A XP Investimentos recomendou que os investidores realizem parcialmente os lucros obtidos no Tesouro Direto e iniciem uma migração gradual para debêntures incentivadas com isenção de Imposto de Renda. A orientação da corretora ocorreu após os títulos públicos federais acumularem valorização bruta de até 17% em dois meses no Brasil, impulsionados pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais em outubro de 2026.
Assinado pelos analistas da XP Research Lucas Genoso e Maria Luisa Paolantoni, o documento aponta que a estratégia busca aproveitar os prêmios mais altos no crédito privado sem abandonar a proteção dos papéis do governo. “Nossa preferência é por uma realização parcial dos ganhos acumulados nos títulos públicos e uma entrada gradual em crédito privado isento high grade”, afirmaram os analistas em relatório.
Valorização de até 17% no Tesouro Direto após o primeiro turno
O movimento de alta nos preços dos títulos públicos prefixados e atrelados à inflação ganhou força com a expectativa de participantes do mercado financeiro por uma troca de governo e consequente melhora nas contas públicas. Como as taxas e os preços têm correlação inversa na renda fixa, a projeção de juros futuros mais baixos derrubou a remuneração oferecida pelo Tesouro Direto e elevou o valor de face dos papéis já emitidos, reduzindo o espaço para novos ganhos expressivos no curto prazo.
No pregão de 5 de outubro de 2026, logo após a votação do primeiro turno, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 recuou de 13,75% para 12,65%, enquanto a rentabilidade da NTN-B (Tesouro IPCA+) com vencimento em 2035 caiu de 7,65% para 7,04%. Entre 1º de setembro e 7 de outubro de 2026, o título Tesouro IPCA+ 2050 registrou alta bruta acumulada de 17%, e o Tesouro IPCA+ 2040 subiu 11% no mesmo intervalo.
A variação do título Tesouro IPCA+ 2032 ao longo de dois meses mostra o encarecimento do ativo para novos compradores e a queda na remuneração prometida:
- Agosto de 2026 (dois meses antes do relatório): preço unitário de R$ 2.967,03 e taxa de IPCA + 8,13% ao ano.
- Em 2 de outubro de 2026 (sexta-feira anterior ao primeiro turno): preço unitário de R$ 3.100,24 e taxa de IPCA + 7,6% ao ano.
- Quarta-feira (14): preço unitário de R$ 3.270,85 e taxa de IPCA + 6,71% ao ano.
Abertura de taxas e resgates de R$ 37,7 bilhões nas debêntures incentivadas
Enquanto os títulos soberanos ficaram mais caros, o mercado de dívida corporativa registrou o movimento oposto por razões técnicas. Os fundos de infraestrutura acumularam R$ 37,7 bilhões em resgates ao longo de 2026, o que obrigou os gestores a venderem debêntures incentivadas no mercado secundário para pagar os cotistas. Essa pressão vendedora reduziu os preços unitários dos papéis e provocou a abertura dos spreads de crédito, que representam o juro extra pago por uma empresa em relação a um título do Tesouro Direto de prazo equivalente.
O índice IDEX-Infra, indicador que mede os spreads das debêntures incentivadas sobre a NTN-B de referência, atingiu 101 pontos-base no início de outubro de 2026, após ter aberto 44 pontos-base em setembro. Entre agosto e setembro de 2026, os setores de Telecom e de Agro e Insumos tiveram abertura de spreads de 55 pontos-base e 54 pontos-base, respectivamente. No caso específico do papel da São Martinho (SMTO24), o prêmio sobre o título público saltou de 38 pontos-base em 31 de agosto de 2026 para 103 pontos-base em 7 de outubro de 2026.
Um levantamento da Vitrify com 213 debêntures incentivadas apontou que o spread médio sobre a NTN-B de mesmo prazo passou de 1,08 ponto percentual em 2 de outubro de 2026 para 1,27 ponto percentual na quinta-feira (8). Nos papéis com nota de crédito AAA, o prêmio chegou a 0,43 ponto percentual, o maior nível desde o fim de 2024. Todo esse movimento ocorre em um ambiente no qual o Banco Central já reduziu a taxa básica Selic cinco vezes desde março de 2026, levando o juro básico de 15% para 13,75% ao ano.
As 8 debêntures incentivadas recomendadas pela XP Investimentos
As debêntures incentivadas são títulos emitidos por empresas para captar recursos voltados a projetos de infraestrutura e oferecem isenção total de Imposto de Renda para pessoas físicas. Diferentemente do Tesouro Direto, que possui a garantia soberana da União, esses ativos dependem da geração de caixa das companhias emissoras e não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade privada que protege depósitos bancários. Por esse motivo, a XP restringiu suas indicações a emissores classificados como high grade, termo do mercado para empresas de alta qualidade de crédito com notas de risco AA e AAA.
Para comparar o retorno de um papel isento com o de um título público tributado, a equipe de análise utiliza o cálculo de gross-up, métrica que projeta qual seria a taxa bruta equivalente caso o investidor precisasse pagar Imposto de Renda sobre o ganho. A lista da XP Research destaca oito ativos de seis empresas diferentes:
- São Martinho (código SMTO24): taxa indicativa isenta de IPCA + 7,96% ao ano (equivalente com imposto, ou gross-up, de IPCA + 9,56%).
- Ecovias Raposo-Castelo (código CERT11): taxa indicativa isenta de IPCA + 7,81% ao ano (gross-up de IPCA + 9,95%).
- Coelba (código CEEBD2): taxa indicativa isenta de IPCA + 7,58% ao ano (gross-up de IPCA + 9,16%).
- Vibra (código VBBRA0): taxa indicativa isenta de IPCA + 7,33% ao ano (gross-up de IPCA + 8,99%).
- Energisa (código ENGIA6): taxa indicativa isenta de IPCA + 7,23% ao ano (gross-up de IPCA + 9,86%).
- Axia Energia (código AXIA18): taxa indicativa isenta de IPCA + 7,02% ao ano (gross-up de IPCA + 8,71%).
- Sabesp (código SBSPI8): taxa indicativa isenta de IPCA + 6,97% ao ano (gross-up de IPCA + 8,47%).
- Sabesp (código SBSPK8): taxa indicativa isenta de IPCA + 6,96% ao ano (gross-up de IPCA + 8,32%).
Manutenção parcial no Tesouro Direto e condicionantes fiscais
A orientação da corretora descarta o esvaziamento completo das posições em títulos do governo federal. “Não sugerimos uma saída integral do risco soberano, nem uma entrada concentrada em crédito”, declararam os analistas da XP Research no documento.
A recomendação técnica para a carteira do investidor é manter a diversificação entre papéis públicos e privados, distribuindo os aportes entre diferentes vencimentos e setores econômicos para capturar uma eventual continuidade no recuo dos juros. De acordo com a XP Investimentos, a sustentação do fechamento da curva de juros nos próximos meses dependerá do andamento do debate econômico no país, em especial da definição sobre a composição das equipes econômicas, das propostas para a política fiscal e da trajetória da dívida pública.


