OpenAI acelera captação antes da abertura de capital da rival Anthropic

6 min de leitura
OpenAI - Mehaniq / Shutterstock.com Foto: OpenAI - Mehaniq / Shutterstock.com

A desenvolvedora do ChatGPT, a OpenAI, está acelerando em Nova York uma nova rodada de financiamento para levantar cerca de US$ 30 bilhões em negociações reveladas nesta segunda-feira (19). O aporte pode elevar o valor de mercado da empresa para mais de US$ 1,4 trilhão e tem como objetivo garantir compromissos de investidores antes da oferta pública inicial de ações (IPO, a estreia de uma companhia na bolsa de valores) da concorrente Anthropic, prevista para meados de novembro de 2026.

O cronograma antecipado ocorre porque as duas empresas de inteligência artificial disputam a mesma base de grandes fundos globais. O grupo japonês SoftBank Group, a gestora MGX, sediada em Abu Dhabi, e outros acionistas atuais da OpenAI já estão em tratativas para participar da nova captação. Na semana anterior a 19 de outubro de 2026, a OpenAI realizou reuniões com fundos soberanos (recursos de investimento pertencentes a governos nacionais) e fundos do tipo long-only (carteiras focadas apenas na compra de ativos para o longo prazo), exatamente no mesmo período em que a Anthropic promovia seu evento para investidores em São Francisco, na quarta-feira (14).

Crescimento da OpenAI com o GPT-6 Astra e corte de preços

Nas apresentações feitas aos potenciais financiadores, a OpenAI usou o desempenho comercial recente para justificar a avaliação acima de US$ 1,4 trilhão. A companhia informou ter atingido a marca de US$ 50 bilhões em receita anualizada (projeção do faturamento de 12 meses a partir do ritmo atual) após o lançamento do seu novo modelo de inteligência artificial GPT-6 Astra. A estimativa interna apresentada aos fundos é de que esse faturamento anualizado chegue a US$ 70 bilhões até o final de 2026.

OpenAI
Foto: OpenAI – Foto: Photo Agency / Shutterstock.com

Para os usuários e empresas que contratam a tecnologia, a disputa por mercado resultou em barateamento do serviço. A OpenAI reduziu os preços cobrados pelo acesso aos seus modelos mais básicos para estimular o volume de uso e declarou aos investidores que tem margem para cortar ainda mais os custos operacionais das ferramentas de inteligência artificial.

Disputa contábil entre OpenAI e Anthropic no terceiro trimestre

A pressa para concluir a rodada de US$ 30 bilhões também busca evitar que a divulgação formal dos balanços financeiros do IPO da Anthropic gere comparações diretas entre os negócios das duas companhias, o que aumentaria a pressão dos investidores sobre a diretora financeira da OpenAI, Sarah Friar, por mais detalhes sobre margens e projeções. As duas rivais adotam critérios contábeis diferentes para registrar o dinheiro que entra no caixa: enquanto a OpenAI contabiliza sua receita em base líquida, descontando de forma antecipada a fatia destinada a parceiros comerciais, a empresa acusa a concorrente comandada pelo cofundador e diretor-executivo Dario Amodei de inflar os próprios resultados ao lançar o valor bruto integral de contratos vendidos por provedores de nuvem terceirizados, prática que a Anthropic, cujo diretor financeiro é Krishna Rao, rebate afirmando seguir normas contábeis estabelecidas.

Analisando a concorrência de forma hipotética por não participar diretamente da operação, o copresidente da área de mercados de capitais do escritório Willkie Farr & Gallagher, Edward Best, avaliou o movimento estratégico em declaração traduzida livremente do inglês: “A OpenAI pode querer definir sua própria avaliação e não ter que se preocupar com uma comparação”. O especialista acrescentou ainda: “É realmente uma corrida de dois cavalos em termos de abertura de capital”.

Do lado da Anthropic, os dados apresentados ao mercado mostram que a receita trimestral subiu de US$ 4,7 bilhões no primeiro trimestre de 2026 para US$ 11,6 bilhões no segundo trimestre, alcançando US$ 16,8 bilhões no terceiro trimestre de 2026 — um avanço trimestral de 45%, após a empresa ter registrado US$ 65 bilhões em receita anualizada em julho de 2026. Apesar do volume, a desaceleração no ritmo de crescimento mês a mês fez com que parte dos investidores passasse a defender uma avaliação de mercado perto de US$ 1,5 trilhão para a estreia na bolsa, abaixo da meta inicial de US$ 2 trilhões.

Histórico de avaliações da OpenAI e da Anthropic em 2026

A corrida por capital ocorre após uma sequência de rodadas bilionárias no setor ao longo do ano. Os principais marcos financeiros das duas empresas em 2026 incluem:

  • Março de 2026: a OpenAI concluiu uma captação recorde de US$ 122 bilhões, que incluiu o compromisso da Amazon de investir até US$ 50 bilhões, atingindo avaliação de mercado de US$ 852 bilhões.
  • Maio de 2026: a Anthropic levantou US$ 65 bilhões em uma rodada privada de Série H, alcançando avaliação pós-investimento de US$ 965 bilhões.
  • Junho de 2026: a OpenAI registrou confidencialmente seu prospecto de abertura de capital mirando a listagem apenas em 2027, após o diretor-executivo Sam Altman descartar a ida à bolsa em 2026.

Instabilidade no mercado de tecnologia e próximas datas em novembro

O reforço de caixa buscado pela OpenAI serve ainda para cobrir compromissos de infraestrutura de dados e proteger o balanço patrimonial da empresa caso a deterioração do mercado financeiro atrase seus planos para 2027. Desde setembro de 2026, o setor de tecnologia enfrenta forte volatilidade ligada aos juros dos títulos públicos, às oscilações no preço do petróleo e ao escrutínio sobre o endividamento necessário para construir centros de dados, movimento que fez as empresas do Índice de Semicondutores da Filadélfia (indicador que reúne as principais fabricantes de chips ligadas à demanda por inteligência artificial) perderem US$ 1,6 trilhão em valor de mercado em menos de duas semanas. No centro dessa desconfiança está a provedora de computação em nuvem CoreWeave, cujas ações e títulos de dívida caíram na semana anterior a 19 de outubro devido às preocupações com quase US$ 50 bilhões em empréstimos tomados para financiar sua expansão, cenário que também levou companhias como AirTrunk REIT (apoiada pela gestora Blackstone), Firmus (apoiada pela Nvidia), SB Energy (apoiada pelo SoftBank) e a empresa de serviços nucleares Holtec a adiarem ou cancelarem suas aberturas de capital nos Estados Unidos.

Até o momento, os termos finais do contrato (documento conhecido no mercado financeiro como term sheet) da rodada de US$ 30 bilhões ainda não foram assinados nem oficializados. Procuradas para detalhar o andamento das conversas, OpenAI, SoftBank, Anthropic e MGX não comentaram oficialmente as negociações.

O próximo passo confirmado na disputa por investidores ocorre na semana de 9 de novembro de 2026, quando está previsto o início do roadshow oficial (série de apresentações formais da diretoria a fundos de investimento antes da definição do preço das ações) da Anthropic para concretizar sua estreia na bolsa em meados do mesmo mês.

Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

Notícias relacionadas