IA chega aos aplicativos de namoro: entenda os riscos e veja como se prevenir

Aplicativo de namoro - PeopleImages/shutterstock.com

Aplicativo de namoro - PeopleImages/shutterstock.com

Usuários e plataformas de aplicativos de relacionamento nos Estados Unidos passaram a utilizar ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT e robôs integrados, para redigir biografias, escolher fotos e iniciar conversas. A prática, detalhada neste sábado (17), gerou alertas de pesquisadores universitários sobre a perda de autenticidade nos encontros presenciais e riscos à segurança e ao consentimento informado.

Além do uso individual de chatbots para terceirizar a paquera, empresas do setor começaram a substituir o modelo tradicional de deslizar a tela por sistemas automatizados. “Do meu ponto de vista, tudo o que vejo é que, ok, ainda são algoritmos fazendo a correspondência, mas os humanos têm menos controle sobre esse processo”, disse Douglas Zytko, professor de ciência da computação na Universidade de Michigan-Flint.

Uso do ChatGPT para criar biografias e iniciar conversas no Hinge

A busca por automação levou usuários a delegarem a criação de suas próprias apresentações virtuais. Em São Francisco, um profissional de ciência de dados de 38 anos, identificado pelo pseudônimo Jack devido a preocupações com a renovação de seu visto, utilizou o ChatGPT para montar seu perfil e selecionar fotos no Hinge, após pagar a assinatura premium do Bumble e testar aplicativos restritos a convidados.

O sistema escolheu a imagem de Jack com um cachorro para transmitir uma imagem “vulnerável” e “gentil”, além de redigir um texto sobre gostar de rock, viagens de carro e esportes. A estratégia não alterou sua média de combinações no aplicativo, que permaneceu em um dígito.

Em San Diego, o jovem Franky Vergara, de 23 anos, orientou a prima a usar o ChatGPT para responder a uma mensagem no Hinge. Segundo Vergara, o texto gerado pela ferramenta parecia escrito por um humano. Para Kathryn Coduto, professora assistente de ciência da mídia na Universidade de Boston, o hábito cresce pela pressão depositada nas primeiras frases de uma interação.

Essa terceirização tem causado decepções quando o contato passa para o ambiente físico. A usuária Kylee Baxa, de 23 anos, moradora de Nova York, relatou ter saído com pretendentes do Hinge que usaram chatbots para pesquisar detalhes sobre a série de ficção científica “The 100”, de 2014, citada no perfil dela, sem nunca terem assistido à produção.

Foto: Coração partido, golpe amoroso na internet – Pla2na/ Istockphoto.com

Em outro encontro presencial, Baxa descobriu que o acompanhante havia usado inteligência artificial para alterar o fundo de suas fotos, simulando uma viagem para Mykonos, na Grécia, onde ele nunca esteve. “Eu me preocupo com as pessoas que têm uma ótima interação, mas acabam tendo que interagir com uma IA”, afirmou Coduto.

Mudanças no Bumble, Grindr e na nova geração de aplicativos com IA

A adoção de algoritmos avançados, que desde 2023 inclui reconhecimento facial e cálculos de compatibilidade nas plataformas, agora modifica o funcionamento direto dos serviços. Uma nova geração de aplicativos também passou a aplicar dezenas de perguntas sobre valores e preferências para entregar poucas sugestões diretas, eliminando o deslizamento contínuo na tela.

Continue lendo: Google e OpenAI liberam Gemini e ChatGPT para comandos de voz no carro

  • Bumble: substituição do sistema de deslizar a tela para a direita por um mecanismo de combinação baseado em inteligência artificial.
  • Grindr: realização de testes com conversas entre robôs (bots) para avaliar a compatibilidade de possíveis pretendentes humanos.
  • Hinge: integração de auxílio personalizado por IA para a montagem de perfis e sugestões de temas para abrir conversas.
  • Amata, Sitch e Ditto: novos aplicativos que utilizam questionários extensos analisados por IA para sugerir encontros diretos.

Em Nova York, o usuário Mihir Manohar, de 32 anos, respondeu durante cerca de uma hora ao questionário do aplicativo Amata. O chatbot da plataforma organizou um encontro em um bar de vinhos entre ele e Casey, com quem mantém um relacionamento há 10 meses. O fundador do Amata, Ludovic Hureaux, declarou que o objetivo da tecnologia é tirar os usuários do ambiente virtual rapidamente. “Se a IA puder ajudar a reconectar as pessoas na vida real, isso será muito positivo. Se a IA aumentar o tempo gasto online e agravar essa crise de solidão, será ruim, e teremos falhado”, disse Hureaux.

Para Jui Ramaprasad, professora de sistemas de informação na Robert H. Smith School of Business da Universidade de Maryland, em College Park, os novos recursos tentam reduzir o cansaço com o excesso de opções, mas o auxílio humano ainda supera os robôs na hora de criar um perfil. “Se o seu objetivo final é se desconectar da internet e encontrar o amor da sua vida, você provavelmente vai querer qualquer ferramenta que possa te ajudar a fazer isso”, afirmou a pesquisadora, ressaltando que pedir ajuda a um amigo revela mais sobre a personalidade do usuário do que recorrer ao computador.

Dados do Pew Research Center sobre o uso de aplicativos nos Estados Unidos

O avanço das ferramentas automatizadas ocorre em um mercado amplamente utilizado pela população jovem norte-americana. Levantamento do instituto de pesquisas Pew Research Center, publicado em 2 de fevereiro de 2023, aponta a distribuição do uso dessas plataformas no país:

  • Total de adultos nos Estados Unidos que já usaram sites ou aplicativos de namoro: 30%.
  • Adultos de 18 a 29 anos: 53% (mais da metade da faixa etária).
  • Adultos de 30 a 49 anos: 37%.
  • Adultos de 50 a 64 anos: 20%.
  • Pessoas com 65 anos ou mais: 13%.
  • Recorte por orientação sexual: 51% dos adultos lésbicas, gays ou bissexuais (LGB) já utilizaram as plataformas, ante 28% dos adultos heterossexuais.

Verificação de segurança e riscos ao consentimento em encontros

A criação de perfis e imagens falsas por inteligência artificial levantou discussões acadêmicas sobre os limites éticos e legais do consentimento informado quando uma pessoa aceita ter intimidade com base em representações que podem ter sido fabricadas por computador. Para evitar fraudes e identificar perfis artificiais, os pesquisadores recomendam observar três pontos principais nas plataformas: exigir a verificação de conta por meio de selfie em tempo real, procurar variedade nas fotos do perfil (como registros com amigos, familiares ou em atividades externas, além de filtros e retratos individuais) e atentar para frases repetitivas durante a troca de mensagens.

Saiba mais: ChatGPT e Gemini entregam respostas diferentes a usuários bilíngues

Apesar dos filtros digitais, a proteção física continua exigindo cautela direta dos usuários. “O uso de IA não é, de forma alguma, motivo para ignorar ou deixar de realizar verificações de segurança manuais e tomar medidas deliberadas para se proteger ao encontrar um estranho pela primeira vez pessoalmente, onde sempre existe o risco de violência sexual física”, declarou Douglas Zytko. Segundo a professora Kathryn Coduto, o excesso de automação nos aplicativos pode levar parte do público a buscar alternativas fora da internet, impulsionando eventos presenciais como clubes de corrida e encontros rápidos.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.