Procrastinação vai além da preguiça: cientistas do Brasil criam novos testes para adultos

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Mulher deitada no sofá, notebook no chão, conceito de cansaço, procrastinação - fizkes/shutterstock.com Foto: Mulher deitada no sofá, notebook no chão, conceito de cansaço, procrastinação - fizkes/shutterstock.com

Pesquisadores do Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia (UFBA), no campus de Vitória da Conquista, adaptaram e validaram para o Brasil a General Procrastination Scale (GPS), escala científica voltada a medir a procrastinação na vida adulta. O trabalho contou com a parceria da SNDT University, localizada em Mumbai, na Índia, e avaliou as respostas de 421 adultos brasileiros em um artigo publicado no periódico científico Estudos de Psicologia (Campinas) em 16 de junho de 2025.

Intitulado “Psychometric properties for the General Procrastination Scale (GPS) Brazilian version”, o estudo foi conduzido pelo professor e primeiro autor Guilherme Chirinéa, pelo professor doutor e autor correspondente André Pereira Gonçalves e pelas pesquisadoras Villena Louise Meira Costa Lima, Ana Luísa Menezes Santos e Cecília Pires de Almeida, todos da UFBA, em coautoria com a pesquisadora de pós-graduação em psicologia Pragya Lodha, da SNDT University, criadora da versão original do instrumento em 2019. “Estes resultados indicam adequação da escala para mensuração da procrastinação em uma amostra brasileira, o que coloca esta escala como uma possibilidade de uso em pesquisas para mensuração deste construto”, afirmaram os seis autores no documento publicado.

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Como funciona a escala GPS adaptada pela UFBA

Criada originalmente em 2019 com 23 afirmações, a General Procrastination Scale investiga o hábito de adiar tarefas em diferentes áreas da vida adulta, incluindo obrigações acadêmicas, profissionais, médicas e cívicas. Cada item é respondido em uma escala Likert modelo de questionário que mede o grau de concordância ou frequência de cinco pontos, que vai de 1 (“Nunca”) a 5 (“Sempre”).

Na análise estatística e psicométrica voltada ao público brasileiro, a equipe testou a relação entre as perguntas e aplicou controles para evitar o viés de aquiescência, que é a tendência do participante de concordar automaticamente com enunciados distintos. Após essa etapa, os pesquisadores identificaram uma estrutura unifatorial, ou seja, uma dimensão estatística geral capaz de explicar o conjunto das respostas com consistência interna adequada.

A adaptação nacional resultou na exclusão de cinco afirmações que contribuíam pouco para a medição, consolidando uma versão brasileira com 18 itens. Embora o número exato de 18 itens finais e os 5 itens eliminados constem na seção de resultados completos do documento em PDF da pesquisa, os resumos indexados em páginas abertas de divulgação científica detalham apenas a estrutura original de 23 afirmações e a confirmação do modelo unifatorial.

Dados da publicação e perfil dos 421 voluntários da UFBA

A coleta de dados ocorreu pela internet, por meio de questionários de autorrelato divulgados em redes sociais. Para participar, o voluntário precisava ser adulto e ter concluído ao menos o ensino fundamental. Os dados editoriais do artigo e a composição demográfica e clínica do grupo avaliado pela UFBA registram os seguintes números:

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  • Submissão e aprovação do artigo: manuscrito recebido pela revista Estudos de Psicologia (Campinas) em 20 de maio de 2024, aprovado em 23 de agosto de 2024 e publicado na coleção SciELO em 16 de junho de 2025 (volume 42, código e230051).
  • Faixa etária da amostra: 421 adultos brasileiros de 18 a 64 anos, com média de idade de 29,7 anos e desvio padrão de 11,1 anos.
  • Perfil demográfico: 64,3% de mulheres, 77,1% de moradores da região Nordeste, 67,9% de solteiros, 44,1% de estudantes universitários e 43,2% de pessoas que se declararam brancas.
  • Histórico de saúde mental nos seis meses anteriores: 37,5% fizeram acompanhamento psicológico, 22,8% utilizaram medicação psiquiátrica e 18,6% passaram por tratamento psiquiátrico.
  • Diagnóstico prévio: 23,9% dos participantes informaram possuir diagnóstico de algum transtorno mental.
Mulher deitada, cansaço, menopausa - triocean / shutterstock.com
Mulher deitada, cansaço – triocean / shutterstock.com

