O Manuscrito Voynich teve as páginas encadernadas na ordem errada durante o século XV, segundo um estudo científico publicado no volume 19 do periódico revisado por pares Digital Medievalist em 10 de julho de 2026. A pesquisa conduzida por Colin Layfield, pesquisador de ciência da computação da Universidade de Malta, e por Lisa Fagin Davis, paleógrafa e diretora executiva da Medieval Academy of America, demonstra que o livro mantido na Universidade Yale, em New Haven, nos Estados Unidos, foi originalmente produzido como livretos independentes empilhados, e não como um volume único tradicional.
Intitulado “Singulion Structure and the Voynich Manuscript”, o trabalho aponta que o rearranjo equivocado das folhas separou textos e ilustrações que antes eram vizinhos, o que levou criptógrafos e linguistas a lerem a obra fora de sequência por séculos. “Há evidências de natureza ilustrativa e paleográfica que corroboram a tese”, afirmou Lisa Fagin Davis sobre os resultados da investigação.
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Como a estrutura em livretos alterou a leitura do Manuscrito Voynich?
Na fabricação tradicional de livros medievais, os artesãos utilizavam cadernos aninhados, conhecidos pelo termo técnico “quires”, nos quais várias folhas eram dobradas juntas umas dentro das outras antes da costura. A pesquisa de Colin Layfield e Lisa Fagin Davis indica que o Manuscrito Voynich seguiu um modelo diferente, baseado em “singulions” folhas duplas dobradas ao meio de maneira independente e apenas empilhadas em sequência umas sobre as outras, funcionando como folhetos avulsos que podiam ser consultados ou adicionados separadamente ao conjunto original.
De acordo com os autores, esses folhetos independentes foram abertos, reorganizados e costurados na sequência incorreta para formar um único volume em algum momento entre meados e o final do século XV. Para testar essa hipótese física, a dupla aplicou uma ferramenta estatística e computacional chamada Análise Semântica Latente (LSA, na sigla em inglês), método matemático que avalia padrões e relações entre palavras para medir a proximidade de assuntos em diferentes trechos de escrita.
O processamento de dados comparou blocos de texto distribuídos entre páginas individuais, fólios e bifólios do documento. Os cálculos revelaram alta coesão textual entre páginas que, na encadernação atual, encontram-se fisicamente distantes e separadas por diversas outras folhas. Durante os testes, os pesquisadores também confrontaram a estrutura do Manuscrito Voynich com a de outras obras medievais conhecidas da historiografia, como o Bestiário de Aberdeen (Aberdeen Bestiary) e o livro teológico Speculum Humanae Salvationis.
Além da estatística computacional, o exame visual das páginas sustenta a conclusão de que houve um erro de montagem no passado. Na costura atual do volume, desenhos de tubulações e fluxos de água correm em direção à margem interna do livro área técnica chamada de sarjeta e se interrompem de forma abrupta, sem continuidade na página oposta. Quando os bifólios são reposicionados digitalmente na forma de folhas duplas soltas e empilhadas, essas ilustrações voltam a se conectar e ganham sentido visual.
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Caligrafia do Manuscrito Voynich indica pelo menos cinco autores
A reorganização física do livro também se conecta à identificação de quem escreveu o documento. Análises paleográficas realizadas por Lisa Fagin Davis mostram características distintas de caligrafia distribuídas pelos livretos, o que indica a participação de pelo menos cinco mãos diferentes na redação da obra. Essa divisão do trabalho descarta a teoria histórica de que o volume teria sido criado por um único autor isolado.
“Ainda não sabemos ao certo, mas é provável que o manuscrito fosse um registro de conhecimento coletivo e de consulta comunitária”, disse a diretora executiva da Medieval Academy of America.
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Em outra declaração sobre a autoria compartilhada do código, a paleógrafa detalhou como o formato de livretos muda a visão sobre a origem da peça. “Há muitas pessoas que queriam que o Voynich tivesse sido criado por um gênio louco trabalhando em seu sótão na Londres medieval ou em qualquer outro lugar. Na verdade, as evidências sugerem que estamos falando de um objeto mais comunitário, talvez um conjunto de livretos por meio dos quais a informação era passada de uma geração para a seguinte a ideia do ‘gênio solitário’ está meio que descartada”, declarou Lisa Fagin Davis, em tradução livre.
Histórico e datação do código MS 408 na Universidade Yale
O exemplar original pertence atualmente ao acervo da Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos da Universidade Yale, onde está registrado sob o código de catalogação MS 408. Ao longo de suas páginas de pergaminho, o volume reúne ilustrações de plantas não identificadas pela botânica, diagramas astronômicos e astrológicos, cenas de mulheres nuas banhando-se em piscinas interligadas por tubos e um texto contínuo redigido em um alfabeto desconhecido, batizado pelos pesquisadores de “Voynichese”.
Antes de chegar à instituição norte-americana e passar pelo escrutínio de computadores modernos, o artefato circulou por coleções europeias e acumulou interpretações variadas desde manual de alquimia, medicina ou botânica até partitura musical ou farsa elaborada. Ao longo dos séculos, diferentes personagens históricos tentaram comprar, atribuir autoria ou traduzir o livro sem sucesso, até que exames físicos estabeleceram a verdadeira idade do material.
- 1404 a 1438: intervalo de produção do pergaminho do manuscrito, determinado por exames de datação por radiocarbono.
- Século XIII e segunda metade do século XV: períodos em que viveram, respectivamente, o frade e filósofo Roger Bacon e o polímata renascentista Leonardo da Vinci, apontados em teorias antigas como possíveis autores, hipóteses refutadas pela idade do pergaminho.
- 1599: ano aproximado em que o imperador romano-germânico Rodolfo II adquiriu a obra, por acreditar que o volume guardava segredos científicos e esotéricos.
- Século XVII: período em que o estudioso jesuíta Athanasius Kircher, pesquisador de hieróglifos egípcios, tentou decifrar o código, sem chegar a uma conclusão válida.
- 1912: ano em que o antiquário e comerciante de livros polonês Wilfrid Voynich comprou o manuscrito na cidade de Roma, onde a peça havia permanecido sob a guarda de padres jesuítas por mais de 200 anos.
Próximos passos para a tradução do texto em Voynichese
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Apesar de demonstrar a desordem das folhas e o trabalho de múltiplos escribas, o estudo de Colin Layfield e Lisa Fagin Davis ainda não decifra o significado do texto em “Voynichese” nem estabelece de maneira definitiva a sequência original exata de todas as páginas do documento.
A comprovação de que o volume foi costurado fora da ordem planejada, contudo, altera a base de trabalho para futuras análises de linguistas e criptógrafos que buscam compreender o idioma do manuscrito. “Muitos dos métodos linguísticos e criptológicos podem ser revistos à luz do nosso trabalho, obtendo possivelmente mais sucesso em tornar o manuscrito legível. Afinal, não se consegue ler um livro cujas páginas estão fora de ordem”, afirmou Lisa Fagin Davis.
