Os sítios arqueológicos conhecidos como sambaquis, localizados no litoral de Santa Catarina, chegam a atingir 30 metros de altura e frequentemente se assemelham a morros comuns na paisagem costeira. Levantamentos do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal de Santa Catarina (MArquE/UFSC) confirmam nesta terça-feira, 20 de outubro de 2026, que essas estruturas figuram entre as maiores do Brasil e do mundo, preservando vestígios de uma ocupação humana iniciada há mais de seis mil anos.
Diferentemente de elevações naturais, essas formações resultam do acúmulo planejado de materiais por antigas populações litorâneas. “Há mais de seis mil anos, grupos humanos se instalaram no litoral catarinense e deixaram, como testemunhos de sua passagem, sítios arqueológicos conhecidos como Sambaquis (palavra que deriva do tupi tamba= concha/marisco e ki= amontoado)”, informou o MArquE/UFSC.
Composição dos sambaquis e funções funerárias nas comunidades antigas
Traduzido do idioma tupi como amontoado de conchas, o termo sambaqui designa estruturas com variadas formas e composições que vão muito além de carapaças de moluscos e bivalves. A edificação desses montes exigiu o depósito contínuo de diferentes tipos de sedimentos, ossos de animais terrestres e aquáticos, ossos humanos e artefatos fabricados pelas próprias comunidades costeiras, servindo nesta terça-feira (20) como fonte primária para pesquisadores investigarem a alimentação, os costumes e o manejo de recursos ambientais antes da colonização europeia.
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As estruturas não possuíam uma finalidade única dentro da organização social daqueles povos. “Hoje sabemos também que estes sítios, com estas diferentes configurações foram construídos intencionalmente pelas pessoas que ali viviam, estando relacionados a suas atividades cotidianas; alguns deles são considerados exclusivamente sítios cemitérios”, declarou o MArquE/UFSC.
Além do uso para rituais funerários e atividades diárias, pesquisas arqueológicas apontam que os montes funcionavam no passado como marcadores territoriais na paisagem, delimitando áreas entre os diferentes grupos sambaquieiros que habitavam a costa.
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Concentração de sambaquis em Laguna, Jaguaruna e Florianópolis
A distribuição dos sítios do tipo sambaqui abrange quase toda a faixa atlântica brasileira, estendendo-se desde a foz do rio Amazonas até o sul do Rio Grande do Sul, mas o litoral de Santa Catarina detém uma das maiores concentrações do país, sobretudo nas faixas norte e sul do estado. Segundo dados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), os municípios sulistas de Laguna e Jaguaruna reúnem as maiores formações conhecidas em território catarinense, com destaque para o sítio de Garopaba do Sul, em Jaguaruna, classificado como um dos mais extensos.
Em Florianópolis, o acervo do MArquE/UFSC preserva registros de sítios localizados na própria capital, a exemplo do Sambaqui Ponta das Almas e do Sambaqui da Carniça. Entre as peças resgatadas de sambaquis catarinenses e mantidas pela universidade estão zoólitos — esculturas feitas em pedra com formatos de animais —, peças antropomorfas (com formas humanas), discos intervertebrais de baleia e dentes de tubarão.
Investimento de R$ 400 mil do Iphan na proteção dos sítios
A manutenção física dessas áreas exige ações de isolamento para evitar a degradação do patrimônio arqueológico e garantir a continuidade dos estudos científicos conduzidos por instituições do estado, que contam com pesquisadores como Geovan Martins Guimarães, professor e coordenador do Grupo de Pesquisa em Educação Patrimonial e Arqueologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul).
Para proteger essas formações milenares contra invasões e danos estruturais, o Iphan destinou R$ 400 mil no total, entre os anos de 2020 e 2025, especificamente para as obras de cercamento e sinalização de sítios arqueológicos em Santa Catarina.