Correlação da procrastinação com ansiedade e trabalho

Para verificar como o adiamento de tarefas se comporta diante de outros aspectos emocionais e profissionais, a equipe da UFBA aplicou ferramentas complementares junto ao questionário principal. Entre elas estavam a Generalized Anxiety Disorder (GAD-7), usada para rastrear sintomas de transtorno de ansiedade generalizada, e a Utrecht Work Engagement Scale (UWES-9), que avalia o nível de dedicação e envolvimento no ambiente profissional.

O cruzamento das respostas confirmou as correlações esperadas pela literatura científica: índices mais altos de procrastinação apareceram associados a maiores relatos de sintomas de ansiedade e a um menor engajamento no trabalho, além de apresentarem relações mais fracas com a satisfação profissional e correspondência com medidas de adiamento acadêmico. Os autores destacam que o levantamento transversal não estabelece relação de causa e efeito, não sendo possível afirmar se a procrastinação provocou o desconforto emocional ou se a ansiedade prévia levou ao adiamento das obrigações.

Estudos de 2013 e 2023 sobre regulação emocional e saúde

A investigação da psicologia sobre o tema diferencia o adiamento recorrente de uma simples pausa planejada ou de falta de vontade. Na definição científica, procrastinar consiste em postergar uma tarefa necessária mesmo sabendo que o atraso trará consequências negativas. Em uma revisão publicada em 2013 no periódico Social and Personality Psychology Compass, os pesquisadores Fuschia Sirois, professora de psicologia social e da saúde na Universidade de Durham, e Timothy Pychyl, pesquisador em psicologia, classificaram esse hábito como uma falha de autorregulação ligada ao controle das emoções. Segundo os dois cientistas, o indivíduo evita uma atividade aversiva buscando um alívio imediato para o humor negativo mecanismo chamado de reparação de humor de curto prazo, em tradução livre, transferindo o problema para o futuro.

Dez anos depois, em janeiro de 2023, uma pesquisa longitudinal publicada na revista médica JAMA Network Open (volume 6, número 1, código e2249346) investigou os reflexos desse comportamento no corpo e na mente ao longo do tempo. Conduzido pelos pesquisadores Alexander Rozental, Fred Johansson (da Universidade Sophiahemmet, em Estocolmo), Klara Edlund e Eva Skillgate, o estudo acompanhou 3.525 estudantes de oito universidades da Suécia (sendo 63% mulheres e idade média de 24,8 anos) durante nove meses, período concluído por 2.587 participantes.

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Ao final do acompanhamento na Suécia, os cientistas constataram que o aumento de 1 desvio padrão nos níveis de procrastinação estava estatisticamente associado, nove meses mais tarde, a índices mais elevados de sintomas de depressão (coeficiente beta de 0,13), ansiedade (coeficiente beta de 0,08) e estresse. O grupo com maior tendência a adiar tarefas também registrou pior qualidade de sono, inatividade física, dores incapacitantes nos membros superiores, solidão e dificuldades financeiras.

Limitações da escala brasileira e próximos passos na ciência

Os pesquisadores da UFBA ressaltam que a General Procrastination Scale validada em Vitória da Conquista funciona exclusivamente como um instrumento de pesquisa científica para comparar respostas em grupo, e não como um teste de diagnóstico clínico individual. Como a coleta foi feita por conveniência pela internet e depende da memória e da percepção de cada voluntário sobre a própria rotina, os dados refletem apenas os 421 participantes avaliados, sem representar a média da população brasileira.

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Com a validação estatística concluída e publicada, o próximo passo indicado pelos autores é a aplicação da versão brasileira de 18 itens em novas pesquisas psicológicas com amostras mais diversas e de outras regiões do país, permitindo separar episódios ocasionais de atraso de padrões persistentes que prejudicam o trabalho e a saúde.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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