A Polícia Federal deflagrou na segunda-feira, 19 de outubro de 2026, a Operação Backbone para desarticular uma rede ligada à facção Comando Vermelho que impõe monopólio de internet na Zona Norte do Rio de Janeiro. A ação resultou em 20 prisões preventivas e no bloqueio judicial de bens e valores em até R$ 558 milhões por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Entre os detidos preventivamente estão a empresária Márcia Gama Nepomuceno, esposa do traficante Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, e o filho do casal, Lucas dos Santos Nepomuceno, conhecido como Lucca. Um novo mandado de prisão preventiva também foi cumprido contra o próprio Marcinho VP na Penitenciária Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, enquanto o vereador do Rio de Janeiro Fábio Silva Costa (Podemos) foi preso preventivamente em Londrina, no Paraná.
Prisões e defesa dos investigados na Operação Backbone
Segundo as investigações da Polícia Federal, o vereador Fábio Silva Costa é apontado como proprietário e beneficiário de provedores de internet vinculados ao esquema. Os agentes localizaram o parlamentar na casa de um amigo no bairro Jardim Quebec, em Londrina, após ele publicar fotos de um casamento nas redes sociais no domingo (18). Em um endereço ligado a um dos investigados na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio, os policiais encontraram uma mansão equipada com piscina, elevador de vidro transparente e uma lareira avaliada em R$ 6 mil.
O advogado Flávio Fernandes, que representa a defesa de Márcia Gama Nepomuceno, negou irregularidades na conduta da empresária. “O que a gente sabe é que se trata de uma investigação, acredito que não seja processo, que investiga empresas que forneceriam sinais clandestinos de TV, de internet e que essas empresas repassariam valores para familiares da minha cliente”, declarou o defensor. “Márcia não tem nenhum envolvimento com empresas deste tipo de atuação. As empresas com o nome da Márcia são todas legalizadas.”, afirmou Fernandes.
Monopólio do Comando Vermelho na Zona Norte do Rio
De acordo com a Polícia Federal, integrantes armados da facção cortam cabos, incendeiam caixas de distribuição de operadoras concorrentes e impedem reparos técnicos para forçar moradores e comerciantes a contratar o serviço do grupo. Os provedores autorizados pagam uma tarifa mensal à organização criminosa para atuar nos territórios. Registros contábeis apreendidos mostraram que, em um único mês, essa cobrança representou mais de 40% de toda a arrecadação da facção no Complexo da Penha.
“A exploração do serviço tornou-se uma das principais atividades lucrativas do crime organizado e fomenta a guerra pelo controle de territórios: cada comunidade dominada representa uma base de clientes cativos e uma nova fonte de receita para a facção”, informou a Polícia Federal em nota oficial. Os lucros financiavam a família da liderança por meio de empresas arrecadadoras, produtoras de eventos, agências de publicidade, criptoativos e imóveis de alto padrão pagos em dinheiro vivo.
Balanço de mandados e apreensões da Operação Backbone
- Mandados expedidos pelo STF: 47 ordens judiciais, sendo 23 de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão.
- Locais de cumprimento: Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé (RJ), Londrina (PR) e unidades do sistema prisional.
- Áreas sob monopólio investigadas: Complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão, além dos bairros da Pavuna, Anchieta, Ricardo de Albuquerque, Costa Barros e Guadalupe.
- Dinheiro em espécie apreendido: R$ 753.767,50, US$ 2.956 e 3.725 euros (quase R$ 800 mil no total).
- Bens recolhidos nas buscas: 14 carros de luxo, seis armas de fogo, munições, joias e relógios de grife.
Três décadas de prisão de Marcinho VP e mandato de Fábio Silva
Apontado pela Polícia Federal como comandante das atividades empresariais nos territórios mesmo dentro do Sistema Penitenciário Federal, Marcinho VP completou 30 anos de prisão em 2026. O filho dele com Márcia Gama Nepomuceno, o rapper Oruam (Mauro Davi dos Santos Nepomuceno), não figura como alvo nem como investigado na operação. Já o vereador Fábio Silva exerce seu primeiro mandato na Câmara Municipal do Rio de Janeiro após ser eleito em 2024 com cerca de 16 mil votos, ocasião em que declarou patrimônio de R$ 1.618.612 ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A Operação Backbone integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal conforme diretrizes do STF na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, ação judicial que estabelece regras para operações policiais no estado do Rio de Janeiro. Os investigados responderão por domínio social estruturado, extorsão majorada, atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública, interrupção de serviço telemático, desenvolvimento clandestino de telecomunicações e lavagem de dinheiro.
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Até a conclusão do balanço das autoridades, não haviam sido divulgados os nomes dos três alvos de prisão preventiva que seguiam foragidos nem a relação das empresas suspensas. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) será oficiada para cassar as outorgas e interditar os serviços das provedoras investigadas, adotando providências para manter o fornecimento de internet aos moradores das regiões afetadas.
