Pesquisas sugerem que bebês já são conscientes ao nascer

Bebê Maternidade - Rawpixel.com - shutterstock.comBebê Maternidade - Rawpixel.com - shutterstock.com

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Bebês provavelmente têm algum tipo de consciência já ao nascer, e pesquisadores não descartam que ela comece ainda dentro do útero. A conclusão está em uma revisão publicada em 2023 na Trends in Cognitive Sciences, assinada por pesquisadores das universidades Monash, de Tübingen, de Minnesota e do Trinity College Dublin. Os autores não dão o assunto por encerrado. Eles afirmam que as evidências atuais favorecem o início precoce da consciência, e lembram que a pergunta tem implicações clínicas, éticas e possivelmente jurídicas.

Até os anos 1980, muitos recém-nascidos eram operados sem anestesia

  • Durante muito tempo, presumiu-se que recém-nascidos não eram conscientes, o que orientou o cuidado com bebês por gerações.
  • Até a década de 1980, muitos passavam por cirurgias sem anestesia, prática hoje impensável.
  • Um estudo internacional com bebês prematuros encontrou respostas cerebrais à dor muito parecidas com as de adultos, em áreas ligadas à experiência consciente.

Recém-nascidos a termo já têm redes cerebrais ligadas à consciência

  • Em adultos, a coordenação entre regiões do cérebro costuma desaparecer durante o sono profundo e sob anestesia.
  • Em 2022, Huiqing Hu, Rhodri Cusack e Lorina Naci analisaram exames de ressonância de bebês do Developing Human Connectome Project, um banco de dados aberto com centenas de recém-nascidos.
  • As redes de modo padrão e frontoparietais já estavam presentes em bebês nascidos a termo, com organização diferente da adulta.
  • Nos prematuros, essas redes são pouco desenvolvidas antes da idade equivalente ao termo, e o parto antecipado parece interferir no início das estruturas ligadas à consciência.

Consciência pode começar antes do parto, mas o debate continua

Em uma conferência sobre consciência, mais de três quartos dos pesquisados viam os bebês como conscientes, ou provavelmente conscientes.

Joel Frohlich e outro pesquisador estudam fetos com magnetoencefalografia (MEG), que capta campos magnéticos do cérebro do feto, bilhões de vezes mais fracos que o da Terra.

Uma revisão de 2009 indica que as conexões entre tálamo e córtex ainda não estão totalmente estabelecidas no fim da gestação.

Os autores da revisão de 2023 avaliam que a consciência pode começar algumas semanas antes do parto, mas afirmar isso com segurança seria prematuro.

Uma corrente defende início precoce; outra, início só depois do primeiro aniversário.

Nos prematuros, o quadro muda. Antes da idade equivalente ao termo, essas redes são pouco desenvolvidas e a relação entre elas ainda não se formou. O parto antes do tempo parece interferir no início das estruturas ligadas à consciência, mas o estudo mede a organização do cérebro e não diz o que o bebê sente.

Cérebro fetal entra no foco dos estudos sobre consciência

Joel Frohlich e outro pesquisador estudam fetos ainda no útero. Voluntárias grávidas encostam a barriga em um equipamento de magnetoencefalografia (MEG) adaptado, capaz de captar campos magnéticos produzidos pelo cérebro do feto. Esses sinais são bilhões de vezes mais fracos que o campo magnético da Terra que orienta uma bússola.

Ainda assim, os cientistas concordam em um ponto: a consciência não surge antes que o cérebro fetal amadureça o bastante para receber sinais dos sentidos e integrá-los em uma experiência única. Uma revisão de 2009 publicada na Pediatric Research mostra que as conexões entre tálamo e córtex ainda não estão totalmente estabelecidas nesse período. Para os autores da revisão de 2023, a consciência pode começar algumas semanas antes do parto, mas afirmar isso com segurança seria prematuro.

Parte dos pesquisadores ainda defende início tardio da consciência

Há duas correntes. Uma defende o início precoce, no nascimento ou logo depois. A outra sustenta que a consciência depende de capacidades cognitivas que dificilmente existem antes do primeiro aniversário. Em uma pesquisa feita durante uma conferência anual sobre consciência, mais de três quartos dos entrevistados viam os bebês como conscientes, ou provavelmente conscientes. Uma pequena fração ainda duvida.

A filósofa Claudia Passos-Ferreira vê na resposta cerebral de recém-nascidos a combinações de sons um sinal de funcionamento muito parecido com o do adulto. Ela, porém, não considera o resultado conclusivo, e alguns experimentos não encontraram certos marcadores de consciência esperados em bebês.

Pesquisadores da Universidade de Birmingham propõem outra estratégia: agrupar vários marcadores em vez de testá-los isoladamente. Eles lembram que apontar para um objeto a fim de chamar a atenção de alguém forma um conjunto de marcadores à parte. Frohlich diz que, se muitos marcadores aparecerem ao mesmo tempo, o sinal de que a consciência começa ali fica forte.

Bebês podem perceber o mundo de um jeito diferente do adulto

A revisão mostra que a audição de bebês amadurece antes da visão. Eles percebem menos coisas ao mesmo tempo que os adultos e demoram mais para entender o que está à frente, mas processam com facilidade informações mais variadas. Conseguem, por exemplo, distinguir diferenças entre vogais de uma língua estrangeira, algo que muitos adultos não percebem.

Naci especula que os bebês possam ter uma experiência diferente da nossa, mais aberta ao mundo e capaz de perceber o ambiente de maneiras mais ricas e diversas. Essa ideia contraria a visão de que a consciência é uma escala linear entre dormir e acordar. Para a equipe de Birmingham, o objetivo é usar esses grupos de marcadores para descobrir quando a consciência surge.

Jeronimo Santos: Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing