Corais construtores de recifes têm 44% das espécies ameaçadas de extinção em revisão global da IUCN

coral - Al Carrera/Shutterstock.com

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Uma reavaliação global de corais construtores de recifes conduzida pelo Grupo de Especialistas em Corais da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) concluiu que 340 das 774 espécies com dados suficientes estão ameaçadas de extinção. O índice equivale a 44% do grupo avaliado no estudo publicado na revista científica Nature na quinta-feira, 15 de outubro de 2026, e anunciado em Mombaça, no Quênia.

O levantamento revisou todas as 892 espécies conhecidas de corais formadores de recifes que integram a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, das quais 118 não apresentaram dados suficientes para classificação de risco. “Esta avaliação fornece o panorama mais completo até hoje sobre o risco global de extinção entre os corais que formam recifes, e um alerta severo sobre o aumento acelerado das ameaças globais aos recifes de corais. Ela também destaca os desafios que enfrentamos para lidar com grandes lacunas de dados e conhecimento sobre a situação das espécies em escala global, ao mesmo tempo em que temos que tomar decisões urgentes para reduzir os fatores dos declínios globais em espécies e ecossistemas críticos”, afirmou, em tradução livre, David Obura, autor principal do estudo, copresidente do Grupo de Especialistas em Corais da Comissão de Sobrevivência de Espécies da IUCN (IUCN SSC) e diretor da CORDIO East Africa, organização de pesquisa marinha sediada no Quênia.

Dados, categorias de risco e autoria da revisão da IUCN

Foto: Recife de coral – Tunatura/ Istockphoto.com

O trabalho reuniu contribuições de mais de 60 especialistas em corais de diferentes países e teve a liderança conjunta de David Obura, da pesquisadora Beth Polidoro, da Universidade Estadual do Arizona, e da ecóloga marinha e professora Francoise Cabada-Blanco, da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, que também atua como copresidente do grupo de especialistas da IUCN SSC. Abaixo estão os números e dados institucionais consolidados da avaliação:

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  • Data de publicação e anúncio oficial: quinta-feira (15), em Mombaça, no Quênia
  • Publicação científica e financiamento: revista Nature, com financiamento da MSC Foundation
  • Universo total analisado: 892 espécies conhecidas na Lista Vermelha da IUCN (774 com dados suficientes e 118 com dados insuficientes)
  • Total sob ameaça de extinção: 340 espécies (44% das que possuíam dados suficientes)
  • Divisão por grau de ameaça: 33 espécies Criticamente em Perigo, 251 Em Perigo e 56 Vulneráveis
  • Proporção regional de espécies ameaçadas: 50% das avaliadas no Oceano Atlântico e 43% no Indo-Pacífico

Como o aquecimento dos oceanos afeta os corais construtores de recifes?

O aquecimento das águas marinhas provocado pela mudança climática e o estresse térmico projetado foram determinantes para enquadrar mais de 90% das espécies que figuram nos grupos de maior risco de desaparecimento. A elevação da temperatura da água desencadeia eventos de branqueamento, processo biológico no qual o coral expulsa as algas microscópicas que habitam seus tecidos e que são responsáveis por fornecer grande parte de sua energia vital, levando o animal à morte caso o calor persista por períodos prolongados. Para calcular as reduções populacionais no estudo, os cientistas cruzaram tendências históricas de perda de cobertura de recifes, características de vulnerabilidade próprias de cada espécie e projeções de branqueamento severo anual baseadas no cenário climático intermediário SSP2-4.5, modelo adotado internacionalmente em projeções de emissões de gases de efeito estufa.

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Os autores alertam que o número real de espécies em perigo no planeta já deve superar o índice de 44% calculado no artigo científico. A defasagem ocorre porque a base de dados utilizada na modelagem se encerra no ano de 2020 e não incorpora integralmente os três anos de calor recorde e o quarto evento global de branqueamento de corais, registrado entre 2023 e 2025, nem a formação do fenômeno climático El Niño de 2026–2027.

