John Ternus diz que Apple analisa todas as opções na crise de memórias

John Ternus, CEO da Apple - Reprodução

John Ternus, CEO da Apple - Reprodução

O diretor-executivo (CEO) da Apple, John Ternus, afirmou nesta quinta-feira (15) que a escassez global de chips de memória configura uma crise e que todas as alternativas de fornecimento permanecem em análise pela companhia de Cupertino, na Califórnia. Questionado sobre testes com fabricantes da China, o executivo recusou-se a descartar a compra de componentes chineses para linhas de iPhone e Mac.

Em entrevista ao correspondente Andrew R. Chow na edição “Best Inventions of 2026” (Melhores Invenções de 2026) da revista norte-americana TIME, Ternus não citou nominalmente a fabricante chinesa ChangXin Memory Technologies (CXMT), mas definiu a diretriz da empresa diante da falta de peças no mercado. “As restrições na memória são absolutamente uma crise… Então nossa crença fundamental é que todas as opções devem estar na mesa”, disse o executivo, em tradução livre.

Crise de memória RAM na Apple e pressão de fornecedores

A redução na oferta global de memória DRAM convencional e do tipo móvel (LPDDR, usada em celulares e notebooks) ocorre devido à demanda de centros de dados voltados à inteligência artificial. Esse movimento levou as três principais fornecedoras atuais da Apple — as sul-coreanas Samsung Electronics e SK Hynix e a norte-americana Micron — a priorizarem a fabricação de memórias de alta largura de banda (HBM) e componentes para servidores corporativos, reduzindo o espaço nas fábricas para peças de eletrônicos de consumo e elevando os preços.

Foto: Logo Apple, loja – onapalmtree / Shutterstock.com

Segundo analistas do setor de semicondutores, a sinalização da Apple para o mercado chinês funciona também como instrumento de pressão comercial nas negociações de preços e volumes de entrega com Samsung Electronics, SK Hynix e Micron. Entre julho e agosto de 2026, apurações da imprensa financeira norte-americana e britânica revelaram que a Apple realizava testes de desempenho e qualificação com memórias DRAM produzidas pela CXMT para uso em iPhones e MacBooks, em uma etapa inicialmente direcionada a aparelhos vendidos no próprio mercado chinês.

O impacto financeiro da falta de componentes na estrutura de produção e nos produtos comerciais da Apple envolve os seguintes índices e valores registrados em 2026:

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  • Aumento trimestral de preços da memória LPDDR no primeiro trimestre de 2026: alta superior a 80% nos contratos da Samsung Electronics e de cerca de 100% nos acordos da SK Hynix;
  • Participação no custo de fabricação: os chips de memória passaram de 10% para 34% do custo total de materiais (conhecido na indústria como bill of materials) do modelo iPhone Pro até o terceiro trimestre de 2026, segundo dados da consultoria TrendForce;
  • Reajuste ao consumidor: em junho de 2026, a Apple elevou os preços finais de modelos de Mac, iPad e dos óculos de realidade mista Vision Pro entre US$ 100 e US$ 300, o que representou um acréscimo de 17% a 25% em determinadas linhas;
  • Novo lançamento: o iPhone Duo, primeiro celular dobrável da Apple e capa da mesma edição da revista em que a entrevista foi publicada, chega ao mercado dos Estados Unidos com preço inicial de US$ 1.999.

Oposição no Senado dos EUA ao uso de chips da CXMT pela Apple

A possibilidade de integração de componentes chineses enfrenta resistência política em Washington, pois tanto a CXMT quanto a fabricante de memórias flash Yangtze Memory Technologies Corp. (YMTC) integram a lista da Seção 1260H do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Pentágono), documento oficial que relaciona empresas da China com supostos vínculos militares. Pela legislação de defesa norte-americana, agências federais do país estão proibidas de adquirir equipamentos que contenham semicondutores dessas duas fornecedoras a partir de dezembro de 2027, ao mesmo tempo em que o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, manifestou posição contrária ao uso de memórias chinesas por grandes empresas do país.

No Congresso norte-americano, um grupo bipartidário composto por sete senadores — Chuck Schumer, Jim Banks, Jeanne Shaheen, Mike Crapo, Andy Kim, Jim Risch e Pete Ricketts — enviou uma carta à direção da Apple em 30 de julho de 2026 exigindo o compromisso formal de não utilizar peças da CXMT ou da YMTC. Os parlamentares haviam estipulado o dia 21 de agosto de 2026 como prazo final para que a fabricante respondesse sobre o banimento definitivo dessas fornecedoras de sua cadeia de produção.

Negociações de John Ternus e Tim Cook com o governo de Donald Trump

Diante do impasse regulatório, John Ternus confirmou na entrevista que se reuniu com integrantes do governo do presidente Donald Trump para debater regras comerciais e a cadeia de suprimentos. O executivo afirmou que o objetivo dos encontros com a administração federal é “garantir que estamos trabalhando nas questões em conjunto”.

Ternus assumiu o comando executivo da Apple em 1º de setembro de 2026, em substituição a Tim Cook, que passou a ocupar o cargo de presidente executivo (executive chairman) do conselho de administração da empresa. Segundo o atual CEO, seu antecessor continua atuando diretamente na articulação política e geopolítica da companhia. “Ele tem ótimos relacionamentos e ama a Apple, então, onde quer que possa ajudar, ele fica feliz em ajudar”, declarou Ternus.

Até o momento, não há confirmação de que a Apple tenha assinado qualquer contrato comercial definitivo de fornecimento com a CXMT ou com a YMTC, permanecendo comprovados apenas os testes de qualificação técnica e as negociações preliminares. A abertura da pré-venda do novo iPhone Duo ocorre nesta sexta-feira, 16 de outubro de 2026.

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol