Lula e Flávio Bolsonaro têm falas checadas após debate de 2026

Flavio Bolsonaro e Lula - Reprodução/ Renato Pizzutto/Band

Flavio Bolsonaro e Lula - Reprodução/ Renato Pizzutto/Band

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresentaram dados imprecisos e falsos sobre contas públicas, tarifas comerciais e processos judiciais no primeiro debate do segundo turno das eleições de 2026, realizado neste domingo (18), em São Paulo. O levantamento de verificação de fatos apurou que os dois candidatos misturaram estatísticas oficiais verdadeiras, como a dívida bruta de R$ 11,1 trilhões, com informações incorretas sobre o déficit primário herdado em 2023 e o julgamento da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF).

O confronto na televisão teve duração prevista de duas horas, foi dividido em três blocos e contou com a mediação dos jornalistas Adriana Araújo e Eduardo Oinegue. Foi o primeiro encontro direto entre os dois postulantes na campanha de 2026, uma vez que ambos se ausentaram do debate do primeiro turno, realizado em 23 de agosto de 2026 apenas com Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury.

Contas públicas e Bolsa Família nas falas de Lula e Flávio Bolsonaro

Durante o encontro, foi correta a citação de que a dívida deixada pelo atual governo atingiu a marca de R$ 11 trilhões. Segundo relatório do Banco Central divulgado em 30 de setembro de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), indicador que engloba União, Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), estados e municípios, alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) chegou a R$ 9,2 trilhões (69,3% do PIB). Por outro lado, Lula errou ao declarar que herdou um déficit primário de 2,8% do PIB da gestão de Jair Bolsonaro (PL) e que a economia brasileira só voltou a crescer acima de 3% em seu atual mandato. A série histórica do Tesouro Nacional mostra que, em 2022, o Governo Central registrou superávit primário de 0,5% do PIB (R$ 46,4 bilhões), enquanto em 2023 houve déficit primário de R$ 228,5 bilhões (2,1% do PIB), resultado influenciado pelo pagamento de R$ 92,4 bilhões em precatórios, que são dívidas de sentenças judiciais definitivas. Além disso, o PIB já havia crescido 4% em 2011, sob Dilma Rousseff, e 5% em 2021, sob Jair Bolsonaro.

Já as declarações de Lula sobre seus dois primeiros mandatos (2003 a 2010) mostraram-se verdadeiras: o petista obteve superávit primário — a economia feita pelo governo para pagar os juros da dívida — em todos os oito anos daquele período, marca que Fernando Henrique Cardoso não alcançou integralmente em seus dois mandatos (1995-1998 e 1999-2002) devido a um déficit de 0,3% em 1997. Também procede a informação de que o Brasil conquistou o grau de investimento, selo de baixo risco de calote, pelas agências S&P e Fitch em 2008 e pela Moody’s em 2009.

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No campo social, a afirmação de Flávio Bolsonaro de que Jair Bolsonaro elevou sozinho o Bolsa Família para o mínimo de R$ 600 é imprecisa. A Medida Provisória 1.076/2021, editada pelo Executivo e convertida na Lei 14.342/2022, subiu o benefício de uma média de R$ 189 em 2021 para R$ 400. Contudo, o acréscimo temporário de R$ 200, que levou o valor a R$ 600 entre agosto e dezembro de 2022, ocorreu por meio da Emenda Constitucional 123, promulgada pelo Congresso Nacional em 14 de julho de 2022 sem necessidade de sanção presidencial. Na gestão atual, o Decreto nº 13.120/2026, publicado em 17 de setembro de 2026, reajustou o programa em 15,04% pela inflação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), elevando o piso para R$ 691 a partir desta segunda-feira (19).

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Reuniões de Lula e Flávio Bolsonaro nos EUA e gastos de viagens

Flávio Bolsonaro afirmou falsamente no debate que o governo federal não enviou representantes aos Estados Unidos para defender empresas brasileiras diante do aumento de tarifas comerciais, que chegaram a uma alíquota total de 37,5% sobre parte das exportações após taxas de 25% e 12,5% impostas em julho de 2026. Na realidade, Lula reuniu-se pessoalmente por cerca de três horas com o presidente norte-americano, Donald Trump, na Casa Branca, em 7 de maio de 2026, acompanhado dos ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores), Dario Carnevalli Durigan (Fazenda), Márcio Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Alexandre Silveira (Minas e Energia) e Wellington César Lima e Silva (Justiça e Segurança Pública).

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Após aquele encontro em Washington, Donald Trump declarou em publicação: “Acabo de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos muitos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas”. Antes disso, em outubro de 2025, Mauro Vieira já havia se reunido com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ocasião em que o chanceler brasileiro afirmou: “Reiterei a posição brasileira, transmitida diretamente pelo presidente Lula ao presidente Trump na semana passada, sobre a necessidade de reversão das medidas adotadas pelo governo norte-americano desde julho”.

Flávio Bolsonaro esteve na Casa Branca com Trump em 26 de maio de 2026, ao lado do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do youtuber Paulo Figueiredo, e discursou em 7 de julho de 2026 em uma audiência pública aberta do Escritório do Representante de Comércio americano (USTR), na qual a embaixada brasileira enviou diplomatas apenas como observadores por priorizar negociações técnicas. O candidato do PL também errou ao dizer que as viagens de Lula e da primeira-dama Janja custaram R$ 7 bilhões: a soma de gastos de viagens de todos os órgãos federais desde 2023 é de R$ 8,46 bilhões, sendo R$ 30,8 milhões da Presidência em 2026.

Processos de Lula no STF, segurança pública e Mais Médicos

No embate sobre a Operação Lava Jato, Flávio Bolsonaro acertou ao citar que Lula foi condenado em primeira instância, em segunda instância e no Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas mentiu ao declarar que o adversário foi condenado no STF. Na primeira instância, Lula recebeu pena de 9 anos e 6 meses do então juiz Sergio Moro no caso do Triplex do Guarujá, em julho de 2017, e de 12 anos e 11 meses da juíza Gabriela Hardt no processo do Sítio de Atibaia, em fevereiro de 2019. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) confirmou e ampliou as penas em 2018 e 2019, e o STJ reduziu a punição do Triplex para 8 anos, 10 meses e 20 dias em abril de 2019. O STF, porém, nunca condenou o petista: em março de 2021, o ministro Edson Fachin anulou as condenações por incompetência territorial da 13ª Vara Federal de Curitiba, e a Corte declarou a parcialidade de Moro.

Sobre a violência contra a mulher, o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23 de julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), confirma que o país bateu recorde histórico de feminicídios em 2025, com 1.571 vítimas (alta de 4% ante as 1.504 de 2024), além de 286.270 registros de lesão corporal dolosa em violência doméstica (aumento de 2,6%). O total geral de homicídios de mulheres por qualquer motivação, contudo, caiu 5,5%, somando 3.539 mortes em 2025. A coordenadora de Gênero e Raça do FBSP, Juliana Brandão, explicou a tendência de alta nos crimes tipificados por discriminação de gênero: “Se a gente estivesse lidando apenas com a melhoria do registro, a gente ia esperar uma estabilização após alguns anos. Mas o que a gente tem observado é um crescimento que segue de forma contínua ao longo desse período de monitoramento”.

Já a respeito do programa Mais Médicos, Lula utilizou números aproximados ao dizer que encontrou 12 mil profissionais em 2023 e que o contingente atual está perto de 28 mil. Os registros do Ministério da Saúde mostram a seguinte evolução das vagas e do cronograma eleitoral:

  • Dezembro de 2022: 13.716 médicos em atividade na rede pública, divididos entre 8.919 no Mais Médicos e 4.797 no Médicos pelo Brasil.
  • 9 de outubro de 2026: 26.660 profissionais em atividade, dentro de um total de 28.456 vagas autorizadas (com 1.141 em ocupação e 655 desocupadas).
  • 19 de outubro de 2026: início do pagamento do Bolsa Família com o novo piso de R$ 691.
  • 25 de outubro de 2026: data da votação do segundo turno das eleições presidenciais.

Disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno de 2026

Além das estatísticas checadas, o debate registrou trocas de acusações sobre investigações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, desvios no INSS, menções ao filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, e divergências entre a proposta de criar um Ministério da Segurança Pública e a de classificar facções criminosas como narcoterroristas. No primeiro turno da eleição presidencial de 2026, Flávio Bolsonaro terminou à frente com cerca de 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula, mesmos percentuais (47% a 45%) registrados em pesquisa Datafolha divulgada antes do debate deste domingo (18), a uma semana da votação marcada para o próximo domingo (25).

Carolina Costa: Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração
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