A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e o consórcio norte-americano Association of Universities for Research in Astronomy (Aura) divulgaram nesta sexta-feira (16) um novo acordo para o Observatório Vera Rubin, instalado no Chile. A parceria garante o acesso integral de até 60 cientistas vinculados a instituições paulistas aos dados do Legacy Survey of Space and Time (LSST), levantamento astronômico que mapeará o céu do hemisfério Sul ao longo de uma década.
Pelo documento assinado, a fundação paulista poderá indicar 10 pesquisadores principais para o projeto internacional. Cada líder científico terá o direito de incluir até cinco pesquisadores em início de carreira, entre doutorandos e pós-doutorandos, formando o contingente total de 60 especialistas. Para sustentar a ampliação da presença brasileira no empreendimento, o acordo estabelece um novo aporte financeiro contínuo por parte do estado de São Paulo.
“O acordo consolida uma colaboração que começou bem antes de o Observatório Vera Rubin entrar em operação. Em uma etapa anterior, a contribuição da FAPESP para a infraestrutura de transmissão de dados havia dado à Fundação o direito de indicar cinco pesquisadores principais e seus associados. Agora, com o observatório em funcionamento e o LSST iniciado oficialmente em 30 de junho, a participação foi ampliada e formalizada no novo marco institucional”, afirmou Luiz Vitor de Souza Filho, professor do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) e assessor da Diretoria Científica da FAPESP para Grandes Infraestruturas de Pesquisa.
Rede Rednesp transmite dados do Observatório Vera Rubin em sete segundos
A principal contrapartida técnica do Brasil para o funcionamento do Observatório Vera Rubin consiste na operação da Research and Education Network at São Paulo (Rednesp), rede de comunicação de dados mantida pela FAPESP em sucessão à antiga Rede ANSP. Essa estrutura de telecomunicações responde pelo envio em altíssima velocidade dos arquivos captados nos Andes chilenos diretamente para os centros de processamento localizados nos Estados Unidos. O fluxo contínuo de informações passa por dupla criptografia na saída das instalações no Chile, sendo codificado primeiro por hardware e em seguida por software, realizando o processo inverso no momento da chegada ao destino norte-americano.
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“No caso específico do Vera Rubin, a Rednesp constitui a principal contribuição brasileira ao empreendimento. Nas outras grandes colaborações apoiadas pela FAPESP, pesquisadores e instituições do Estado participam também do desenvolvimento de detectores e de outros componentes, bem como do processamento de dados”, disse Souza Filho.
A capacidade da rede paulista é determinante porque o projeto exige latência mínima no transporte das imagens espaciais. Enquanto conexões residenciais comuns operam na faixa de 1 gigabit por segundo (Gbps) e redes empresariais avançadas atingem 10 Gbps, a estrutura da Rednesp alcança velocidade até 40 vezes superior ao padrão corporativo.
“Para que os objetivos do projeto possam ser cumpridos, as imagens pesadas obtidas no Chile precisam chegar aos Estados Unidos em sete segundos. Isso exige uma infraestrutura de rede de altíssima velocidade e baixa latência. Um atraso de 0,2 segundo no trajeto ou uma perda de pacotes de informação de 0,001% podem comprometer significativamente a operação. A Rednesp, sucessora da antiga Rede ANSP, possui a capacidade de transmitir até 400 gigabits por segundo [Gbps]”, declarou Ricardo Dahab, atual coordenador da Rednesp.
O trajeto físico percorrido pelos pacotes de informação começa em cabos de fibra óptica que descem da montanha chilena até a capital Santiago, de onde os arquivos seguem por via terrestre para o Brasil, entrando por Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A partir da capital gaúcha, o tráfego passa por São Paulo e sobe até Fortaleza, no Ceará, operando em conexão com a estrutura da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). Da costa nordestina, os dados atravessam o Oceano Atlântico por cabos submarinos até Miami, nos Estados Unidos, sendo distribuídos principalmente para os servidores do Fermi National Accelerator Laboratory (Fermilab), centro de física de partículas localizado em Batavia, próximo a Chicago, no estado de Illinois.
