Cidades brasileiras operam sem planos contra desastres climáticos

Chuva, temporal, tempo, nublado

Chuva, temporal, tempo, nublado - viacheslav_petrusha//shutterstock.com

Pelo menos 30% dos municípios brasileiros funcionam sem qualquer plano de contingência para enfrentar desastres climáticos, como inundações, secas severas ou tempestades, segundo pesquisa coordenada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O estudo mostra ainda que 37% das cidades do país não possuem um sistema próprio de alerta para avisar os moradores sobre ocorrências extremas.

Os resultados foram divulgados nesta terça-feira (20) e fazem parte de um artigo publicado em 4 de setembro de 2026 no periódico científico International Journal of Disaster Risk Science. Para o sociólogo Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden e coordenador do estudo, o cenário afeta diretamente a segurança de quem vive nas áreas atingidas. “Os municípios precisam ter capacidade para implementar seus próprios sistemas de alerta usando as informações já disponíveis. São as administrações locais que sabem o que está acontecendo, conhecem os problemas dos bairros e deveriam ter contato com a população. Às vezes, as pessoas recebem um alerta emitido pelo estado para procurar um lugar seguro e não sabem qual é. Para ser efetivo, esse sistema tem de fazer sentido para as populações afetadas”, afirmou.

Metodologia do Cemaden e projeções para o El Niño 2026-2027

Para mapear a estrutura das prefeituras, os cientistas aplicaram um questionário nacional respondido em 2025 por 2.289 dos 5.570 municípios brasileiros, o equivalente a 41% do total. O trabalho utilizou a metodologia inédita Capacidade de Implementação de Sistemas Locais de Alerta Precoce (ICLEWS, na sigla em inglês), desenvolvida dentro do projeto Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos (COPE), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O modelo segue diretrizes da iniciativa global Early Warnings for All (Alertas Precoces para Todos, ou EW4All), criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2022 para proteger a população mundial com sistemas nacionais de alerta até o fim de 2027 e que conta com a adesão de 119 países (60% do total).

Foto: ciclone – dipilihtuhan04/Shutterstock.com

A ausência de planejamento local ocorre diante das projeções para o fenômeno climático El Niño 2026-2027, que indicam um aumento superior a 3 °C na temperatura do oceano Pacífico durante o período de pico. Essa elevação térmica tem potencial para provocar chuvas intensas na região Sul e secas extremas no Norte e no Nordeste, além de altas temperaturas em diversos estados. Mesmo com esse prognóstico, menos de 8% das cidades pesquisadas contam com planos de contingência para ondas de calor. Entre os municípios litorâneos avaliados, apenas 25% possuem planos específicos para erosão costeira, enquanto 61% mantêm coordenação intermunicipal.

Déficit de pessoal nas Defesas Civis e falta de mapas de risco

A Lei Nacional de Proteção e Defesa Civil, em vigor desde 2012, determina que cabe às prefeituras elaborar o mapeamento das zonas sujeitas a desastres, mas o levantamento constatou falhas na aplicação da norma e na estrutura de atendimento às comunidades.

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  • Mapeamento ausente: 25% das cidades pesquisadas não dispõem de mapas de risco, enquanto 57% afirmam utilizar o instrumento na gestão.
  • Planejamento urbano: apenas 14% dos municípios usam cartas geotécnicas de aptidão à urbanização, documentos que indicam as áreas adequadas para construção.
  • Equipes reduzidas: os municípios participantes somam pouco mais de 13,5 mil agentes de Defesa Civil, sendo que 22% dos órgãos têm apenas um profissional, 16% contam com dois integrantes e 35% têm de três a cinco funcionários.
  • Rotatividade e experiência: 25% dos agentes que responderam ao questionário têm menos de um ano de atuação na área.
  • Apoio e participação comunitária: quase 25% das prefeituras não adotam medidas de suporte às famílias em áreas de risco, e apenas 6,4% registram participação frequente dos moradores nas atividades de prevenção.

“Temos observado, em alguns casos, que as equipes são pequenas, às vezes com uma única pessoa, sem experiência e com alta rotatividade. E ainda com uma série de atribuições: precisa atualizar o mapa de risco, preparar os alertas, envolver a população e torcer para que ela participe. Infelizmente, o que ainda impera no Brasil é a cultura do improviso. Quando há uma emergência, um desastre, todo mundo se mobiliza. Mas essa mobilização não acontece antes para se preparar”, disse Marchezini.

Comunicação informal e histórico de 24,7 milhões de afetados

A pesquisa também identificou uma diferença entre a percepção dos gestores e os recursos oficiais disponíveis nas prefeituras. Embora 69% das administrações municipais classifiquem sua capacidade de emitir avisos aos moradores como alta ou média, somente 32% utilizam um sistema formal de alerta, o que indica o uso de grupos de mensagens, redes sociais ou rádio. O governo brasileiro disponibiliza a Interface de Divulgação de Alertas Públicos (Idap), plataforma oficial que permite às defesas civis estaduais e municipais cadastradas enviar notificações por SMS e TV por assinatura, e que passou por reformulações em 2026 para reforçar a segurança após sofrer um ataque hacker.

O impacto da falta de prevenção aparece nos números do Atlas Digital de Desastres no Brasil, que contabilizou cerca de 8,9 mil ocorrências no país entre 2024 e 2025, puxadas por 2,7 mil registros de estiagens ou secas e 2,4 mil de chuvas intensas. Nesse período de dois anos, os eventos climáticos atingiram pelo menos 24,7 milhões de pessoas em território nacional e deixaram mais de 1,5 milhão de moradores desalojados ou desabrigados. “Temos Defesas Civis precárias e população que não participa das ações. Isso é preocupante. Que lições temos aprendido com os desastres? Por isso, a importância de pensar na capacidade dos municípios de se prepararem”, declarou o coordenador do estudo.

Além de Marchezini e de Adriano Mota Ferreira, ambos do Cemaden, assinam o artigo os pesquisadores Paula Sayeko Souza Oda, Karolina Gameiro Cota Dias e Monique Ribeiro Polera Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), André Luiz Martins Cotting e Caroline Martins Coura, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Murilo Noli da Fonseca. Na próxima etapa do trabalho, a equipe vai separar os dados por região do país e porte populacional dos municípios para promover rodadas de trabalho com as prefeituras, ajudar na organização de bancos de dados locais e reaplicar a metodologia nos próximos anos para medir o avanço das ações de prevenção.

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol