Ceuta na Espanha: inteligência diz que Marrocos conhecia plano de travessia a nado de 70 mil migrantes

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Momento em que imigrantes do Marrocos chegam a nado em Ceuta, cidade da Espanha - Reprodução/ TV Globo Foto: Momento em que imigrantes do Marrocos chegam a nado em Ceuta, cidade da Espanha - Reprodução/ TV Globo

O Centro Nacional de Inteligência (CNI), órgão de serviços secretos da Espanha, concluiu que as autoridades do Marrocos tinham prévio conhecimento da mobilização para a entrada em massa de mais de 70 mil migrantes na cidade autônoma espanhola de Ceuta nos dias 30 e 31 de julho de 2026. O documento oficial, enviado à juíza María Tardón, da Audiência Nacional da Espanha, e tornado público nesta sexta-feira (16), aponta que o país vizinho conhecia em detalhes as convocatórias feitas pelas redes sociais e teve atuação irregular no controle da fronteira.

No mesmo dia em que o parecer da inteligência veio a público, o ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, esteve em Ceuta para vistoriar a fronteira de El Tarajal e o Centro de Atenção Temporária de Estrangeiros. Recebido sob protestos de moradores locais, o ministro declarou que os 12 mil migrantes que deixaram o exclave no período mais recente saíram por decisões judiciais, processos administrativos ou vontade própria. “São retornos voluntários e quero ser contundente: não há, em nenhum caso, nenhuma devolução encoberta”, afirmou Grande-Marlaska em coletiva de imprensa, em tradução livre.

Descobertas da inteligência espanhola e o balanço da travessia

De acordo com o relatório do CNI entregue à Justiça espanhola, os órgãos de segurança marroquinos eram “plenamente conscientes de que se produziria esse fluxo” e “absolutamente conhecedores de que estava se gerando uma situação anômala em termos de tentativas de entradas irregulares”, em tradução livre do documento. Os chamados digitais para a travessia aproveitavam o dia 31 de julho de 2026, data da Festa do Trono, feriado nacional marroquino cujas celebrações oficiais ocorreram em uma localidade situada a cerca de 25 quilômetros da divisa espanhola. Na ocasião da chegada em massa, o governo da Espanha havia informado inicialmente cerca de 60 mil entradas em 24 horas e a ausência de indícios de participação marroquina, mas a apuração judicial consolidou mais de 70 mil acessos em um único dia — com estimativas totais entre 72 mil e 80 mil pessoas ao longo do episódio, incluindo incursões menores em Melilla.

A maioria dos recém-chegados entrou no território espanhol nadando ao redor dos quebra-mares das praias de Tarajal e Benzú, caminhando pelos espigões da costa ou tentando escalar as cercas divisórias. O fluxo, formado majoritariamente por jovens marroquinos, além de famílias, crianças e cidadãos de outras nações africanas, já vinha pressionando a capacidade máxima dos centros de acolhimento na semana anterior ao pico da crise. No primeiro balanço divulgado em 31 de julho de 2026, o governo espanhol havia confirmado 57 óbitos e a repatriação imediata de mais da metade dos migrantes; no acumulado da crise nas águas de Ceuta e da localidade marroquina de Fnideq, o número de mortes chegou a pelo menos 141 pessoas afogadas durante o percurso marítimo.

  • 30 e 31 de julho de 2026: mais de 70 mil migrantes cruzam a fronteira do Marrocos para Ceuta em 24 horas, segundo a investigação na Audiência Nacional, superando o cálculo inicial de 60 mil entradas.
  • 57 a 141 mortos: o balanço inicial do governo espanhol registrou 57 corpos resgatados no mar em julho, número que subiu para ao menos 141 fatalidades nas águas de Ceuta e Fnideq.
  • 12 mil saídas recentes: total de migrantes que deixaram o exclave por retornos voluntários ou ordens administrativas e judiciais, conforme balanço do Ministério do Interior nesta sexta-feira (16).
  • 3 mil migrantes: contingente aproximado que ainda permanecia em Ceuta na terça-feira (13), dos quais cerca de 500 são menores de idade desacompanhados.
  • 1º de novembro de 2026: prazo máximo anunciado por Fernando Grande-Marlaska para desalojar os migrantes instalados nos montes de Ceuta.

