Portugal investe em cápsulas reutilizáveis e almeja liderança na corrida espacial europeia

Portugal pretende consolidar sua presença na indústria espacial europeia através de investimentos em tecnologia de cápsulas reutilizáveis e infraestrutura de lançamento nos Açores. O país abriga cerca de 80 empresas que geraram 200 milhões de euros em receitas no setor espacial no ano passado, com aproximadamente 2 mil profissionais altamente qualificados atuando na área.
O objetivo ambicioso envolve transformar a pacata ilha de Santa Maria, no arquipélago dos Açores, em um porto espacial europeu estratégico. A infraestrutura em construção funcionará como complemento ao porto espacial europeu em Kourou, na Guiana Francesa, oferecendo alternativa economicamente viável para o lançamento de foguetes menores com satélites menores dentro da União Europeia.
Base de lançamento estratégica nos Açores
A nave de carga europeia Space Rider está prevista para aterrissar em Santa Maria em 2028, utilizando paraquedas gigantes ao lado de uma antiga pista construída pelos americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Um foguete lançará um satélite sul-coreano em órbita a partir dali em 2030, conforme calendário estabelecido pelas autoridades portuguesas.
A localização no meio do Atlântico oferece vantagem significativa para espaçonaves reutilizáveis que poderão aterrissar em área desabitada. Quando concluído, o porto espacial deverá empregar 35 pessoas, integrando recursos locais e fortalecendo a economia da ilha.
Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa fundada em 2019, destaca que Portugal modernizou-se significativamente nos últimos 20 anos. “Nossas universidades formam engenheiros excepcionais. Criamos capital humano que podemos desenvolver”, afirma. A infraestrutura relativamente simples será mais econômica do que a principal concorrente americana, possibilitando até o retorno de jovens que deixaram a região.
Primeiro pouso na água em território europeu
O primeiro pouso na água nos Açores está previsto para o segundo semestre de 2026 pela cápsula de transporte Phoenix 2.1, da empresa alemã Atmos Space Cargo. Autoridades portuguesas aprovaram a operação, marcando o primeiro pouso em território da União Europeia para esse tipo de embarcação reutilizável.
Marta Oliveira, cofundadora da Atmos Space Cargo, explica o modelo de negócio. O objetivo é lançar satélites ao espaço de forma econômica através de cápsulas espaciais reutilizáveis, com o pouso previsto no Oceano Atlântico próximo a Santa Maria. A empresa está em negociações com companhias europeias além da americana SpaceX para operações de lançamento.
O porto espacial da Atlantic Spaceport Consortium facilita a logística e coordena o contato com autoridades locais, conforme Bruno Carvalho, operador da infraestrutura. A localização estratégica dentro da União Europeia apresenta importância vital para as operações de defesa e comerciais do continente.
Três centros de fabricação de satélites em Portugal
Faltam apenas os próprios satélites para completar a cadeia. Três centros estão em desenvolvimento para fabricação de satélites em Portugal. O primeiro está sendo construído pelo consórcio CEiiA no Porto, no norte do país. O segundo é operado pela multinacional Open Cosmos na cidade universitária de Coimbra, região central. O terceiro funciona em Lisboa, trabalhando principalmente em cooperação com as Forças Armadas portuguesas.
Os satélites produzidos serão menores e destinados a aplicações comerciais, militares e mistas. As aplicações incluem:
- Comunicações e transmissão de dados
- Observação da Terra e dos oceanos
- Monitoramento ambiental
- Combate a incêndios florestais
- Defesa e vigilância
Ivo Vieira, da AED Cluster Portugal, associação da indústria espacial, nota que várias antenas de comunicação por satélite já operam em Santa Maria. A infraestrutura existente facilita a integração de novos serviços espaciais na região.
Satélites pequenos com alta tecnologia
O consórcio CEiiA, que atua também nos setores automotivo e aeroespacial, é um dos principais atores na fabricação de satélites de alta resolução. André Dias, responsável pela divisão de Downstream, afirma que entraram no setor espacial em 2018 com objetivo ambicioso de construir indústria robusta.
Atualmente, a CEiiA constrói quatro satélites civis por ano, com peso de até 500 quilos cada. A demanda está em constante crescimento, estimulando expansão da capacidade produtiva. Está previsto novo centro no norte de Portugal, próximo à cidade de Guimarães, em parceria com a universidade local.
“Queremos quadruplicar ou quintuplicar nossa capacidade de produção”, explica Dias. Com o aumento da capacidade, Portugal poderá atrair contratos internacionais para a fabricação de satélites especializado. Os satélites produzidos custam entre 20 milhões e 30 milhões de euros, contrastando com os grandes satélites que podem custar até 500 milhões de euros.
A estratégia portuguesa representa descentralização da indústria espacial europeia. Enquanto grandes potências como Alemanha e França dominavam o setor, países menores como Portugal estão especializando-se em segmentos específicos. Trata-se de democratização dos voos espaciais, permitindo participação mais ampla de nações na exploração do espaço.
Metas ambiciosas até 2030
Os planos da Agência Espacial Portuguesa estendem-se até 2030 com objetivos audaciosos. Ricardo Conde projeta que Portugal terá 30 satélites no espaço até essa data, alguns em cooperação com a Espanha. O país está atraindo parceiros internacionais para colaborações e concentrando-se em iniciativas europeias de defesa e comerciais.
O setor militar ganha importância crescente na Europa, impulsionando investimentos em satélites de vigilância e comunicação. Portugal posiciona-se estrategicamente para participar dessa transformação, fornecendo tecnologia e infraestrutura essencial para operações de defesa continental.
A combinação de engenheiros qualificados, infraestrutura em desenvolvimento e localização geográfica estratégica posiciona Portugal como ator relevante na nova corrida espacial europeia nos próximos anos.



