicz, comprovou que a coma do 3I/ATLAS manteve uma cor avermelhada estável durante toda a sua aproximação ao Sol.

Números das análises e posição do 3I/ATLAS em outubro de 2026

O monitoramento em tempo real do cometa utiliza cálculos de efemérides — tabelas astronômicas que preveem a posição dos astros no céu — fornecidos pelo sistema JPL Horizons, da agência espacial norte-americana (NASA), combinados a registros da base internacional de observadores Comet Observers Database (COBS) e imagens de fundo do levantamento fotográfico Digitized Sky Survey (DSS). Os parâmetros técnicos registrados nesta sexta-feira (16) e os números apurados nos estudos de outubro de 2026 reúnem as seguintes medições exatas:

Leia também: Cometa interestelar 3I/ATLAS se formou a 240 graus negativos

  • Distância em relação à Terra em 16 de outubro de 2026: 1.827.154.264,8 quilômetros, o equivalente a 12,21 Unidades Astronômicas (UA, medida em que 1 UA corresponde à distância média entre a Terra e o Sol).
  • Tempo de viagem da luz do cometa até a Terra na posição de meados de outubro de 2026: 1 hora, 41 minutos e 34 segundos.
  • Magnitude aparente estimada pelo sistema JPL Horizons: 22,85 (escala astronômica de brilho em que números maiores indicam objetos mais fracos e difíceis de ver).
  • Coordenadas celestes aparentes na constelação de Gêmeos: Ascensão Reta de 07h 13m 02s e Declinação de +19° 12′ 12″.
  • Alcance do rastreamento de gás pelo Telescópio Hobby-Eberly: mais de 85.000 quilômetros a partir do núcleo do cometa.
  • Fração do brilho total da coma correspondente ao gás: apenas 1% a 2% da luminosidade medida, segundo o estudo com participação da Universidade Adam Mickiewicz.

Proporções químicas no 3I/ATLAS e a comparação com a idade do Sol

Antes das divulgações de outubro de 2026, a composição química do 3I/ATLAS já havia sido alvo de investigações conduzidas pelo Telescópio Espacial James Webb, operado em conjunto pela NASA, pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pela Agência Espacial Canadense (CSA). Os resultados desse levantamento, liderado por Martin Cordiner, astroquímico do Goddard Space Flight Center da NASA, revelaram proporções de carbono e de deutério — uma forma de hidrogênio pesado — nunca registradas antes em cometas formados no nosso Sistema Solar, o que indica que o corpo celeste provavelmente é mais antigo que o próprio Sol.

“Esta foi uma oportunidade única para estudar um objeto antigo da Galáxia distante, provavelmente anterior ao nosso Sol e ao Sistema Solar”, declarou Martin Cordiner sobre os dados colhidos pelo telescópio espacial, em tradução livre.

Órbita hiperbólica e o histórico do 3I/ATLAS desde o Chile

Recebendo inicialmente a designação provisória A11pl3Z antes de ser batizado como 3I/ATLAS e C/2025 N1 (ATLAS), o cometa entrou para os registros astronômicos como apenas o terceiro objeto interestelar confirmado a cruzar a vizinhança planetária da Terra, sucedendo as passagens do 1I/ʻOumuamua, descoberto em 2017, e do 2I/Borisov, identificado em 2019. A chegada do visitante, que veio da direção da constelação de Sagitário, mobilizou uma rede de observação espacial no final de 2025 que incluiu os telescópios Hubble, James Webb, SOHO e SPHEREx, além da sonda ExoMars Trace Gas Orbiter, mantida pela ESA na órbita de Marte, e da espaçonave da missão europeia Juice, que está a caminho de Júpiter.

A trajetória do cometa desde o seu primeiro registro pelo sistema de telescópios ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System, rede de alerta de impacto de asteroides financiada pela NASA) até as publicações científicas de 2026 é marcada pelas seguintes datas e distâncias:

  • 1 de julho de 2025: descoberta oficial do 3I/ATLAS pela estação do telescópio ATLAS localizada em Rio Hurtado, no Chile.
  • Final de outubro de 2025: passagem pelo periélio (ponto da órbita mais próximo do Sol), a cerca de 1,4 UA (210 milhões de quilômetros), quando o cometa atingiu sua velocidade máxima de 246.000 km/h (153.000 milhas por hora).
  • 9 de dezembro de 2025: realização da observação do cometa com o espectrógrafo VIRUS no Telescópio Hobby-Eberly, momento em que o astro estava a 1,83 UA da Terra.
  • 19 de dezembro de 2025: registro do ponto de maior aproximação em relação à Terra dentro do período calculado entre 1 de janeiro de 2000 e 31 de dezembro de 2099, passando a 268.914.154 quilômetros (1,797580 UA) do nosso planeta.
  • 22 de junho de 2026: publicação na revista científica Nature das descobertas do Telescópio Espacial James Webb sobre as taxas de carbono e deutério.

Por apresentar uma órbita classificada como hiperbólica, com índice de excentricidade superior a 6, e viajar acima da velocidade de escape solar, o 3I/ATLAS não sofre aprisionamento gravitacional pelo Sol e deixará definitivamente o Sistema Solar rumo ao espaço interestelar, sem nunca retornar.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

Notícias relacionadas