Escavação no Alasca acha pontas de pedra ligadas à Sibéria antiga

7 min de leitura
Alasca Foto: Alasca - Foto: Leamus/Istock.com

Uma equipe liderada pela Universidade do Kansas descobriu no interior do Alasca, nos Estados Unidos, os vestígios de uma moradia de 13.800 anos que representa a estrutura habitacional mais antiga já registrada na América do Norte. O levantamento, publicado na quarta-feira, 14 de outubro de 2026, na revista científica Science Advances, detalha a recuperação de mais de 80.000 peças arqueológicas na camada mais antiga do sítio Shég’ Xdaltth’í’, localizado no Vale do Rio Tanana.

O espaço funcionava como um acampamento-base recorrente no fim da Era do Gelo, e não apenas como um ponto de parada rápida para caçadores. Sob a coordenação da professora de Antropologia na Universidade do Kansas e autora principal do estudo, Kelly Graf, os pesquisadores encontraram uma área doméstica com fogueira, forno de terra, bigorna de pedra e agulhas feitas de ossos de aves. “Eu esperava que encontrássemos ferramentas de caça e detritos de lascamento ao redor de uma ou duas lareiras, mas não fazia ideia de que toparíamos com um acampamento-base com dezenas de milhares de artefatos. Foi uma surpresa total”, afirmou Graf, em tradução livre.

Veja também: Doce gigante: Carismático Backpack é coroado o urso mais pesado do Alasca

Estrutura de 3 metros no Alasca guarda forno de terra e bigorna

Na camada de ocupação de 13.800 anos, os arqueólogos identificaram uma mancha oval de sedimento rico em carvão com pelo menos 3 metros de diâmetro. Esse perímetro concentra uma fogueira interna, uma cova rasa e a marca no solo de um provável poste de madeira. A disposição dos vestígios indica a existência de uma tenda ou abrigo parcialmente coberto e voltado para o sul, embora o formato exato das paredes e do teto permaneça desconhecido pela ausência de materiais preservados acima do chão.

Dentro dessa área de convivência e ao lado de um grande forno de terra escavado no solo para cozinhar carne lentamente, o grupo desenterrou uma bigorna de pedra cercada por ossos de bisão esmagados e percutores — pedras de bater feitas de quartzo e quartzito. Os moradores utilizavam esses instrumentos pesados para quebrar os ossos, extrair a medula óssea e produzir gordura animal, um recurso energético essencial para suportar o clima severo do período.

“Ela estava localizada dentro de uma estrutura habitacional e, ao seu redor, havia ossos de bisão bastante esmagados. E havia muitos percutores de rocha de quartzo e quartzito — que eram os martelos usados para quebrar os ossos. Então, achamos que eles estavam usando essas pedras para processar totalmente os ossos a fim de extrair a medula e provavelmente produzir gordura. Tudo isso acontecia perto de um grande forno de terra”, declarou a professora Kelly Graf.

Veja também: Katmai abre torneio do Fat Bear Week com 16 ursos no Alasca nos EUA

Agulhas de osso, restos de mamute e cães no sítio Shég’ Xdaltth’í’

A rotina no acampamento ia além do abate de grandes animais e envolvia a confecção de roupas de inverno e objetos pessoais para famílias inteiras. Entre os milhares de fragmentos retirados do solo, os cientistas catalogaram oito pedaços de agulhas esculpidas em ossos de aves e furadores empregados para costurar peles e tecidos flexíveis. O inventário inclui ainda um pingente feito de chifre, porções de pigmento de ocre vermelho de uso possivelmente decorativo e a mandíbula de um canídeo semelhante a um lobo, indício de que alguns dos primeiros cães domesticados das Américas já conviviam com os grupos humanos naquele espaço. A fauna consumida ou aproveitada pelos habitantes abrangia espécies da Era do Gelo que hoje estão extintas na região ou no planeta, ao lado de animais que continuam presentes no território norte-americano, como mamutes, bisões-das-estepes, cavalos, caribus, lebres e aves.

“É fascinante para mim como as pessoas evoluíram e como nossos começos modestos como caçadores-coletores nos levaram aonde estamos agora”, disse Graf ao comentar a variedade de tarefas domésticas registradas no acampamento.

Escavações no rio Tanana somam três períodos de ocupação

O sítio arqueológico fica a cerca de 55 quilômetros a sudeste da cidade de Fairbanks, em uma elevação sobre o rio Tanana. Anciãos da comunidade indígena de Healy Lake Village batizaram o ponto de Shég’ Xdaltth’í’, expressão que significa “eles estiveram lá” na língua atabascana do Alasca. As análises de solo confirmaram três camadas distintas de presença humana, datadas de aproximadamente 13.800, 13.000 e 12.700 anos atrás, o que comprova que diferentes gerações retornaram ao mesmo ponto ao longo de mais de um milênio.

“O sítio fica em uma pequena colina com vista para o rio Tanana, que é um importante sistema fluvial da região. Atualmente há árvores de abeto por toda parte. Durante a última parte do Pleistoceno — a Era do Gelo —, ele era coberto por vegetação de tundra arbustiva”, explicou a autora principal.

O trabalho de campo no local, anteriormente chamado de McDonald Creek, começou em 2013 com expedições anuais da equipe da Universidade do Kansas até a interrupção provocada pela pandemia de COVID-19. As escavações foram retomadas nos anos de 2021, 2023 e 2025, realizadas em parceria com o Conselho Tribal de Healy Lake e a Associação Nativa de Nenana. O artigo publicado no volume 12, edição 42 da Science Advances também tem como coautores o professor e chefe do Departamento de Antropologia da Universidade do Kansas, Ted Goebel, a doutoranda Mia Harbort e o estudante de graduação Mason Sewing, além de contar com um texto de análise complementar assinado pelo pesquisador Spencer Pelton na mesma edição.

Conexão do Alasca com a Sibéria na antiga Beríngia

Durante o período em que o acampamento esteve ativo, o Alasca integrava a Beríngia, também chamada de Ponte Terrestre de Bering — uma faixa de terra firme que conectou a Ásia à América do Norte desde cerca de 35.000 anos atrás até submergir com a elevação do nível do mar há aproximadamente 12.000 anos. Os autores classificam Shég’ Xdaltth’í’ como a ocupação mais antiga conhecida do Complexo Nenana (tradição cultural de ferramentas líticas do interior do Alasca) a leste da antiga ponte terrestre, embora ressaltem que estudos genéticos e arqueológicos já apontem a entrada de humanos no continente americano há cerca de 21.000 anos.

Um dos achados que reforçam a ligação entre os dois continentes é a presença de pontas de pedra bifaciais trabalhadas em formato de losango. Esse desenho bipontado é raro nos registros da tradição Nenana no Alasca, mas aparece documentado em sítios arqueológicos da mesma época no nordeste da Sibéria, no lado russo da antiga Beríngia, como Nikita Lake e Berelekh. A semelhança indica uma conexão cultural transberingiana e o compartilhamento de técnicas de fabricação entre populações separadas pelo estreito atual.

Apesar do volume de peças analisadas, parte das conclusões sobre a dinâmica daqueles grupos ainda depende de novas etapas de investigação científica. Os pesquisadores apontam que ainda não foi possível determinar com certeza se as pontas de pedra em formato de losango funcionavam como armas de caça, facas de corte ou cumpriam ambas as finalidades no acampamento. A equipe também afirma que serão necessárias evidências genéticas adicionais para testar se as semelhanças e diferenças nas ferramentas de pedra refletem movimentos populacionais distintos vindos do nordeste da Ásia.

Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

Notícias relacionadas