Múmia de Ötzi guarda corpo de 5.300 anos e cobre de 99,7% de pureza nos Alpes

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alpes - Kelly vanDellen - shutterstock.com Foto: alpes - Kelly vanDellen - shutterstock.com

A múmia glacial Ötzi, descoberta pelos turistas alemães Erika Simon e Helmut Simon nos Alpes de Ötztal, preservou um corpo humano de aproximadamente 5.300 anos acompanhado de roupas, calçados, alimentos e ferramentas da Idade do Cobre. O conjunto arqueológico foi localizado a 3.210 metros de altitude acima do nível do mar, na região de Tisenjoch (Giogo di Tisa), no Tirol do Sul, território da Itália.

Quando o casal avistou a parte superior do cadáver emergindo do gelo, as autoridades trataram a ocorrência inicialmente como a morte recente de um alpinista desaparecido nas montanhas. Somente após a retirada do corpo e a análise dos objetos espalhados ao redor é que os pesquisadores identificaram o valor arqueológico do achado, batizado com o apelido de Ötzi pelo jornalista austríaco Karl Wendl em referência ao vale onde estava congelado.

Cronologia do resgate de Ötzi e definição da fronteira nos Alpes

O mau tempo na cordilheira dificultou o trabalho das equipes de resgate nos primeiros dias após o aviso dos turistas, atrasando a retirada do corpo e dos pertences que o gelo havia protegido por mais de cinco milênios. Depois que os restos mortais foram recolhidos, a localização exata na área montanhosa exigiu uma verificação oficial entre a Áustria e a Itália para determinar qual país ficaria responsável pela guarda da múmia.

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Essa indefinição ocorreu porque, quando a fronteira entre os dois países foi demarcada após a anexação do Tirol do Sul em 1922, o excesso de neve nas montanhas impediu a visualização exata da linha divisória das águas. Por esse motivo, técnicos realizaram um levantamento topográfico oficial que determinou a propriedade italiana sobre o achado e permitiu a estruturação de um espaço permanente em Bolzano para abrigar o material.

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  • 19 de setembro de 1991: descoberta acidental do corpo congelado por Erika Simon e Helmut Simon em Tisenjoch.
  • 23 de setembro de 1991: conclusão do resgate dos restos mortais no gelo após atrasos provocados pelo mau tempo.
  • 2 de outubro de 1991: medição oficial de fronteira confirma que o ponto exato do achado fica na Itália, a 92,56 metros (aproximadamente 93 metros) da Áustria.
  • 28 de março de 1998: inauguração da exposição permanente no Museu de Arqueologia do Tirol do Sul, em Bolzano.
Mumia
Mumia – Andrea Izzotti / Shutterstock.com

Roupas de pele e calçados em camadas encontrados com Ötzi

A conservação proporcionada pelo gelo manteve peças de vestuário que demonstram como as populações da Idade do Cobre enfrentavam o frio nas grandes altitudes utilizando matérias-primas de diferentes espécies animais e vegetais. O homem vestia um casaco confeccionado com peles de cabra e de ovelha costuradas com tendões animais, perneiras de couro de cabra, uma tanga de pele de ovelha, um cinto de pele de bezerro com uma bolsa costurada na peça e um gorro de pele de urso-pardo, todos com marcas de uso prolongado e rasgos que haviam sido reparados com fibras de capim.

Os calçados encontrados nos pés da múmia apresentavam uma estrutura dividida em camadas para proteger contra o terreno rochoso e as baixas temperaturas da cordilheira. As solas foram produzidas com pele de urso, enquanto a parte superior utilizava pele de cervo fechada por tiras de couro bovino, envolvendo uma rede interna trançada com entrecasca de tília e preenchida com capim seco (feno) que funcionava como isolante térmico.

Para testar a eficiência dessas peças na prática, a arqueotécnica holandesa Eva Ijsveld produziu réplicas experimentais dos sapatos e do casaco destinadas ao Museu de Arqueologia do Tirol do Sul. Segundo a instituição responsável pela conservação da múmia, os testes com as reproduções comprovaram que o calçado permitia percorrer distâncias consideráveis nas montanhas, embora oferecesse proteção limitada contra a entrada de umidade.

