O Ministério de Minas e Energia (MME) e o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) mantêm a suspensão do horário de verão em todo o território nacional para o ciclo de 2026 e 2027. A diretriz preserva os relógios sem o adiantamento de uma hora em todas as regiões do país. Avaliações técnicas apontam que a medida deixou de produzir economia relevante de eletricidade, uma vez que o maior volume de demanda migrou para as tardes quentes em razão do uso de aparelhos de refrigeração.
Com a manutenção do fuso padrão, trabalhadores, estudantes e empresas não precisam realizar ajustes sazonais na rotina, enquanto segmentos como comércio e turismo organizam suas operações sem a hora adicional de sol no fim do dia. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, estabeleceu a segurança e a estabilidade do suprimento elétrico como prioridades da pasta. Segundo o titular do ministério, a retomada da mudança nos relógios só entra em pauta diante de uma situação real de risco energético no país.
Levantamentos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) demonstram condições favoráveis de atendimento à demanda nos reservatórios das hidrelétricas, o que dispensa medidas emergenciais. Na sexta-feira (16), o ONS divulgou no Programa Mensal de Operação (PMO), referente à semana de 17 a 23 de outubro de 2026, a revisão da carga de energia do Sistema Interligado Nacional (SIN), rede que conecta a geração e a transmissão de eletricidade no país. O operador elevou a estimativa de crescimento do consumo em outubro de 2026 de 3,8% para 4,9% na comparação com outubro de 2025, alta de 1,1 ponto percentual em uma semana, impulsionada pelas temperaturas elevadas na segunda quinzena do mês.
- Carga média prevista pelo ONS para outubro de 2026: 86.358 megawatts médios (MWm), unidade que mede a potência média consumida e as perdas da rede ao longo do período;
- Variação regional da carga em outubro de 2026: altas de 11,8% no Nordeste, 10,3% no Norte e 3,5% no Sudeste/Centro-Oeste, com recuo de 0,8% no Sul;
- Pico histórico de demanda instantânea: deslocado para as 14h, com recorde de 103.785 MW registrado em fevereiro de 2025, após o verão de 2024-2025 ser apontado como o mais quente desde 1961;
- Economia histórica do horário de verão: restrita a menos de 0,5% do consumo total de eletricidade do país.
Consumo nas tardes quentes e projeções de carga até 2030
A evolução nos hábitos de uso de eletricidade tirou a eficácia do adiantamento dos relógios no país. Em décadas anteriores, o ápice da demanda ocorria no começo da noite, puxado pelo acionamento simultâneo da iluminação artificial. A popularização do ar-condicionado transferiu essa concentração para o meio da tarde, faixa horária que já dispõe de luminosidade solar natural. Na quinta-feira (15), essa pressão vespertina refletiu no mercado livre de energia, onde o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), indicador que serve de referência para as negociações de curto prazo, subiu no fim da tarde até atingir um dos maiores patamares previstos para o dia.
Relatórios técnicos do CMSE vêm registrando essa transformação estrutural no perfil da carga desde as avaliações de 2024. Suspensa por decreto presidencial desde 2019, a alteração de horário havia estreado no país em 3 de outubro de 1931, por meio do Decreto nº 20.466, durante o governo de Getúlio Vargas, e passou a ser aplicada de maneira contínua na década de 1980. Por funcionar melhor em áreas distantes da Linha do Equador, onde a variação de luz entre as estações é maior, os estados do Norte e do Nordeste ficavam fora da lista de aplicação.
A modernização das redes de distribuição, o uso de lâmpadas LED e a expansão de fontes renováveis substituíram os ajustes sazonais no relógio. De acordo com a segunda Revisão Quadrimestral das previsões de carga para o período de 2026 a 2030, elaborada pelo ONS em conjunto com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo global deve crescer 4,1% no acumulado de 2026, alcançando 84.989 MW médios.
Para o intervalo até 2030, a projeção oficial aponta expansão média anual de 4,5%, chegando a 101.947 MW médios no último ano da série. O cálculo incorpora o avanço da micro e minigeração distribuída (MMGD), modalidade em que consumidores produzem a própria energia, e a instalação de novos centros de processamento de dados, além dos efeitos climáticos do fenômeno El Niño previstos para 2026 e 2027. No mesmo levantamento, a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) usada como base pelo setor elétrico foi ajustada de 2,0% para 2,1% em 2026, e de 2,4% para 2,0% em 2027.
Proibição por projeto de lei na Câmara dos Deputados
No Congresso Nacional, a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados aprovou, em 5 de outubro de 2025, um projeto de lei que veda a adoção do horário de verão no território brasileiro. Relator da matéria no colegiado, o deputado Otto Alencar Filho defendeu a manutenção de um horário uniforme ao longo do ano para impedir transtornos à população e às atividades econômicas.