Mapeamento do LSST cobre 20 bilhões de galáxias em 10 anos
O levantamento LSST opera a partir do telescópio Simonyi, equipado com a maior câmera digital já construída para a astronomia. A cada noite, o equipamento realiza uma média de 700 observações de campos distintos do espaço, com exposições fotográficas de cerca de 30 segundos cada. Ao longo de uma década de trabalho contínuo, a operação pretende catalogar mais de 20 bilhões de galáxias e 17 bilhões de estrelas.
A investigação científica está dividida em quatro frentes principais: o estudo de asteroides e outros objetos do Sistema Solar, o mapeamento detalhado da Via Láctea, a análise da matéria escura e da energia escura, além do monitoramento de fenômenos transientes, como explosões de supernovas e atividade de buracos negros.
“Um dos principais focos do Vera Rubin é justamente aquilo que muda no céu, o que é transiente, o que acontece hoje e não estava lá ontem”, explicou o professor do IFSC-USP.
A velocidade na transmissão das fotografias entre a América do Sul e a América do Norte permite a emissão de 7 milhões a 10 milhões de alertas por noite sobre alterações detectadas no espaço profundo. Esse sistema de avisos rápidos orienta o trabalho de outras instalações astronômicas pelo planeta.
“As imagens precisam chegar em poucos segundos aos Estados Unidos, ser processadas e gerar a informação de que alguma coisa nova está em curso, para que outros observatórios, capazes de medir outras propriedades, possam apontar rapidamente seus equipamentos para aquele lugar”, completou Souza Filho.
Números, prazos e localização do acordo para o Observatório Vera Rubin
- Data de divulgação do novo acordo: 16 de outubro de 2026.
- Localização do telescópio: Cerro Pachón, na cordilheira dos Andes, no Chile.
- Investimento adicional da FAPESP: contribuição anual de US$ 2,3 milhões ao projeto.
- Resolução da câmera do telescópio Simonyi: 3,2 bilhões de pixels.
- Área de cobertura do levantamento LSST: cerca de 18 mil graus quadrados, o equivalente a 44% de toda a esfera celeste.
Parceria entre FAPESP e Observatório Vera Rubin começou em 2016
O ingresso de astrônomos de São Paulo na iniciativa internacional foi anunciado pela FAPESP em janeiro de 2016, época em que as instalações no Cerro Pachón ainda estavam em fase de construção. Na etapa preliminar do convênio, garantida pelo fornecimento inicial da rede de dados, cinco pesquisadores principais já haviam recebido credenciamento para atuar no projeto: Luis Raul Weber Abramo, Riccardo Sturani, Claudia Lucia Mendes de Oliveira, Eduardo Serra Cypriano e Alex Cavaliére Carciofi.
Nos últimos dois anos, negociadores da fundação paulista e do consórcio Aura trabalharam na redação do novo marco institucional para definir deveres, responsabilidades e a ampliação das vagas brasileiras. Antes da assinatura deste termo, o Observatório Vera Rubin
divulgou suas primeiras imagens de teste em 23 de junho de 2025. Em fevereiro de 2026, os alertas sobre variações no céu começaram a ser enviados em tempo quase real para sistemas internacionais de distribuição e classificação conhecidos como brokers, preparando o terreno para o início oficial do levantamento LSST em 30 de junho de 2026. A atuação no Chile faz parte de uma diretriz da FAPESP voltada a grandes colaborações internacionais, que também engloba o experimento de neutrinos DUNE e o Telescópio Gigante de Magalhães (GMT).Para preencher as cinco vagas restantes de pesquisadores principais e suas respectivas equipes de doutorandos e pós-doutorandos, a FAPESP lançará uma nova chamada pública de propostas. A fundação informou que o edital de seleção será aberto em breve, mas ainda não há data confirmada para o início das inscrições.
