Ídolo, Rivellino ganhou Mercedes, relógios e títulos no Al-Hilal
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Tricampeão da Champions League asiática, o Al-Hilal, da Arábia Saudita, pode ser o adversário do Flamengo no Mundial de Clubes. O clube se orgulha de ser um dos quatro clubes que disputaram todas as edições da liga profissional de futebol do país, instituída em 1976.
Mas “profissional” talvez não fosse a melhor palavra para definir àquela altura o que era uma cultura futebolística ainda incipiente.
“Era um futebol amador, estava se iniciando por lá. Na época, a gente treinava no mesmo estádio dos jogos. Tinham três times na cidade [de Riyadh] e treinávamos das 18h às 19h, o outro time, das 19h às 20h e o terceiro, das 20h às 21h”, diz Rivellino, que jogou no Al-Hilal de 1979 a 1981, à reportagem.
Os sauditas enfrentam neste sábado (14), pelas quartas de final do Mundial de Clubes, o Espérance Tunis (TUN), às 11h (de Brasília). O vencedor do confronto encara o Flamengo na semifinal do torneio.
Campeão do mundo com a seleção brasileira no México em 1970, Rivellino -ou “Rivo”, como era chamado no país- rapidamente tornou-se ídolo do Al-Hilal, sua última equipe na carreira depois de defender Corinthians e Fluminense. Ele chegou ao clube com 33 anos.
Ao lado do tunisiano Néjib Limam, que disputou a Copa do Mundo de 1978 com a Tunísia, formaram dupla que ajudou a equipe a conquistar um bicampeonato nacional e uma Copa do Rei. Os dois, porém, gozavam de um privilégio que muitos jogadores locais não tinham: salário.
“[Os sauditas] Não eram jogadores profissionais, eles ganhavam presentes dos príncipes. Tinha jogador que de repente sumia”, conta.
Com casa e a escola dos filhos pagas pelo clube, Rivellino também recebia agrados dos dirigentes, que o desafiavam, por exemplo, a marcar um determinado número de gols no jogo seguinte. Quando superava o desafio, recebia relógios cravejados de brilhantes que, segundo ele, não pode nem usar na rua hoje em dia pelo risco de ser roubado.
Mas foi um outro presente, pedido por ele mesmo, que saciou um desejo antigo do jogador, não realizado até então.
“Quando a gente jogava [no Brasil], assinava contrato e comprava um Fusca. Meu sonho era ter uma Mercedes. A primeira coisa que eu pedi foi uma Mercedes, e eles deram risada. Mercedes lá era Fusquinha. Perguntaram qual eu queria e eu disse que qualquer uma. Coisa de moleque”, lembra Rivellino, que ganhou o carro.
No início de sua trajetória no clube e ainda se adaptando ao clima árido, ele jogava com um algodão molhado na boca para mantê-la úmida. O tempo seco também dificultava o trabalho de manutenção do gramado por parte dos clubes, que encontraram a solução nos campos sintéticos.
Nesses campos, “muito melhores que os do interior de São Paulo, que eram cheios de buraco”, o brasileiro marcou 23 gols em 50 jogos pela equipe de Riyadh.
Apesar da proximidade da aposentadoria, o ex-meio-campista acredita que ainda poderia ter disputado a Copa do Mundo de 1982, no México, aos 36 anos -ele também disputou os Mundiais de 1974 e 1978.
“Hoje você joga na Arábia e é lembrado pela seleção. Na época eu estava bem pra cacete, eu treinava, corria mais. Se alguém fosse lá me ver jogar…”, afirma.
Após três temporadas na Arábia Saudita, Rivellino se aposentou do futebol em 1981. De volta ao Brasil e sem ter anunciado oficialmente o fim da carreira, ainda alimentou esperanças de são-paulinos animados com a possibilidade de vê-lo com a camisa tricolor.
Primo do ponta-esquerda Zé Sérgio, do São Paulo, o ex-corintiano utilizou as instalações do clube do Morumbi para manter a forma física. Conhecido de boa parte do elenco, foi chamado para participar de um rachão no treino. Mesmo veterano, mostrou que o toque de bola ainda estava intacto.
Durante a estadia, foi convidado pela diretoria são-paulina para disputar um amistoso contra a seleção da Arábia Saudita, treinada por Rubens Minelli, no Morumbi.
No dia 22 de setembro de 1981, uma terça-feira, entrou em campo no Cícero Pompeu de Toledo com a camisa listrada do São Paulo, para um público de apenas 2.522 pagantes, que viram o campeão mundial acertar a trave em uma cobrança de falta aos cinco minutos do primeiro tempo.
Reportagem da Revista Placar, que foi ao Morumbi para avaliar a atuação do jogador, publicou em matéria com o título “O velho garoto está em forma” que Rivellino ainda conservava “as mesmas características que o celebrizaram como um dos maiores jogadores do mundo na década de 70”.
O São Paulo goleou os sauditas por 5 a 1, gols de Éverton (dois) e Paulo César (três).
Com o passe preso ao Al-Hilal e o desejo de botar um ponto final na carreira, Rivellino deixou os tricolores apenas com uma ideia do que poderia ter sido sua aventura no clube, uma história que acabou ainda no preâmbulo.
“Já estava resolvido [que aposentaria]. Meu passe estava preso, mas, se eu fosse falar com o príncipe, eu conseguia a liberação. E eu já não tinha que mostrar nada a ninguém. Na lua de mel, está tudo bem, mas depois, se dá errado [no São Paulo], é uma merda, né?”, completa o Rivo, ídolo dos sauditas.
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