A proposta legislativa revoga dispositivos de decretos anteriores e restringe eventuais mudanças no fuso a situações de crise energética severa, a exemplo de estiagens prolongadas, seguindo para análise da Comissão de Constituição e Justiça. A iniciativa busca transformar em lei a suspensão iniciada em 2019, medida que conta com o respaldo de segmentos como a indústria e a aviação civil pela facilidade no planejamento logístico de voos e turnos.
O debate parlamentar acompanha as análises anuais do Executivo sobre as condições hídricas e meteorológicas. Além da questão energética, pareceres anexados à discussão apontam que a estabilidade nos ponteiros evita distúrbios de sono e oscilações cardiovasculares registradas na população nos dias imediatamente posteriores à troca de horário.
Adaptação de vendas no comércio e redução de custos na indústria
No setor produtivo, redes varejistas que contabilizavam alta de 10% nas vendas noturnas durante a vigência do horário de verão passaram a operar com cronogramas fixos. Entidades do comércio nas regiões Sul e Sudeste direcionaram o foco para campanhas e promoções diurnas, compensando a ausência de claridade natural após o fim do expediente comercial.
O parque industrial, por outro lado, registra ganhos de previsibilidade ao manter turnos inalterados durante os doze meses do ano. Empresas de manufatura e operadores de logística apontam queda de até 5% nos custos operacionais sem a necessidade de reajustar escalas e sistemas de transporte a cada mudança sazonal.
Na área de turismo, especialmente em municípios do litoral onde a programação noturna aproveitava o entardecer mais tardio, agências e operadoras reformularam pacotes de viagem. O setor prioriza passeios e eventos concentrados no período da tarde, adequados ao fuso padrão vigente.
Posicionamento de entidades empresariais e consulta pública
Representantes do empresariado manifestaram avaliações distintas sobre a manutenção dos relógios. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) apoiou a continuidade da suspensão, ressaltando a simplificação nas operações bancárias e nas transações comerciais entre diferentes estados. Em sentido oposto, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) apontou preocupação com a retração no movimento de clientes nos estabelecimentos após as 18h.
Produtores de eventos culturais também adequaram seus calendários, ampliando a oferta de atividades matinais e vespertinas, em alinhamento com países vizinhos como a Argentina, que já haviam encerrado a prática. No âmbito governamental, consultas públicas promovidas pelo MME em setembro de 2025 reuniram mais de 5 mil participantes e registraram 70% de manifestações favoráveis à permanência do horário padrão.
Efeitos no sono, na frequência escolar e no trânsito
Na área de saúde coletiva, a manutenção do fuso evita alterações bruscas no ciclo circadiano, mecanismo biológico que regula o sono e o apetite ao longo de 24 horas. Pesquisas médicas indicam que adiantar o relógio em uma hora gera quadros de insônia nos primeiros dias e sonolência diurna, reduzindo o rendimento de trabalhadores por semanas.
Levantamentos internacionais citados nas análises técnicas apontam elevação de 6% nos atendimentos hospitalares por fibrilação atrial, tipo de arritmia cardíaca, logo após a mudança nos ponteiros. No ambiente educacional, escolas e universidades mantêm o calendário acadêmico sem que crianças e adolescentes precisem despertar ainda no escuro, enquanto estatísticas de trânsito de 2018 mostravam alta de 9% nas colisões associadas à fadiga nos primeiros dias de adaptação ao horário antigo.
Monitoramento do El Niño e leilão de baterias do governo
O acompanhamento das condições de suprimento segue de forma contínua pelo governo federal. Na 322ª reunião ordinária, realizada em 5 de agosto de 2026, o CMSE estabeleceu uma ação específica de monitoramento para o fenômeno climático El Niño, diante da previsão de sua intensificação no segundo semestre. O relatório oficial decorrente do encontro, datado de 31 de agosto de 2026, ratificou a conclusão técnica de que a adoção do horário de verão não é pertinente para a temporada de 2026/2027.
Para atender aos picos de consumo sem recorrer a alterações no relógio, o planejamento energético combina a expansão de usinas eólicas e solares, que somaram R$ 20 bilhões em investimentos em 2025, com a otimização de hidrelétricas de grande porte como Itaipu, Jupiá e Porto Primavera. O MME também estruturou a realização de leilão de baterias de alta capacidade, tecnologia projetada para estocar a produção eólica e armazenar a energia solar gerada durante o dia por até 22 horas para uso nos horários de maior demanda.
