O secretário-geral da Uefa, Theodore Theodoridis, enviou na segunda-feira (19) uma carta com um documento de oito páginas ao secretário-geral da Fifa, Mattias Grafström, exigindo respostas para 42 perguntas sobre a gestão do presidente Gianni Infantino. A entidade europeia estabeleceu o prazo de duas semanas, até segunda-feira, 2 de novembro de 2026, para a entrega das justificativas por escrito e dos documentos comprobatórios em Zurique, na Suíça.
Os questionamentos, divididos em 12 tópicos, são endossados pelos sete representantes europeus entre os 37 membros do Conselho da Fifa: Aleksander Ceferin (presidente da Uefa e vice-presidente da Fifa), Debbie Hewitt (presidente da Football Association da Inglaterra e vice-presidente da Fifa), Sandor Csányi, Dejan Savicevic, Razvan Burleanu, Bernd Neuendorf e Pascale Van Damme. No documento, Theodoridis declarou: “Essas perguntas exigem respostas imediatas. Não podem ser adiadas até a próxima reunião do Conselho da Fifa, nem as futuras reformas de governança podem substituir o escrutínio das decisões já tomadas e a prestação de contas por elas.”
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Projeto de US$ 20 bilhões da Fifa e reação ao recuo de Gianni Infantino
A cobrança formal ocorre após a reunião do Conselho da Fifa realizada na quinta-feira (15), em Zurique, quando Gianni Infantino pediu desculpas pela condução do projeto FIFA Forward Enterprise (FFE), mas recusou-se a responder aos questionamentos de imediato e solicitou que as dúvidas fossem enviadas por escrito para análise em dezembro. O projeto da FFE previa uma avaliação de capital pós-investimento (post-money valuation, valor estimado da empresa após o aporte) de US$ 20 bilhões, com a venda de cerca de 20% dos direitos comerciais das competições da entidade, incluindo a Copa do Mundo, por aproximadamente US$ 4,2 bilhões para investidores privados liderados pela Thrive Capital, empresa dirigida por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A Uefa questiona por que o acordo de exclusividade com a Thrive Capital foi assinado sem consulta prévia ao Conselho e qual era a relação do projeto com o programa FIFA Fast Forward, que prometia US$ 20 milhões a cada associação-membro. Sobre a desistência da criação da empresa, Theodoridis escreveu na carta: “A retirada da FFE, o reconhecimento de erros e o anúncio de ‘potenciais reformas de governança’ não respondem como as decisões relevantes foram tomadas ou por que o Conselho da Fifa não foi envolvido no estágio apropriado.”
Relações da Fifa com Donald Trump, caso Balogun e regras da Copa
Um dos focos da carta envolve a proximidade entre Gianni Infantino e o presidente norte-americano Donald Trump, além de decisões tomadas durante a Copa do Mundo de 2026. Os dirigentes europeus cobram explicações detalhadas sobre a revogação da suspensão por cartão vermelho do atacante dos Estados Unidos Folarin Balogun, que foi expulso na partida contra a Bósnia e Herzegovina e liberado pelo Comitê Disciplinar da Fifa para enfrentar a Bélgica nas oitavas de final após um telefonema de Trump a Infantino. O documento também aponta potenciais conflitos de interesse em uma série de atos administrativos e comerciais ligados ao político e aos seus familiares.
Entre as despesas, decisões regulamentares e acordos comerciais questionados pelos representantes europeus nos 12 tópicos da carta estão:
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- Entrega do Prêmio da Paz da Fifa a Donald Trump sem aprovação prévia do Conselho da Fifa;
- Contrato de locação de um escritório na Trump Tower, em Nova York, pelo período de sete anos e valor aproximado de US$ 4 milhões (ou 4 milhões de euros);
- Acordo de patrocínio da Copa do Mundo com a empresa Kalshi, ligada a Donald Trump Jr., e discussões sobre a criação de uma criptomoeda da Fifa;
- Pagamento adicional não divulgado no relatório anual, apontado em reportagens no valor de US$ 1,7 milhão, que Infantino teria recebido da subsidiária organizadora do Mundial nos Estados Unidos (FWC2026 US Inc.);
- Despesas de Infantino com jatos particulares, hospedagens no Catar e nos Estados Unidos, uso gratuito de suítes de hospitalidade por celebridades e valores totais pagos ao cantor Marc Anthony;
- Ampliação do intervalo da final da Copa do Mundo de 2026, disputada entre Espanha e Argentina, para 27 minutos e criação de paradas de hidratação obrigatórias em todos os jogos sem autorização da International Football Association Board (IFAB, órgão que regulamenta as regras do futebol).
Disputa pela presidência da Fifa e cronograma até março de 2027
O impasse entre as duas entidades teve início após o Mundial na América do Norte, quando a Uefa, a Concacaf e a Confederação Asiática de Futebol (AFC) se opuseram à abertura da Fifa ao capital privado. Em agosto de 2026, a confederação europeia declarou ter perdido a confiança em Infantino e passou a articular um candidato alternativo para impedir o quarto mandato do dirigente. Na carta de segunda-feira (19), a Uefa também questionou a independência e a imparcialidade do presidente do Comitê Eleitoral da Fifa, Chiomento, e da presidente da Câmara de Julgamento do Comitê de Ética, Rojas, além de cobrar explicações sobre uma denúncia apresentada pela Federação Norueguesa de Futebol.
As etapas decisivas do confronto institucional entre os dirigentes europeus e a administração da Fifa seguem o seguinte calendário:
- Quarta-feira, 1 de julho de 2026: Folarin Balogun é expulso no jogo entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina pela Copa do Mundo;
- Sábado, 1 de agosto de 2026: Gianni Infantino retira a proposta da FIFA Forward Enterprise (FFE) após rejeição das confederações;
- Quinta-feira, 15 de outubro de 2026: Infantino pede desculpas pela condução da FFE em reunião do Conselho em Zurique e solicita perguntas por escrito;
- Segunda-feira, 19 de outubro de 2026: Uefa envia o documento com 42 perguntas ao secretário-geral Mattias Grafström;
- Segunda-feira, 2 de novembro de 2026: prazo final imposto pela Uefa para a entrega das respostas e dos documentos comprobatórios;
- Quarta-feira, 18 de novembro de 2026: encerramento do prazo para registro de candidaturas à eleição presidencial da Fifa;
- Quarta-feira, 16 de dezembro de 2026: próxima reunião do Conselho da Fifa, agendada para Doha, no Catar;
- Março de 2027: realização da eleição presidencial da Fifa.
No texto enviado a Grafström, Theodoridis reforçou a exigência de cumprimento do calendário: “Solicitamos formalmente uma resposta escrita e substantiva a cada pergunta, juntamente com toda a documentação comprobatória, até segunda-feira, 2 de novembro. Qualquer recusa em divulgar informações ou documentos deve ser justificada individualmente, com uma explicação clara dos motivos específicos invocados.” A Fifa ainda não se manifestou publicamente sobre o recebimento da carta nem confirmou se entregará a documentação até 2 de novembro de 2026, e a Uefa não especificou quais medidas práticas adotará caso o prazo não seja cumprido.