Machado com cobre da Toscana e equipamentos de caça de Ötzi

Entre os instrumentos recolhidos junto ao corpo destacava-se um machado completo, considerado o único exemplar inteiro da Idade do Cobre preservado no mundo com cabo, lâmina, amarras de couro e cola de alcatrão de bétula intactos. O objeto possuía um cabo talhado em madeira de teixo com cerca de 60 cm de comprimento, no qual a lâmina metálica foi encaixada e fixada em uma época em que as ferramentas de pedra ainda predominavam no continente europeu.

Pesquisas de análise química e de isótopos de chumbo conduzidas pela Universidade de Pádua revelaram um dado sobre a circulação de matérias-primas há mais de cinco milênios: o metal da lâmina de Ötzi não foi extraído de minas nos Alpes, mas sim de minérios originários do sul da Toscana, na região central da Itália. Além do machado, o conjunto de equipamentos incluía utensílios de caça, corte, manutenção de pedras e transporte de fogo pelo terreno montanhoso.

O homem carregava uma adaga com lâmina de sílex, um arco de madeira ainda inacabado, uma aljava contendo flechas em diferentes estágios de preparação e um instrumento retocador usado para afiar ferramentas de pedra. Também foram recuperados dois recipientes cilíndricos feitos de casca de bétula, sendo que um deles guardava vestígios internos de folhas e fragmentos de carvão, material analisado pelos pesquisadores como um recurso para transportar brasas acesas e facilitar a criação de fogueiras durante os deslocamentos sem precisar iniciar o fogo do zero.

O que a alimentação e o corpo de Ötzi revelam sobre sua morte?

O estado de preservação dos órgãos internos permitiu que os cientistas examinassem diretamente o conteúdo estomacal e intestinal da múmia, em vez de apenas deduzir hábitos alimentares a partir de utensílios arqueológicos. As análises identificaram que as últimas refeições de Ötzi antes de morrer continham uma alta proporção de gordura animal, carnes de animais selvagens — especificamente íbex e cervo-vermelho —, grãos de cereais de trigo einkorn e vestígios de samambaia, combinando produtos de caça, coleta e atividades agrícolas.

Os exames médicos, forenses e genéticos reconstruíram ainda a origem biológica daquele indivíduo e a causa exata do óbito nas montanhas. O sequenciamento genético indicou que os ancestrais de Ötzi migraram cerca de 8.000 anos atrás a partir da região da Anatólia (Crescente Fértil) e que seus parentes genéticos distantes atuais concentram-se principalmente nas ilhas da Sardenha e da Córsega, enquanto as radiografias e análises anatômicas apontaram que ele morreu devido a um ferimento provocado por uma ponta de flecha de sílex que ficou alojada no ombro esquerdo.

  • 45 a 46 anos: faixa etária no momento da morte segundo estudos médicos e forenses, com idade provável de 46 anos indicada pela análise óssea do fêmur.
  • 13 kg e 1,54 m: peso e comprimento atuais do corpo mumificado (em vida, o homem media cerca de 1,60 m de altura).
  • 99,7%: grau de pureza do cobre empregado na fabricação da lâmina do machado.
  • -6 °C e 99% de umidade: temperatura e índice de umidade mantidos na câmara fria especial que conserva a múmia no museu em Bolzano.

Apesar do volume de dados obtidos nos exames laboratoriais, o Museu de Arqueologia do Tirol do Sul ressalta que uma única refeição preservada no sistema digestivo não representa toda a dieta de uma população da Idade do Cobre, o que exige cruzar essas informações com outros sítios arqueológicos. Da mesma forma, a profissão exata de Ötzi, o motivo definitivo de sua última viagem pelas montanhas e as circunstâncias detalhadas do ataque que resultou na flechada permanecem como hipóteses em aberto e continuam sendo investigados pelos pesquisadores.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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