DNA na Caverna de Denisova revela nova espécie chamada Yak X

Caverna - Emily Marie Wilson - shutterstock.com

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Pesquisadores liderados pelo Centro de Paleogenética, na Suécia, identificaram uma espécie extinta e até então desconhecida de bovídeo da Era Glacial apelidada de Yak X. O anúncio científico, publicado em 5 de outubro de 2026 na revista Current Biology, resultou do sequenciamento genético de restos ósseos recolhidos nas Montanhas Altai, no sul da Sibéria, na Rússia.

O animal apresentava parentesco próximo com os iaques modernos (Bos mutus e Bos grunniens), mas pertencia a uma linhagem evolutiva própria e isolada. “É incomum, especialmente reconhecer uma espécie de mamífero de grande porte a partir de fragmentos pequenos e não identificáveis”, afirmou Love Dalén, geneticista evolutivo do Centro de Paleogenética e autor sênior da pesquisa.

Identificação genética do Yak X e limitações da análise

Foto: Caverna – Salim AL-Obeidani / Shutterstock.com

A descoberta ocorreu porque os pedaços de ossos coletados na Rússia eram pequenos demais para uma identificação anatômica convencional. Diante da impossibilidade de analisar a forma física dos fósseis, a equipe recorreu à extração de material genético para confirmar que os vestígios pertenciam a um mamífero distinto de outras espécies vivas ou extintas.

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“Eu diria que isso está relacionado aos avanços no campo do DNA antigo, já que a genética é uma nova e poderosa fonte de informação aplicada a materiais antigos”, disse Alexandre Gilardet, doutorando no Centro de Paleogenética e coautor principal do estudo.

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A investigação científica reuniu diferentes instituições e estabeleceu os parâmetros técnicos do achado:

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  • Artigo original: estudo intitulado “Ancient genomes reveal an extinct bovine species from mid-latitude Asia” (Genomas antigos revelam uma espécie bovina extinta da Ásia de média latitude, em tradução livre), sob o registro DOI 10.1016/j.cub.2026.09.043.
  • Coordenação na Suécia: Centro de Paleogenética, formado por uma colaboração entre a Universidade de Estocolmo e o Museu Sueco de História Natural.
  • Instituições parceiras: participação de cientistas da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nos Estados Unidos, e da Universidade de Viena, na Áustria.
  • Volume de material: 20 genomas nucleares antigos sequenciados a partir de 20 fragmentos ósseos, sendo 14 retirados diretamente da Caverna de Denisova e 6 de outros sítios paleontológicos das Montanhas Altai.

Como a evidência genética isolada não cumpre os requisitos taxonômicos para atribuir um nome científico formal sem uma descrição morfológica diagnóstica das peças, a equipe manteve a denominação provisória de Yak X. A aparência física exata do bovídeo, assim como a causa definitiva e a data precisa do seu desaparecimento, permanecem desconhecidas pela falta de crânios ou esqueletos completos.

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Como o Yak X vivia na estepe dos mamutes na Sibéria?

Durante o período em que habitou o sul da Sibéria, o bovídeo ocupou um vasto ecossistema de pastagens conhecido como estepe dos mamutes, área que permaneceu livre das grandes camadas de gelo que cobriam partes da Europa e da América do Norte. Naquela paisagem, o Yak X dividia o território com mamutes-lanosos, rinocerontes-lanosos, cavalos e grandes predadores, como ursos-pardos e hienas-das-cavernas, além de conviver com os denisovanos, linhagem humana extinta que habitava a mesma caverna e sobrevivia da caça e da coleta em diferentes ambientes asiáticos.

“Parece razoável que o Yak X fizesse parte do cardápio dos denisovanos”, declarou Dalén sobre a interação entre os hominídeos e o bovídeo na região das Montanhas Altai.

O animal também coexistiu na mesma época e espaço com outros grandes bovídeos do Pleistoceno, época geológica que abrange a Era Glacial, incluindo o bisão-das-estepes (Bison priscus) e o auroque (Bos primigenius), que é o ancestral selvagem extinto do gado domesticado atual. Ao contrário do que ocorreu entre as linhagens humanas arcaicas da Ásia, os pesquisadores encontraram evidências insignificantes de fluxo gênico, ou seja, de cruzamento e hibridização, entre o Yak X e essas outras espécies bovinas.

“Eu esperaria que ele se parecesse mais com um iaque do que com um bisão, dada sua estreita relação com os iaques modernos”, avaliou Dalén.

Cronologia evolutiva do Yak X e diferenças para o iaque atual

A confirmação de que o animal integrava uma espécie independente encerra uma dúvida aberta pelo mesmo grupo de cientistas no ano anterior. Em um estudo preliminar publicado em novembro de 2025, a equipe havia analisado 63 amostras ósseas de bovídeos daquela região siberiana e identificado uma linhagem de DNA mitocondrial desconhecida, batizada na ocasião como clado mitocondrial yak X. Naquele momento, contudo, o DNA mitocondrial sozinho não bastava para comprovar se o achado representava uma espécie nova ou apenas o resultado de cruzamentos entre animais conhecidos, lacuna que foi resolvida agora com o sequenciamento do DNA nuclear completo.

Os dados genômicos traçaram as etapas de surgimento, crise demográfica e desaparecimento da linhagem:

  • Há pelo menos 400 mil anos: a linhagem evolutiva do Yak X divergiu dos ancestrais dos iaques modernos, aproximadamente na mesma época em que ocorreu a separação evolutiva entre os ursos-pardos e os ursos-polares.
  • Entre 250 mil e 200 mil anos atrás: idade aproximada do espécime mais antigo analisado na pesquisa, localizado em uma camada arqueológica datada especificamente entre 247 mil e 202 mil anos atrás.
  • Há cerca de 120 mil anos: durante o Último Interglacial, período de aquecimento climático ocorrido entre 130 mil e 115 mil anos atrás, a espécie sofreu perda de diversidade genética e encolhimento populacional.
  • Há cerca de 27 mil anos: idade aproximada da amostra óssea mais recente identificada no estudo.

“Com base no longo período de 200 mil anos de nossa amostragem, podemos observar que a espécie pode ter sofrido um declínio populacional durante um período de aquecimento há cerca de 120 mil anos e se extinguiu algum tempo depois de nossa amostra mais recente, há cerca de 27 mil anos”, afirmou Jonas Oppenheimer, pesquisador de pós-doutorado no Centro de Paleogenética e coautor principal do estudo.

Os parentes vivos mais próximos do animal extinto, os iaques modernos, possuem pelagem longa, chifres, corcova nos ombros e constituição robusta, sendo que os machos maiores atingem até 1 tonelada de peso. Hoje, os iaques selvagens vivem restritos às grandes altitudes do Planalto Tibetano e do Himalaia.

Já a Caverna de Denisova, de onde saíram 14 das amostras bovinas recém-sequenciadas, ganhou projeção científica em 2008, quando pesquisadores desenterraram um osso de dedo cujo sequenciamento de DNA, anunciado em 2010, revelou a existência dos denisovanos. Populações humanas atuais, sobretudo na Papua-Nova Guiné e na Melanésia, ainda preservam uma pequena porcentagem de DNA denisovano decorrente de cruzamentos antigos com o Homo sapiens.

Jeronimo Santos: Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing