Os poços de alcatrão de La Brea, situados no Hancock Park, no centro de Los Angeles, funcionaram por dezenas de milhares de anos na Era do Gelo como uma armadilha de asfalto natural que aprisionava grandes herbívoros e atraía predadores em sequência. Esse mecanismo geológico e biológico formou um acervo paleontológico no qual entre 70% e 90% dos fósseis de grandes mamíferos escavados pertencem a animais carnívoros.
A dimensão do depósito e a variedade de espécies preservadas ao longo de um período de 50.000 a 60.000 anos destacam o sítio californiano nos levantamentos paleontológicos mundiais. Segundo Emily Lindsey, paleoecóloga, curadora associada e diretora do sítio de escavação do La Brea Tar Pits, não há quase nada na Terra, de qualquer período de tempo, que possa se igualar ao número e à diversidade de fósseis encontrados no local.
Como o asfalto natural de La Brea criou a armadilha de carnívoros
A estrutura geológica do Rancho La Brea é alimentada por vazamentos contínuos de petróleo bruto que migram de reservatórios subterrâneos até a superfície terrestre há dezenas de milhares de anos. Quando as frações mais leves desses hidrocarbonetos evaporam em contato com o ar, resta o betume, uma substância escura, espessa e viscosa conhecida como asfalto natural. Durante o Pleistoceno, em dias quentes, esse material ficava macio e era encoberto por folhas, poeira e pequenas poças de água, camuflando o risco em uma paisagem então composta por campos e áreas arborizadas. Diferentemente da areia movediça, o asfalto não precisava submergir o animal por completo para impedir sua fuga, pois bastava prender suas patas na superfície pegajosa.
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Quando um grande herbívoro, como um mamute-colombiano (Mammuthus columbi), um mastodonte, uma preguiça-gigante ou um bisão-antigo (Bison antiquus), ficava retido pelo betume, seus movimentos de luta, sons e odores atraíam predadores em busca de uma presa vulnerável. Ao atacarem o animal imobilizado, felinos-dentes-de-sabre (Smilodon fatalis) e lobos-terríveis (Aenocyon dirus) acabavam igualmente presos no mesmo ponto, seguidos por animais necrófagos que se aproximavam das carcaças expostas. Com o passar do tempo, microrganismos decompunham os tecidos moles, enquanto o próprio asfalto protegia ossos e dentes contra a deterioração e os misturava aos sedimentos, preservando esqueletos desarticulados de sucessivos episódios de captura.
A predominância de predadores nas escavações sustenta a hipótese científica denominada armadilha de carnívoros, mas o volume de ossos de caçadores acabou ofuscando por décadas a análise detalhada das presas vegetais e dos animais pastadores do local. Josh Cohen, pesquisador e autor principal de um estudo sobre a dieta de herbívoros de La Brea publicado na revista científica Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, afirmou que a ciência está apenas começando a investigar os herbívoros do local e que esses animais acabaram deixados em segundo plano porque de 70% a 80% dos espécimes são carnívoros, o oposto do que ocorre na maioria dos outros sítios paleontológicos.
Embora a desproporção entre predadores e presas seja um consenso nas coleções do museu, ainda não há confirmação direta no texto integral de um artigo específico de 2017 da revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology sobre a proporção exata de três carnívoros para cada grande herbívoro em número de indivíduos atribuída àquela publicação. A distinção metodológica busca separar a contagem total de fragmentos ósseos da estimativa real de animais mortos em cada evento.
Números e espécies registradas no acervo de La Brea
Além dos grandes predadores e bisões, as escavações no centro de Los Angeles revelaram fósseis de camelos (Camelops hesternus), cavalos (Equus occidentalis), antas, coiotes (Canis latrans), aves, répteis, insetos, sementes, fungos e microfósseis, sob os cuidados de cientistas como a paleobotânica e curadora assistente Regan Dunn e a paleontóloga e pesquisadora associada Mairin Balisi, que também atua como curadora do Alf Museum. Os registros quantitativos e institucionais do complexo reúnem os seguintes dados:
- Localização e estrutura: Hancock Park, em Los Angeles, Califórnia (Estados Unidos), onde funciona o George C. Page Museum, integrante dos Museus de História Natural do Condado de Los Angeles.
- Fósseis recuperados: mais de 1 milhão de ossos retirados dos depósitos de asfalto desde o início dos trabalhos em 1906.
- Lobo-terrível (Aenocyon dirus): cerca de 4.000 indivíduos preservados e recuperados no local.
- Felino-dentes-de-sabre (Smilodon fatalis): mais de 2.000 indivíduos identificados na coleção.
- Bisão-antigo (Bison antiquus): pelo menos 300 indivíduos catalogados, sendo o grande herbívoro mais comum do sítio, com alta presença de animais jovens.
- Abrangência temporal: de 50.000 a 60.000 anos de registro contínuo de vida pré-histórica.
Reclassificação genética em 2021 e extinção há 13 mil anos
Reconhecido pelo governo dos Estados Unidos em 1964 como Marco Natural Nacional (U.S. National Natural Landmark, título federal concedido a áreas de relevância geológica e ecológica), o sítio de Rancho La Brea tem fornecido material para revisões evolutivas e patológicas na década de 2020. Em 2021, um estudo genético baseado em DNA antigo reclassificou cientificamente o lobo-terrível, transferindo a espécie do gênero Canis (antes Canis dirus) para um gênero próprio, denominado Aenocyon dirus, ao comprovar que o animal integrava uma linhagem evolutiva distinta dos lobos-cinzentos modernos. Já entre 2023 e 10 de agosto de 2026, análises realizadas nos ossos e vértebras dos cerca de 4.000 lobos-terríveis e mais de 2.000 felinos-dentes-de-sabre do acervo identificaram índices elevados de doenças articulares, como a osteocondrose dissecante (uma falha na formação da cartilagem e do osso nas juntas), além de malformações congênitas na coluna vertebral, sinais que apontam para a ocorrência de endogamia o cruzamento entre indivíduos parentes conforme suas populações encolhiam rumo ao desaparecimento.
O colapso definitivo desses grandes mamíferos no sul da Califórnia ocorreu há cerca de 13.000 anos, mais especificamente por volta de 12.900 anos atrás, no final do Pleistoceno, período em que predadores de menor porte e maior capacidade de adaptação, como coiotes e pumas, conseguiram sobreviver até os dias atuais. Um estudo conduzido por pesquisadores do La Brea Tar Pits em parceria com a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), publicado na revista científica Science em 17 de agosto de 2023, demonstrou que o desaparecimento repentino da megafauna regional resultou da combinação entre aquecimento e seca climática, redução das populações de herbívoros e incêndios florestais severos iniciados pela presença humana.
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Os dados extraídos dos microfósseis, plantas e esqueletos do betume continuam sendo cruzados por equipes multidisciplinares em 2026 para modelar como ecossistemas reagem ao aquecimento global e à perda rápida de biodiversidade. A curadora associada Emily Lindsey declarou que o sítio está em uma posição única para responder a diversas questões de importância ambiental nos dias atuais, incluindo quais serão os impactos de longo prazo das mudanças climáticas.
