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Crise no INSS: 1,8 milhão de pedidos na fila expõem perícias fake e lentidão

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Fotografia Mix Vale

A espera por benefícios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) atingiu níveis alarmantes, com 1,8 milhão de pedidos acumulados na fila, dos quais metade aguarda perícias médicas. Esse cenário de crise, que afeta milhões de brasileiros, ganhou contornos ainda mais graves com a denúncia da Associação Nacional dos Médicos Peritos (ANMP) de que o governo estaria recorrendo a “perícias fake” para maquiar as estatísticas de pendências. A prática, segundo a entidade, envolve cancelamentos automáticos de agendamentos no sistema, sem resolução efetiva para os segurados. Um caso emblemático ocorreu em Sumaré, São Paulo, onde uma mulher de 52 anos, vítima de um AVC e sem mobilidade, foi levada de ambulância a uma agência do INSS após mais de um ano tentando a perícia, apenas para descobrir que não havia médico disponível. Enquanto o governo e a ANMP trocam acusações, a população enfrenta a frustração de remarcações mal comunicadas e a falta de perspectiva para receber benefícios essenciais. O Ministério da Previdência Social, por sua vez, classifica o movimento dos peritos como um “lockout” e ameaça suspender salários, intensificando o embate que paralisa o sistema.

A fila de espera reflete um problema crônico agravado por greves, escassez de médicos peritos e desentendimentos institucionais. Dados extraoficiais apontam que, dos 3.100 peritos ativos, 650 estão afastados por questões internas e 450 por licenças ou férias, enquanto a produtividade mensal de 250 mil perícias não dá conta do estoque de 900 mil avaliações pendentes. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou que 70% das agendas sejam mantidas durante greves, mas a ANMP alega que o governo desmarca 100% dos agendamentos em algumas situações, descumprindo a ordem judicial. A promessa de um concurso para 500 novas vagas de peritos e a retomada do Atestmed, que permite concessões por análise documental, são as apostas do governo para aliviar a crise, mas as soluções ainda esbarram em críticas e atrasos.

Embora o agendamento pelo Meu INSS seja rápido, a execução das perícias é o gargalo. A falta de transparência também preocupa: o Boletim Estatístico da Previdência Social, que deveria trazer dados mensais, está congelado desde novembro de 2024, dificultando o acompanhamento oficial da situação. Para os segurados, a espera é mais do que um transtorno – é uma questão de sobrevivência, especialmente para quem depende do benefício por incapacidade para custear despesas básicas.

Embate entre ANMP e governo agrava a crise

O confronto entre a ANMP e o Ministério da Previdência Social transformou a crise do INSS em um cabo de guerra institucional. A associação acusa o governo de usar “perícias fake” como tática para reduzir artificialmente o estoque de pendências, desmarcando agendamentos em massa e remarcando-os sem aviso prévio adequado por SMS ou ligação. Francisco Cardoso, vice-presidente da ANMP, afirma que desde janeiro o governo cancela 100% das agendas em algumas ocasiões, forçando os peritos a cederem na greve sob ameaça de corte total do ponto. “É um truque contábil para influenciar as estatísticas”, diz ele, apontando que a medida não resolve o problema dos segurados.

Por outro lado, o Ministério da Previdência rebate, acusando os peritos de boicotarem o atendimento em um movimento que chama de “lockout”. Adroaldo Portal, secretário de Previdência Social, estima que apenas 300 dos 3.100 peritos estejam em greve, contra os mil apontados pela ANMP, e defende que o sistema está funcionando dentro do possível. Um ato normativo foi editado para pressionar os grevistas, estipulando a suspensão de salários caso não retomem o trabalho, mas a medida só intensificou o conflito, que já acumula 50 processos judiciais no STJ entre as partes.

A produtividade dos peritos, reduzida em 40% após um acordo que encerrou a greve de 2022, é outro ponto de atrito. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) revelou que os médicos cumprem, em média, menos de 50% da jornada prevista em lei, o que explica a capacidade mensal de apenas 250 mil perícias frente a uma demanda quase quatro vezes maior. Enquanto o impasse persiste, a população segue refém da lentidão e da falta de diálogo entre os envolvidos.

Histórias de desespero ilustram o drama

Casos como o de Sumaré expõem a face humana da crise no INSS. A mulher de 52 anos, que sofreu um AVC e perdeu a mobilidade, esperava há mais de um ano pela perícia para garantir o benefício por incapacidade. A família, sem condições de arcar com os custos sozinha, contratou uma ambulância para levá-la à agência, mas a ausência de um perito no local transformou o esforço em frustração. Situações semelhantes se repetem pelo país, com segurados enfrentando cancelamentos inesperados e longas esperas, muitas vezes sem comunicação eficiente por parte do INSS.

A promessa de aviso por SMS ou ligação nem sempre se cumpre, e o atendimento pelo telefone 135 é limitado, deixando muitos desamparados. Em cidades menores, a escassez de peritos é ainda mais crítica, forçando deslocamentos longos e custosos para quem já está em situação de vulnerabilidade. Para quem depende do benefício para comprar remédios ou pagar contas, a demora pode significar meses sem renda, agravando quadros de saúde e aumentando o desespero familiar.

A lentidão não é novidade, mas a combinação de greves, denúncias de “perícias fake” e falta de pessoal elevou o problema a um patamar insustentável. Enquanto o governo busca soluções, os segurados mais vulneráveis – como idosos, doentes crônicos e vítimas de acidentes – arcam com o maior prejuízo, presos em um sistema que não consegue atender à demanda.

Medidas do governo para enfrentar o caos

Diante da crise, o governo aposta em duas frentes principais: o Atestmed e um novo concurso público. Introduzido em 2020 como medida emergencial durante a pandemia e retomado em 2023, o Atestmed permite a concessão de benefícios por incapacidade temporária com base em análise documental, sem perícia presencial. A iniciativa, que já reduziu a fila em 40% em 2024 segundo dados oficiais, é defendida como uma forma de agilizar processos, mas enfrenta resistência da ANMP, que aponta fragilidades técnicas e éticas, como o risco de fraudes e a exposição de dados médicos a servidores sem formação adequada.

A outra aposta é o concurso para 500 vagas de médicos peritos, anunciado como solução para o déficit de pessoal. Com 3.100 peritos ativos e 1.100 afastados ou em licenças, o reforço é urgente, mas a ausência de uma data definida para o certame mantém os segurados sem perspectiva de alívio imediato. Enquanto isso, o estoque de 900 mil perícias pendentes segue crescendo, e a capacidade mensal de 250 mil atendimentos não acompanha o ritmo.

A judicialização também marca o cenário. O STJ exigiu a manutenção de 70% das agendas durante a greve, mas a implementação é irregular, com relatos de cancelamentos totais em várias regiões. A pressão do governo sobre os peritos, incluindo ameaças de corte salarial, busca forçar a retomada do atendimento, mas até agora não conseguiu destravar o sistema.

Cronologia da crise nas perícias do INSS

A situação das perícias médicas no INSS é resultado de anos de problemas estruturais e decisões que impactaram a capacidade de atendimento. Veja os principais marcos recentes:

  • 2020: Lançamento do Atestmed como medida emergencial na pandemia, permitindo análise documental.
  • 2022: Greve dos peritos termina com acordo que reduz em 40% a produtividade diária.
  • 2023: Retomada do Atestmed para acelerar concessões, mas com críticas da ANMP.
  • Janeiro de 2025: ANMP denuncia “perícias fake” e remarcações em massa pelo governo.
  • Março de 2025: Fila atinge 1,8 milhão de pedidos, com 900 mil aguardando perícia.

Esse histórico mostra como a crise se aprofundou, com soluções paliativas que não atacam a raiz do problema: a falta de médicos e a desorganização interna.

Por que a fila não diminui?