O estudo não calcula qual seria a porcentagem exata de espécies ameaçadas caso os impactos completos do quarto evento global de branqueamento já estivessem contabilizados nos modelos matemáticos. “Estamos muito preocupados que o risco de extinção já tenha ultrapassado os 44% e esteja se aproximando da metade de todas as espécies”, declarou David Obura.

Situação dos corais no Oceano Atlântico e na costa do Nordeste do Brasil

A pressão sobre os ecossistemas marinhos varia conforme a bacia oceânica, atingindo metade das espécies avaliadas no Oceano Atlântico, marca superior à registrada na região do Indo-Pacífico. No Atlântico Sudoeste, com destaque para o litoral do Nordeste do Brasil, o grau de risco é considerado particularmente elevado pelos cientistas devido à presença de espécies com área de distribuição restrita e à concentração do maior índice de endemismo de todo o Atlântico, condição que define animais que não existem naturalmente em nenhum outro local do planeta. Como há um número menor de espécies cumprindo funções ecológicas semelhantes nessa faixa costeira, a perda de uma única população provoca impactos desproporcionais sobre a estrutura física do ambiente e sobre os demais organismos marinhos que dependem do recife para sobreviver.

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“Para uma espécie endêmica, uma extinção local é uma extinção global, porque não há outro lugar para ela persistir ou de onde possa recolonizar”, disse Francoise Cabada-Blanco. A pesquisadora apontou ainda que episódios severos de branqueamento e mortalidade foram registrados ao longo de uma extensa faixa da costa brasileira durante o quarto evento global de branqueamento, entre 2023 e 2025.

Entre os grupos taxonômicos mais afetados no mundo estão os corais ramificados da família Acroporidae, essenciais para formar a estrutura tridimensional dos recifes. No Indo-Pacífico, 191 de 279 espécies avaliadas dessa família (68%) entraram nas listas de risco da revisão, enquanto no Oceano Atlântico as espécies Acropora cervicornis e Acropora palmata acumularam quedas populacionais superiores a 80%.

Na direção oposta, o coral Galaxea fascicularis, registrado no Golfo de Aqaba, no Mar Vermelho, passou a ser enquadrado na categoria de Menor Preocupação na nova lista. Documentações visuais dessa espécie no Mar Vermelho e de recifes preservados na Papua-Nova Guiné que ainda demonstram resistência ao aquecimento das águas foram produzidas pelo pesquisador e fotógrafo Tom Shlesinger e divulgadas junto com o levantamento.

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Comparação com a avaliação da IUCN de 2008 e impactos em mais de 100 países

O quadro atual representa uma deterioração em comparação com a primeira avaliação global de corais construtores de recifes concluída pela IUCN em 2008, ocasião em que cerca de um terço das espécies analisadas figurava nas categorias de ameaça de extinção. Além do desaparecimento direto de populações, os cientistas identificaram um efeito menos visível nos oceanos: um recife pode manter sua área de cobertura aparentemente estável mesmo após perder espécies mais sensíveis ao calor, caso elas sejam substituídas por organismos mais resistentes, mas esse processo resulta em perda de diversidade biológica e de complexidade estrutural.

Os recifes de corais sustentam uma ampla variedade de vida marinha e garantem benefícios econômicos e sociais diretos para mais de 100 países tropicais. “Os recifes de corais estão passando por rápidas mudanças ambientais, mas as respostas variam muito entre espécies e regiões. Melhorar os dados sobre a variação regional a local nas respostas dos corais e recifes às ameaças, em particular à mudança climática, e em nível de espécie e população, melhorará futuras reavaliações do risco de extinção e ajudará os gestores a tomar medidas para proteger e restaurar corais ao redor do mundo”, afirmou Francoise Cabada-Blanco, em tradução livre.

No documento publicado na revista Nature, os autores destacam que cada décimo de grau de aquecimento global evitado pode ajudar a preservar a biodiversidade dos corais e as funções vitais dos ecossistemas de recifes.

Maria: Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.