Estudo confirma que Praearcturus gigas era um escorpião gigante

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Escorpião - Artem Avetisyan / shutterstock.com Foto: Escorpião - Artem Avetisyan / shutterstock.com

Pesquisadores do Museu de História Natural de Londres e da Universidade de Manchester confirmaram que os fósseis de 415 milhões de anos do Praearcturus gigas pertencem ao maior escorpião já registrado, e não a um crustáceo. Com cerca de 1 metro de comprimento, pouco mais de 3 pés, o animal teve sua classificação definida em um estudo publicado em 2 de junho de 2026 na revista científica Palaeontology.

A equipe liderada por Richard J. Howard, curador de artrópodes fósseis no Museu de História Natural de Londres e autor principal da pesquisa, reavaliou peças que ficaram guardadas no acervo da instituição no Reino Unido por cerca de 150 anos. O animal tinha porte comparável ao de um cachorro e possuía pinças, chamadas cientificamente de pedipalpos, com mais de 16 centímetros de comprimento, dimensão equivalente à de facas de mesa. “Você não gostaria de encontrar essa coisa em um beco escuro. Seria uma fera absoluta”, afirmou Russell Bicknell, paleobiólogo e pesquisador da Universidade Flinders, na Austrália, que não participou do trabalho. “Esse organismo tem uma aparência bem robusta”, disse o especialista.

Anatomia das garras de 16 centímetros e tomografia definiram o Praearcturus gigas

Para encerrar as dúvidas sobre a identidade da espécie, os cientistas re-fotografaram os espécimes históricos, produziram traçados em câmara lúcida — equipamento óptico que permite desenhar a forma exata do fóssil sob o microscópio — e aplicaram dados de tomografia computadorizada, comparando esse acervo com fósseis descobertos mais recentemente. Duas estruturas anatômicas comprovaram que o Praearcturus gigas era um escorpião: o formato das garras, nas quais o dedo móvel aponta para longe da garra fixa (padrão típico de escorpiões, oposto ao observado nos crustáceos), e a presença de um esterno, a placa da parte inferior do tórax, alongado e subtriangular com um sulco central. Essa mesma configuração de esterno aparece no escorpião fóssil Eramoscorpius brucensis, localizado no Canadá.

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Escorpião
Foto: Escorpião – shutterstock.com/Tobias Hauke

A investigação contou com a participação de Russell Garwood, paleontólogo da Universidade de Manchester e coautor do artigo intitulado “A revision of Praearcturus gigas: a giant scorpion from the Lower Devonian (Lochkovian) of Britain”. “O Praearcturus intrigou nós, paleontólogos, por mais de um século. Ao reunir material de várias coleções e usar técnicas de imagem de ponta, conseguimos construir um retrato mais claro do animal do que era possível anteriormente, o que é realmente empolgante”, declarou Garwood, em tradução livre.

Além de confirmar a natureza do artrópode, a revisão taxonômica, que organiza a classificação das espécies, unificou outros registros da mesma região. Os autores demonstraram que duas espécies descritas anteriormente nas mesmas formações rochosas — batizadas de Brontoscorpio anglicus e Bennettarthra annwnensis — não eram animais distintos, mas sinônimos juniores, ou seja, nomes diferentes dados posteriormente ao próprio Praearcturus gigas.

Impasse de 150 anos confundiu o Praearcturus gigas com tatuzinhos-de-jardim

Descobertos originalmente na década de 1870 na região da fronteira do País de Gales, área conhecida como Welsh Borders, os fósseis do Praearcturus gigas foram descritos inicialmente no século XIX como integrantes do grupo dos isópodes, uma ordem de crustáceos que inclui os tatuzinhos-de-jardim e organismos marinhos. Na década de 1980, pesquisadores chegaram a redescrever o material com ilustrações limitadas sugerindo que se tratava de um escorpião gigantesco, mas essa classificação voltou a ser contestada nos anos seguintes por hipóteses de que o bicho fosse parente de milípedes ou um escorpião-marinho, o que manteve o impasse científico até a publicação de junho de 2026.

A trajetória das análises sobre esse artrópode chamou a atenção de outros pesquisadores da área. Para Elizabeth Dowding, catedrática de análise paleoambiental da Universidade Friedrich-Alexander de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, que avaliou o estudo de forma independente, o resultado mostra como o conhecimento evolui a partir do reexame de coleções antigas. “A forma como pensamos sobre extinção e biologia evolutiva deriva da capacidade dos cientistas de trabalharem no mesmo terreno, por meio da repetição. É simplesmente incrível que essa história em si seja uma história de revisão e curiosidade constante sobre o mesmo conjunto de rochas”, afirmou a catedrática.

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Vida do Praearcturus gigas ocorreu 50 milhões de anos antes das primeiras árvores

O escorpião gigante habitou o planeta durante o período Devoniano Inferior, na idade geológica chamada de Lochkoviano, em antigas planícies fluviais do território que corresponde à Inglaterra e ao País de Gales, na Grã-Bretanha. Naquela época, a paisagem terrestre tinha apenas fungos e plantas pequenas que começavam a se espalhar pelo solo, já que as florestas com árvores ainda não haviam evoluído.

A confirmação da idade e do porte do animal altera a cronologia conhecida sobre o surgimento de invertebrados de grandes dimensões em ambientes fora do mar. “Quando pensamos em artrópodes gigantes, as pessoas costumam imaginar as florestas tropicais do Carbonífero com milípedes gigantes ou insetos parecidos com libélulas de um período posterior na história da Terra. Mas o Praearcturus viveu pelo menos 50 milhões de anos antes, muito antes da evolução das árvores, quando a vida em terra firme estava apenas começando”, explicou Richard J. Howard.

Hábitos semiaquáticos e o que falta descobrir sobre o Praearcturus gigas

Os autores do estudo identificaram indícios de que a espécie levava uma vida aquática ou semiaquática, com comportamento anfíbio, circulando entre a água e as margens de rios. Essa leitura baseia-se nas características do ambiente fluvial da Formação St. Maughans, camada geológica onde as peças ficaram preservadas, e na presença de epímeros laterais nos tergitos mesossomais — projeções nas placas dorsais do corpo associadas a esse tipo de deslocamento.

Apesar da definição anatômica obtida nos laboratórios de Londres e Manchester, detalhes exatos sobre a dieta e o comportamento predatório do Praearcturus gigas ainda não foram confirmados pela ciência. A dúvida sobre se o animal caçava suas presas predominantemente dentro da água ou em terra firme permanece como hipótese sujeita à interpretação das evidências fósseis disponíveis.

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Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

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