Fatores jurídicos e atuação de redes de tráfico

Além das falhas de contenção no lado marroquino, a investigação apura a atuação de redes criminosas de tráfico de pessoas que teriam incentivado as travessias pelo mar. O episódio ocorreu três semanas após o Supremo Tribunal da Espanha decidir que o mecanismo de devolução imediata não poderia ser aplicado a pessoas interceptadas no mar ao tentar alcançar Ceuta ou Melilla, exigindo a abertura de trâmites formais de imigração para cada indivíduo. Na avaliação do Ministério do Interior da Espanha, grupos de coiotes se aproveitaram dessa mudança na interpretação das regras de retorno sumário para promover os deslocamentos a nado.

No âmbito europeu, chefes de Estado e de governo de 22 países da União Europeia também apontaram como fator de atração um programa de regularização em massa de imigrantes anunciado em janeiro de 2026 pelo primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. Na época da invasão de julho, o Exército espanhol foi mobilizado para socorrer a Guarda Civil e a Polícia Nacional, que ficaram sobrecarregadas na fronteira, enquanto a União Europeia declarou apoio a Madri e avaliou o reforço da Frontex, a agência europeia da guarda costeira e de fronteiras, ressaltando que entradas irregulares no norte da África não dão direito de circulação na Área Schengen. As autoridades espanholas seguem investigando a origem e as rotas terrestres exatas utilizadas por migrantes de outras nacionalidades africanas até a costa marroquina.

Geografia estratégica de Ceuta e o precedente de 2021

Localizada na margem africana do Mar Mediterrâneo, em frente ao Estreito de Gibraltar, Ceuta é uma cidade autônoma sob administração da Espanha que, ao lado de Melilla — situada a cerca de 400 quilômetros de distância —, possui as únicas fronteiras terrestres da União Europeia no continente africano. O Marrocos reivindica historicamente a soberania sobre ambos os territórios, o que transforma o controle migratório na região em um ponto frequente de pressão política e diplomática entre Madri e Rabat.

A entrada em massa de julho de 2026 superou em larga escala o incidente registrado em maio de 2021, quando aproximadamente 5 mil pessoas cruzaram a divisa para Ceuta em um único dia. Naquele ano, a abertura da passagem esteve ligada a um impasse diplomático provocado pela decisão do governo espanhol de receber em um hospital de Madri o líder da Frente Polisário, movimento que luta pela independência do Saara Ocidental — antiga colônia espanhola classificada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como território não autônomo e cuja maior parte é controlada pelo Marrocos.

Novas barreiras físicas e situação dos abrigados

Para conter novas travessias a nado e resolver a permanência de cerca de 3 mil imigrantes que seguiam na periferia da cidade após o desmonte de acampamentos informais na semana do dia 13 de outubro de 2026, o Ministério do Interior detalhou o andamento das análises individuais nos centros de acolhimento. Segundo Fernando Grande-Marlaska, mais de 400 migrantes desistiram dos pedidos de proteção internacional antes da conclusão dos processos após serem informados de que não preenchiam os requisitos legais para permanecer em território espanhol, enquanto outros 500 foram expulsos por ordem judicial ou resolução administrativa.

Em relação aos cerca de 500 menores desacompanhados que permanecem sob tutela nas instalações locais, o governo regional de Ceuta e o Partido Popular (PP), de oposição, cobraram do governo central o retorno dos jovens ao Marrocos, enquanto o Executivo espanhol mantém os trâmites previstos na legislação de proteção à infância. Como medida estrutural na fronteira, o Ministério do Interior anunciou nesta sexta-feira (16) a ampliação do espigão marítimo na praia de Tarajal, a instalação de um novo sistema de boias e balizamento na água e o compromisso de retirar todos os migrantes acampados nos montes de Ceuta até 1º de novembro de 2026.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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