Cometa interestelar 3I/ATLAS apresenta poeira vermelha estável e escassez de moléculas de carbono em estudo

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Cometa - Giovanni Cancemi/Shutterstock.com

Uma equipe internacional de astrônomos com participação da Universidade Adam Mickiewicz, localizada em Poznań, na Polônia, publicou no periódico científico The Astrophysical Journal os resultados do monitoramento detalhado do cometa interestelar 3I/ATLAS. O estudo, divulgado internacionalmente nesta sexta-feira (16), mostra que o terceiro objeto interestelar confirmado a passar pelo Sistema Solar possui uma coma avermelhada estável, um jato contínuo de poeira voltado para o Sol e escassez de moléculas de cadeia de carbono, com o gás representando apenas de 1% a 2% do brilho total medido.

Também catalogado oficialmente como C/2025 N1 (ATLAS), o corpo celeste formou-se ao redor de outra estrela antes de ser ejetado para o espaço interestelar e cruzar a vizinhança planetária da Terra. Ele é o primeiro cometa vindo de fora do Sistema Solar descoberto com antecedência suficiente para ter toda a sua trajetória de aproximação ao Sol acompanhada em detalhes por telescópios terrestres. O envio de uma sonda espacial para pousar na superfície do objeto e coletar amostras diretas exigiria anos de preparo e custos elevados, motivo pelo qual toda a investigação foi realizada a partir de observatórios na Terra.

Cometa 3I/ATLAS: composição da poeira e ausência de cadeias de carbono

Foto: cometa – Nazarii_Neshcherenskyi/Shutterstock.com

À medida que a radiação solar aquece o núcleo do cometa 3I/ATLAS, o gás escapa da superfície e arrasta partículas sólidas, formando um envelope difuso chamado coma. Durante o período de aproximação ao Sol, os astrônomos verificaram que esse envelope manteve uma coloração avermelhada constante, sem variação secular significativa ao longo dos meses. A poeira refletiu maior quantidade de luz vermelha do que azul, apresentando um tom ligeiramente mais avermelhado nas proximidades do núcleo, efeito atribuído à possível variação na proporção de grãos de poeira de diferentes tamanhos conforme a distância em relação ao centro do objeto.

Para explicar a cor avermelhada e o comportamento da polarização da luz observados na aproximação do 3I/ATLAS, os cientistas desenvolveram um modelo físico que reproduz as medições feitas pelos telescópios. O cenário aponta que a coma é formada por aglomerados compactos de partículas compostos principalmente de matéria orgânica processada misturada com silicatos. Na astronomia, o termo orgânico refere-se exclusivamente a compostos químicos baseados em carbono e não tem relação com a existência de vida. Os autores da pesquisa destacam que esse modelo físico não representa uma medição direta da composição do cometa, mas uma representação matemática compatível com os dados coletados.

A separação da luz do cometa em suas cores constituintes, técnica chamada de espectroscopia óptica, revelou uma característica química incomum nos gases liberados pelo núcleo. A equipe detectou emissões proeminentes apenas de cianogênio (CN), uma molécula instável e reativa formada por átomos de carbono e nitrogênio. Em contrapartida, o carbono diatômico (C2), composto por dois átomos de carbono, não foi detectado nas leituras, enquanto o sinal do carbono triatômico (C3), de três átomos, mostrou-se fraco demais para uma conclusão definitiva. Como essas moléculas surgem na coma a partir da quebra de compostos maiores que saem do núcleo, a falta de C2 e C3, somada à proporção elevada de dióxido de carbono em relação à água identificada por outras equipes em observações anteriores, indica que o 3I/ATLAS se formou sob condições diferentes daquelas encontradas na maioria dos cometas do Sistema Solar.

Jato de poeira a 280 graus e rotação do núcleo do 3I/ATLAS

O monitoramento da morfologia da coma mostrou ainda como o visitante interestelar libera material no espaço. Ao longo de vários meses, um jato de poeira em formato de leque permaneceu ativo e apontado na direção do Sol, mantendo um ângulo de posição constante de aproximadamente 280 graus.

Veja também: Cometa interestelar 3I/ATLAS revela nascimento gelado a menos de 30 Kelvin em outro sistema estelar

De acordo com os pesquisadores, a estabilidade desse fluxo indica uma desgaseificação localizada e contínua vinda de uma região ativa situada em alta latitude, perto de um dos polos do núcleo em rotação. Pequenas oscilações registradas na direção do jato de poeira sugerem que o eixo de rotação do cometa descreve lentamente o formato de um cone no espaço, em um movimento físico semelhante ao de um pião.

Equipamentos, autoria e dados técnicos do estudo do 3I/ATLAS

O artigo científico foi assinado pelo autor principal Toni Santana-Ros, pesquisador da Universidade de Alicante e da Universidade de Barcelona, em conjunto com as astrônomas Sofiia Mykhailova e Dagmara Oszkiewicz e o astrônomo Tomasz Kwiatkowski, todos integrantes do Instituto do Observatório Astronômico da Universidade Adam Mickiewicz. A campanha combinou imagens fotométricas de múltiplas bandas com medições de espectroscopia óptica.

  • Artigo e publicação: estudo intitulado “The Inbound Gas and Dust Evolution of Interstellar Comet 3I/ATLAS from Optical Spectroscopy and Multiband Photometry” (A evolução de entrada de gás e poeira do cometa interestelar 3I/ATLAS a partir de espectroscopia óptica e fotometria multibanda, em tradução livre), publicado no periódico The Astrophysical Journal, volume 1007, número 2, artigo 182.
  • Instrumentos de imagem fotométrica: câmeras MuSCAT3/4 instaladas nos Telescópios Faulkes, que possuem espelhos de 2,0 metros de diâmetro, e no telescópio Maidanak, de 1,5 metro de diâmetro.
  • Instrumentos de espectroscopia óptica: Telescópio Gigante da África Austral (SALT) e Telescópio Óptico Nórdico (NOT).
  • Financiamento da equipe polonesa: Ministério da Ciência e Ensino Superior da Polônia e Centro Nacional de Ciência da Polônia (NCN).

Comparação do 3I/ATLAS com os objetos 1I/ʻOumuamua e 2I/Borisov

A confirmação do 3I/ATLAS amplia para três a lista de objetos originários de outros sistemas estelares identificados pela ciência dentro do Sistema Solar. O primeiro visitante interestelar, batizado de 1I/ʻOumuamua, foi detectado em 2017 somente depois de já ter passado pelo seu ponto de maior aproximação ao Sol. Na ocasião, o corpo celeste não apresentou coma visível de gás ou de poeira, exibindo comportamento semelhante ao de um asteroide rochoso.

Dois anos depois, em 2019, astrônomos descobriram o segundo integrante desse grupo, o cometa interestelar 2I/Borisov. Ao contrário do primeiro objeto, o 2I/Borisov apresentava atividade intensa e liberava poeira com propriedades típicas de um material que sofreu pouca alteração física ou química desde a sua formação original. Já o 3I/ATLAS difere dos dois antecessores por combinar atividade visível de gás e poeira com alto índice de dióxido de carbono e empobrecimento acentuado de cadeias de carbono.

Datas da descoberta e da publicação sobre o cometa 3I/ATLAS

O trabalho de observação e divulgação dos dados sobre o terceiro objeto interestelar seguiu um cronograma dividido entre a coleta nos observatórios e a revisão acadêmica entre 2025 e 2026:

  • 1 de julho de 2025 — Descoberta oficial do cometa interestelar 3I/ATLAS, também registrado sob a designação C/2025 N1 (ATLAS).
  • Final de julho a meados de setembro de 2025 — Execução da campanha sistemática de observação fotométrica e espectroscópica pelos telescópios terrestres.
  • 18 de agosto de 2026 — Submissão e disponibilização do artigo científico no repositório arXiv e no repositório institucional da Universidade de Helsinque.
  • 7 de outubro de 2026 — Publicação do comunicado oficial da Universidade Adam Mickiewicz, em Poznań, detalhando os resultados obtidos pelos pesquisadores.
  • 16 de outubro de 2026 — Divulgação internacional do comunicado em língua inglesa sobre os dados do cometa.

Apesar dos dados químicos e físicos coletados durante a aproximação ao Sol, as descobertas não revelam em qual sistema estelar o 3I/ATLAS se formou. Os cientistas apontam que a amostra atual de apenas três objetos interestelares confirmados ainda é insuficiente para criar um sistema de classificação astronômica, mas as diferenças observadas entre eles demonstram que corpos ejetados de outros sistemas planetários passam por processos de formação e evolução distintos no espaço.

Maria: Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.