A incapacidade do INSS de zerar o estoque de perícias tem raízes múltiplas. A produtividade dos peritos, limitada a 250 mil atendimentos mensais após o acordo de 2022, é insuficiente para os 900 mil pedidos pendentes, criando um déficit mensal que só aumenta. A auditoria do TCU apontou que os médicos trabalham menos de 50% da jornada prevista, uma herança do acordo que priorizou o fim da greve em vez de reforçar o atendimento.

Além disso, a falta de 1.100 peritos – entre afastados e licenciados – sobrecarrega os 3.100 ativos, enquanto a greve, que envolve entre 300 e mil profissionais dependendo da estimativa, paralisa ainda mais o sistema. A ANMP alega que os cancelamentos em massa, chamados de “perícias fake”, são uma tentativa do governo de inflar artificialmente os números de atendimentos resolvidos, mas na prática apenas adiam o problema, já que os agendamentos voltam à fila.

A transparência também é um entrave. O Boletim Estatístico da Previdência Social, paralisado desde novembro de 2024, impede uma visão clara da evolução da crise, e os dados extraoficiais de 1,8 milhão de pedidos na fila são a única referência disponível. Sem coordenação entre governo e peritos, a solução parece distante.

Impacto real nos segurados

Para quem depende do INSS, a lentidão é mais do que um atraso burocrático – é uma questão de sobrevivência. A espera por benefícios por incapacidade, como auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez, deixa milhões sem renda, especialmente os mais vulneráveis. O caso de Sumaré, onde uma família pagou por uma ambulância apenas para encontrar uma agência sem perito, é um exemplo cruel dessa realidade.

Em muitas situações, os segurados não recebem aviso de remarcações, enfrentando deslocamentos desnecessários e custos extras. O telefone 135, principal canal de atendimento, tem capacidade limitada, e o Meu INSS, embora ágil para agendamentos, não resolve a falta de médicos. A judicialização cresce como alternativa, mas sobrecarrega o Judiciário e não atende a todos.

A demora afeta especialmente quem precisa de remédios ou cuidados médicos contínuos. Sem o benefício, muitos ficam à mercê de ajuda familiar ou endividamento, enquanto a incerteza sobre quando – ou se – a perícia ocorrerá agrava o sofrimento físico e emocional.

Dicas para enfrentar a espera no INSS

Enquanto a crise persiste, os segurados podem adotar medidas para minimizar transtornos. Confira algumas orientações práticas:

  • Acompanhe o agendamento: Verifique regularmente o status no Meu INSS para evitar surpresas com cancelamentos.
  • Use o Atestmed: Se possível, opte pela análise documental para agilizar o processo, mas garanta que os documentos estejam completos.
  • Registre tudo: Guarde comprovantes de agendamento e tentativas de contato com o INSS, úteis em caso de ações judiciais.
  • Ligue no 135: Persista no atendimento telefônico para confirmar datas e remarcações.

Essas ações não eliminam a espera, mas ajudam a lidar com a desorganização atual.

Um futuro incerto para as perícias

Resolver a crise do INSS exige mais do que medidas emergenciais. O concurso para 500 peritos é um passo, mas sua demora em sair do papel mantém a incerteza. O Atestmed, embora tenha reduzido a fila em 40% em 2024, é visto como paliativo e enfrenta críticas por sua fragilidade técnica. A tensão entre ANMP e governo, com 50 processos no STJ, dificulta uma solução conjunta, enquanto propostas como repor salários dos grevistas em troca de liquidar as pendências em um ano ainda estão no campo das negociações.

Para os 1,8 milhão de segurados na fila, o impasse significa meses – ou até anos – de espera. A produtividade limitada, os cancelamentos denunciados como “perícias fake” e a falta de médicos formam um ciclo vicioso que o governo tenta quebrar, mas sem sucesso até agora. Enquanto isso, histórias como a de Sumaré seguem se multiplicando, evidenciando o custo humano de um sistema em colapso.

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