Crescimento de ataques de ursos em cidades japonesas exige novas estratégias de controle e convivência
Moradores do Japão tradicionalmente mantinham cautela com ursos ao frequentar áreas montanhosas. Contudo, nos dias atuais, o risco de encontrar esses animais se estende até as ruas urbanas e as entradas de casas. Avistamentos e incidentes estão em ascensão, e especialistas alertam para a necessidade de uma estratégia mais assertiva e proativa.
Recentemente, na região central de Utsunomiya, ao norte de Tóquio, diversos moradores presenciaram um urso nadando, escalando cercas e perambulando pela cidade. Em consequência, escolas primárias e secundárias da área permaneceram fechadas por três dias como medida de segurança.
O caso de Utsunomiya representa apenas um exemplo do crescente problema. Avistamentos se multiplicaram em várias localidades, com desfechos muitas vezes trágicos. Dados compilados pela NHK revelam que, entre 1º de abril e 11 de junho, pelo menos 27 indivíduos foram atacados por ursos em nove prefeituras. O Ministério do Meio Ambiente confirmou quatro óbitos decorrentes desses ataques.
Especialistas apontam que a causa do problema reside em múltiplos fatores, como o rápido declínio demográfico do Japão. À medida que as comunidades rurais nas regiões montanhosas se esvaziam, uma quantidade maior de terras permanece sem gestão humana, um cenário que os ursos interpretam como uma oportunidade para expandir seu habitat e buscar recursos.
Além disso, os especialistas observam uma diminuição do temor dos ursos em relação aos seres humanos. Eles estão aprendendo que áreas urbanas podem oferecer fartas fontes de alimento, o que os atrai para mais perto das habitações.
A temporada de acasalamento, que geralmente começa no início do verão, também intensifica a atividade dos ursos. O Professor Sato Yoshikazu, ecologista especialista em ursos da Rakuno Gakuen University, explica que “machos adultos percorrem grandes distâncias em busca de fêmeas, enquanto as mães com filhotes procuram evitá-los”, o que pode elevar o número de avistamentos em regiões menos habituais.
Pesquisadores indicam que os ursos utilizam florestas ribeirinhas e cursos d’água como rotas para adentrar as zonas urbanas. Em alguns casos, esses animais chegam até mesmo ao coração das cidades, surpreendendo os moradores.
O governo japonês reagiu no ano passado, flexibilizando as regras para a caça de animais selvagens, o que inclui ursos em regiões habitadas, buscando um controle mais eficiente.
Contudo, o Professor Sato sugere que é crucial abordar a raiz do problema de forma mais preventiva. Para ele, “cidades e vilas precisam desenvolver maior resistência às incursões de ursos”, reforçando a necessidade de medidas de longo prazo.
Entre as propostas de especialistas para aumentar essa resistência, destacam-se a remoção de vegetação ribeirinha e de sub-bosques que servem de corredor para os animais, além da instalação de barreiras físicas, como cercas elétricas.
As autoridades reconhecem a necessidade de ações adicionais para o gerenciamento do problema. Em março, foi elaborado um plano de trabalho com validade até o ano fiscal de 2030, focado em medidas para manter, de maneira mais eficaz, ursos e humanos em seus respectivos espaços.
Para isso, será preciso obter um censo mais preciso das populações de ursos no Japão. Adicionalmente, o governo terá de garantir a disponibilidade de mais pessoal qualificado para a captura e o controle desses animais, que exige treinamento e equipamentos específicos.
É evidente que a resolução deste desafio complexo não será imediata. A solução exigirá planejamento cuidadoso e fundamentado em evidências científicas robustas para garantir a segurança da população e a convivência harmoniosa.








