Estudo detecta vírus antigo da varíola em livros medievais

Pesquisadores identificaram fragmentos genéticos do vírus da varíola ovina preservados nas páginas de couro de livros medievais durante uma investigação publicada no periódico científico Science Advances. O estudo analisou documentos históricos e reconstruiu 21 genomas completos do agente infeccioso a partir do material biológico presente nos pergaminhos fabricados com peles de animais.
O microrganismo atingia rebanhos europeus.
A análise técnica revelou que a linhagem viral acompanhou criações agrícolas durante séculos e ampliou a linha temporal da enfermidade. Os cientistas recuaram a trajetória biológica dessa ameaça para 3.700 anos atrás, período anterior aos primeiros registros escritos sobre a patologia. Os dados confirmam a presença contínua do vírus entre comunidades pastoris do continente.
O material examinado pertence a coleções britânicas renomadas como os Evangelhos de York e o Corpus Glossary. O couro processado reteve o DNA original dos animais abatidos e conservou as partículas virais que circulavam nos rebanhos no momento do abate.
Documentos históricos serviram de base para a extração do vírus
O processo de fabricação dos pergaminhos utilizava pele de carneiro limpa e esticada para receber os textos religiosos e acadêmicos da Idade Média. Essa técnica artesanal secava os tecidos sem cozimento prévio, o que garantiu a fixação das moléculas celulares nas folhas dos volumes encadernados. A equipe recolheu pequenas raspagens superficiais dos livros sem danificar a integridade das encadernações raras mantidas em arquivos protegidos.
O método preservou o código genético.
Os testes laboratoriais mapearam sequências de nucleotídeos em diferentes seções dos manuscritos e isolaram os 21 genomas do vírus da varíola ovina com alta precisão técnica. A leitura comparativa com amostras contemporâneas demonstrou como o genoma acumulou mutações estruturais ao longo dos séculos de transmissão ativa entre rebanhos produtores de carne e lã.
Obras analisadas guardam registros biológicos raros
- Os Evangelhos de York reúnem textos sagrados escritos sobre folhas de pele animal que abrigavam linhagens antigas do patógeno.
- O Corpus Glossary serviu como dicionário de termos latinos e preservou frações genômicas virais em suas margens encadernadas.
- Outros documentos ingleses completaram a base amostral que totalizou 21 genomas sequenciados integralmente pelo grupo de pesquisadores.
Os pergaminhos funcionam como depósitos de informação biológica que ultrapassam o conteúdo textual redigido pelos monges copistas. As amostras analisadas no projeto vieram exclusivamente de arquivos históricos mantidos em território inglês sob condições controladas de temperatura e umidade relativa do ar. Os cientistas processaram as raspagens em salas limpas dedicadas a materiais antigos para impedir contaminações externas durante o procedimento de extração molecular.
A varíola ovina causava mortalidade severa entre rebanhos nas propriedades rurais da época medieval. Quando uma ovelha infectada era sacrificada para virar suporte de escrita, o vírus entrava na estrutura do livro sem que os escribas soubessem da contaminação.
Perigo de contaminação atual é descartado pela pesquisa
O material não transmite doenças.
A equipe científica informou na Science Advances que os restos virais encontrados nas folhas medievais consistem em fragmentos degradados de material genético, incapazes de iniciar replicação celular. O processo de dessecação prolongada, a passagem dos séculos e o desgaste natural dos manuscritos inviabilizaram qualquer atividade biológica infecciosa nas páginas encadernadas.
Os pesquisadores confirmaram que o manuseio direto desses manuscritos históricos em bibliotecas ou arquivos não gera nenhum perigo de contaminação para profissionais e visitantes, visto que as partículas virais sofreram degradação química completa ao longo dos séculos e perderam a capacidade biológica de provocar infecções em humanos ou em rebanhos atuais. O patógeno perdeu a viabilidade patogênica devido à quebra espontânea das pontes moleculares que sustentam as estruturas ativas de transmissão. Não existem partículas ativas dentro dos volumes analisados. O trabalho acadêmico focou apenas na reconstrução filogenética e descartou qualquer chance de reativação do agente.
Reconstrução amplia linha do tempo do patógeno
Os 21 genomas recuperados permitiram calcular a taxa evolutiva do vírus da varíola ovina e determinar sua raiz temporal ancestral. Os modelos computacionais indicam que o agente infeccioso já infectava animais domésticos há 3.700 anos, durante a Idade do Bronze europeia.
A descoberta reescreve a cronologia.
As informações obtidas a partir dos Evangelhos de York e do Corpus Glossary fornecem um panorama sobre a velocidade de transformação dos poxvírus em animais de corte. Os cientistas observaram que certas variantes antigas continham genes específicos que sumiram das linhagens modernas do microrganismo. Essa perda genética ilustra a adaptação contínua do invasor diante da imunidade desenvolvida pelos animais ao longo de sucessivas gerações de pastoreio.
O rastreamento genético em peças antigas abre uma frente de apuração para doenças infecciosas sem exigir novas escavações em sítios arqueológicos. O registro contido no couro documenta a circulação de agentes patogênicos que a literatura medieval não descreveu.
A análise química dos resíduos identificou traços de cálcio utilizados no processo medieval de curtimento das peles animais.
