Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Universidade Federal do Ceará (UFC) divulgaram nesta terça-feira (20) novos estudos sobre edição gênica para tolerância ao calor, produção in vitro de embriões e certificação de touros. Os trabalhos científicos foram apresentados durante o 1º Simpósio Internacional de Reprodução e Fertilidade em Gado de Corte (SIMFertCorte), sediado em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, e buscam elevar as taxas de gestação e adaptar o rebanho bovino às temperaturas elevadas.
As investigações reúnem métodos para selecionar embriões e espermatozoides com maior capacidade de gerar bezerros saudáveis, além de ajustes no manejo hormonal de fêmeas. Segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Corte e coordenador do simpósio, Ériklis Nogueira, as técnicas aproximam os laboratórios das propriedades rurais. “Temos muitas novidades que estão sendo pesquisadas, mas que podem, em pouco tempo, estar no campo. O simpósio tem como objetivo ajudar a melhorar a produtividade na pecuária, principalmente na de cria”, afirmou Nogueira.
Edição gênica na Embrapa Gado de Leite gera 5 animais em experimento
Uma das frentes experimentais apresentadas no evento utilizou a ferramenta de edição gênica CRISPR-Cas9, técnica que permite modificar pontos específicos do DNA, para alterar o gene receptor da prolactina em bovinos. Conduzido pelo pesquisador Luís Sérgio Camargo, da Embrapa Gado de Leite, de Minas Gerais, o estudo buscou reproduzir em laboratório o fenótipo conhecido como slick, uma característica genética encontrada naturalmente em algumas raças adaptadas a regiões quentes e que faz o animal nascer com pelos curtos, lisos e brilhantes, facilitando a dissipação de calor.
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O protocolo combinou a fecundação in vitro, a edição gênica dos zigotos em estágio inicial e a posterior transferência dos embriões modificados para vacas receptoras. Ao todo, o experimento resultou no nascimento de 5 animais, sendo que 2 animais apresentaram na prática o fenótipo slick de pelagem curta. Durante as medições feitas no verão da Zona da Mata mineira, esses dois bovinos de pelo curto registraram menor elevação da temperatura corporal e menor aumento da frequência respiratória quando comparados aos animais de pelagem mais longa.
Certificação de touros e protocolos de IATF na Embrapa
Na área de reprodução direta nas fazendas, o pesquisador Roberto Torres Jr., da Embrapa Gado de Corte, de Mato Grosso do Sul, apresentou na palestra “Estratégias de identificação de fertilidade em IATF” modelos matemáticos para avaliar reprodutores usados na inseminação artificial em tempo fixo (IATF), técnica em que a ovulação das vacas é sincronizada para que todas sejam inseminadas em data predeterminada. Torres apontou que touros aprovados nos exames convencionais das centrais de inseminação ainda demonstram diferenças nas taxas de concepção no campo.
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"O foco é no valor adicional desses touros, da importância do processo de certificação em função das diferenças que existem de fertilidade mesmo nos touros que passam por todos os crivos das centrais e são comercializados", explicou o pesquisador. Os métodos tradicionais nem sempre captavam esse ganho esperado, mas a correção de variáveis estatísticas melhora a segurança da escolha. "Adotando um modelo adequado, corrigindo os efeitos importantes e rodando a análise, a gente consegue, com um número bem menor de informação, atingir uma confiabilidade alta nos reprodutores", declarou.
O manejo das fêmeas nos programas de IATF foi detalhado pelo pesquisador Luiz Francisco Pfeifer, da Embrapa Rondônia. O cientista expôs ajustes nos protocolos e o uso de tratamentos hormonais em vacas durante o período pós-parto para recuperar a condição uterina e agilizar os procedimentos nas fazendas. Pfeifer informou que a condução ocorreu “com base em dados de pesquisa que demonstram como é possível manter alta eficiência reprodutiva com menos trabalho, mais agilidade e melhor bem-estar animal”. Segundo o pesquisador de Rondônia, a aplicação correta do tratamento hormonal pós-parto “aumenta a probabilidade de as fêmeas ficarem prenhes e, consequentemente, eleva a rentabilidade do produtor rural”.
Embriões in vitro na Embrapa e proteínas seminais na UFC
A etapa de laboratório para multiplicação genética foi abordada pela pesquisadora e geneticista Margot Dode, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, do Distrito Federal. Os estudos conduzidos por ela tratam da produção in vitro de embriões (PIVE), método em que a maturação dos óvulos e a fecundação ocorrem em ambiente controlado antes da transferência para o útero da vaca. Para reduzir as perdas registradas ao longo do processo, a equipe trabalha no aprimoramento da qualidade dos ovócitos e em critérios de triagem embrionária. A meta da pesquisa é "melhorar sua qualidade e selecionar de forma mais precisa aqueles com maior competência para gerar uma gestação e resultar no nascimento de um bezerro saudável".
Para entender por que touros com exames seminais parecidos obtêm índices distintos na produção de embriões por fecundação in vitro e na resistência do sêmen ao congelamento, a equipe do professor e pesquisador Arlindo Moura, da Universidade Federal do Ceará (UFC), analisou a composição molecular dos espermatozoides e do plasma seminal, a parte líquida do sêmen que nutre e mantém a função das células reprodutivas. O grupo identificou que proteínas específicas da família BSP e a molécula osteopontina, identificada pela sigla OPN, estão associadas a resultados reprodutivos favoráveis. Moura ponderou nas apresentações que o desempenho desses marcadores moleculares pode variar conforme a população bovina analisada, o método de medição e as condições de cada experimento, servindo no futuro como complemento aos exames tradicionais de sêmen.
Datas do 1º SIMFertCorte e divulgação dos resultados em 2026
Os debates ocorreram na capital sul-mato-grossense e tiveram o balanço científico consolidado na terceira semana de outubro. Veja a cronologia das atividades do simpósio:
- 15 de outubro de 2026 — Abertura do 1º Simpósio Internacional de Reprodução e Fertilidade em Gado de Corte (SIMFertCorte), na sede da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), em Campo Grande (MS).
- 16 de outubro de 2026 — Encerramento das palestras técnicas do 1º SIMFertCorte na sede da Famasul.
- 20 de outubro de 2026 — Publicação oficial do balanço com os resultados científicos debatidos pelos pesquisadores no simpósio.
Cooperação internacional e impacto na fase de cria no Mato Grosso do Sul
O 1º SIMFertCorte foi organizado pela Embrapa Gado de Corte, unidade que tem como chefe-geral Mariana de Aragão Pereira, em parceria com o Grupo de Pesquisa em Reprodução e Fertilidade em Gado de Corte (FertCorte). O encontro na sede da Famasul reuniu especialistas de instituições do Brasil, dos Estados Unidos e da Escócia para discutir gargalos da pecuária nacional, com atenção direta à fase de cria, que é a etapa inicial do ciclo da pecuária de corte em que se define a taxa de nascimento de bezerros e quantos animais chegam vivos à desmama.
No caso da pesquisa de edição gênica conduzida pela Embrapa Gado de Leite para resistência ao calor, o trabalho permanece em fase experimental e ainda não está disponível para uso comercial. Nos próximos passos do projeto, a equipe científica pretende ampliar a quantidade de animais gerados, avaliar se as alterações no gene receptor da prolactina são transmitidas de forma estável às gerações seguintes e medir os efeitos do fenótipo de pelo curto em rebanhos maiores.

