Turistas brasileiras no Egito gravam assédio de homens e crianças e caso repercute na rede

Assédio no Egito - Internet

Assédio no Egito - Internet

Duas turistas brasileiras gravaram e compartilharam nas redes sociais cenas em que expõem situações de assédio praticadas por homens e crianças durante uma viagem ao Egito. A gravação ganhou repercussão nesta terça-feira, 20 de outubro de 2026, ao levantar discussões sobre a segurança de mulheres estrangeiras no Cairo, capital egípcia, e a aplicação da legislação penal no país do norte da África.

Nos registros publicados, as viajantes mostram abordagens invasivas e contato físico não autorizado por parte de moradores locais em espaço público. Embora comentários de usuários nas redes sociais tenham sugerido que a prática seria permitida pelas leis locais ou motivada pelas roupas das visitantes, o código penal egípcio tipifica o assédio sexual como crime desde 2014.

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Dados do caso das brasileiras e das leis no Cairo

O episódio envolvendo as visitantes do Brasil soma-se a levantamentos internacionais sobre a vulnerabilidade feminina em território egípcio. Um relatório elaborado pela Fundação Thomson Reuters, braço filantrópico da agência internacional de notícias, classificou o Egito como o pior país para as mulheres no mundo árabe no quesito assédio sexual.

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  • Local da ocorrência: Cairo, capital do Egito, com registros semelhantes relatados nas Pirâmides de Gizé e na cidade turística de Hurghada.
  • Índice de vitimização local: 99,3% das mulheres e meninas no Egito já sofreram algum tipo de assédio sexual, segundo levantamento da ONU Mulheres (entidade das Nações Unidas para a igualdade de gênero).
  • Punição prevista: multa financeira ou pena de prisão que varia de 6 meses a 3 anos de detenção.
  • Órgãos de monitoramento citados: Centro para o Desenvolvimento do Cairo e organização antiassédio Shoft Taharosh (iniciativa civil egípcia de combate ao abuso em vias públicas).

O que diz a lei do Egito sobre punição a agressores e proteção a mulheres

A legislação do Egito estabelece regras específicas para enquadrar e punir abordagens de cunho sexual, contrariando a versão difundida em postagens na internet de que tocar ou perseguir mulheres nas ruas não configuraria delito no país. O texto legal define formalmente como agressor sexual qualquer indivíduo que moleste outras pessoas, seja em ambiente público ou privado, por meio de perseguição ou acompanhamento contínuo, utilizando gestos, palavras ou meios de comunicação em atos que contenham insinuações sexuais, o que sujeita o infrator a sanções penais que alcançam até três anos de reclusão ou o pagamento de multas.

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Os relatos de viajantes brasileiras que já estiveram no país indicam que as abordagens ocorrem em diferentes pontos turísticos e instalações de transporte, como aeroportos e vias públicas de Hurghada e do complexo de Gizé. De acordo com essas viajantes, o assédio acontece independentemente de a turista estar acompanhada ou do tipo de vestimenta escolhida para o passeio. A jornalista e viajante brasileira Bárbara Ligero, que documentou episódios de assédio durante sua passagem pelo país africano, contestou a associação entre as roupas das vítimas e o comportamento dos agressores. “Não é sobre a roupa: nas Pirâmides de Gizé, me ‘atrevi’ a usar uma camiseta e chamei tanta atenção quanto usando manga longa”, afirmou Bárbara Ligero.

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Cronologia do combate ao assédio sexual no Egito desde 2011

A criação de mecanismos legais para punir abusos nas ruas do Cairo foi resultado de pressão interna e internacional após episódios registrados na década passada, que também contam com o acompanhamento de entidades como a Shoft Taharosh, liderada por Hala Mostafa.

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  • 2011 — O debate público sobre a violência contra mulheres no Egito ganha repercussão internacional a partir do levante popular na Praça Tahrir, no Cairo, marcado por denúncias de agressões coletivas.
  • 1 de abril de 2013 — A ONU Mulheres publica relatório apontando o percentual de 99,3% de mulheres e meninas afetadas por assédio sexual no país.
  • 2014 — O governo egípcio altera o código penal e passa a tipificar formalmente o assédio sexual como crime passível de prisão e multa.
  • 30 de maio de 2021 — As leis locais são acionadas em um caso envolvendo os dois países em sentido inverso, quando o médico brasileiro Victor Sorrentino é detido pelas autoridades egípcias após publicar um vídeo com insinuações sexuais em português contra uma vendedora de papiros.
  • Junho de 2021 — Victor Sorrentino é liberado pelas autoridades do Egito após a formalização de um pedido de desculpas.

Histórico na Praça Tahrir e apuração sobre o vídeo das brasileiras

A mudança na postura institucional do Estado egípcio diante das denúncias de violência de gênero ocorreu após a exposição de ataques registrados durante as manifestações políticas na capital do país. Segundo Entessar el-Saeed, diretora executiva do Centro para o Desenvolvimento do Cairo (grupo local de defesa dos direitos das mulheres), a visibilidade dada aos casos foi determinante para alterar a percepção social sobre o problema na região. “A constante cobertura midiática dos ataques sexuais ocorridos em meio aos protestos na Praça Tahrir durante e depois da revolução ajudou a extirpar a negação pública do fenômeno”, declarou Entessar el-Saeed ao analisar o processo que culminou na lei de 2014.

Até a última atualização desta reportagem, os nomes completos das duas turistas brasileiras que aparecem nas imagens, a data exata em que o vídeo foi gravado e a informação sobre eventual registro de boletim de ocorrência na polícia turística egípcia ou pedido de auxílio à Embaixada do Brasil no Cairo ainda não haviam sido confirmados pelas autoridades.

Luís Henrique Costa: Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.