Crítica ao aborto, nova vice uruguaia defende direitos da mulher
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Crítica ao aborto, nova vice uruguaia defende direitos da mulher

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – Primeira mulher eleita vice do Uruguai, Beatriz Argimón, 58, fez sua carreira defendendo os direitos da mulher a partir de uma perspectiva de centro-direita.
“Sempre priorizei a necessidade de facilitar e informar as mulheres para que saibam quais são seus direitos e como podem ter acesso a eles”, conta em entrevista à reportagem, por telefone, de Montevidéu.
Entre as bandeiras que defende estão a da paridade salarial, política e o combate à violência doméstica.
“É por isso que sinto uma responsabilidade enorme em ocupar esse cargo, pois a simbologia é muito forte e pode nos ajudar a caminhar para uma sociedade mais igualitária e menos machista”, diz ela, que assume o novo cargo apenas em março de 2020 ao lado do novo presidente, Luis Alberto Lacalle Pou —o mandato é de cinco anos.
As feministas uruguaias, porém, têm críticas a Argimón e se recusam a considerá-la como uma igual. Isso acontece, principalmente, por conta das restrições que ela faz ao aborto.
No Uruguai, uma lei em vigor desde 2012 permite a interrupção da gravidez até a 12ª semana de gestação apenas pelo desejo da mulher e até a 14ª em caso de estupro.
Durante a campanha eleitoral, e mesmo depois de eleitos, tanto Argimón quanto Lacalle Pou afirmaram que não têm intenção de tentar revogar essa lei. Em vez disso, eles disseram que vão implementar programas de educação e prevenção que possam diminuir o número de casos de gravidez não desejada.
“É importante cuidar da legislação vigente, tratando dos aspectos que envolvem a questão do aborto. Lutar contra os estupros, contra a violência contra a mulher, garantir a despenalização e o acompanhamento médico são nosso dever”, afirma ela.
“Pessoalmente, sou contra a legislação atual que admite a interrupção completamente livre. Mas é uma lei que está em vigor, foi aprovada pelo Congresso uruguaio e é aprovada pela sociedade. Não é nosso papel ir contra ela, mas sim melhorá-la, pela saúde e os direitos das mulheres”, diz.
Um dos momentos mais emotivos da cerimônia de posse do novo presidente argentino, Alberto Fernández, na terça (10), foi a chegada, juntos, do atual mandatário uruguaio, o centro-esquerdista Tabaré Vázquez, e Lacalle Pou, de centro-direita —ele, assim como Argimón, é do Partido Nacional.
Vázquez está em tratamento de um câncer no pulmão e, claramente debilitado, caminhou de braço dado com seu adversário até o momento de cumprimentar Fernández.
“Foi de fato uma cena muito bonita, de um simbolismo político importante, aplaudida por todos”, disse Argimón.
O convite para que Lacalle Pou fosse para a posse partiu de Fernández, mas a ideia de que fossem juntos foi de ambos.
“Como essa eleição foi disputada, a vitória se deu por uma diferença mínima de votos, foi importante para nossa imagem diante do mundo mostrar essa serenidade política com relação a uma transição, que deveria ser algo normal numa democracia, mas que acaba sendo algo inédito em tempos tão polarizados”, afirmou ela.
E acrescentou: “Gostaria de chamar atenção para esse gesto porque ele nos mostra que a democracia não é algo que, uma vez conquistado, está garantido. Ela precisa ser cuidada todos os dias. E esses gestos são parte desse cuidado. Mas a luta segue todos os dias. A mensagem tem de ser repetida sem parar porque as novas gerações precisam ser lembradas da importância da democracia sempre.”
Da mesma forma que o gestual, Argimón disse que a transição, que ela lidera, está sendo ordenada. As equipes de Lacalle Pou e Vázquez já tiveram conversas sobre as questões gerais e, a partir desta segunda-feira (16), quando serão anunciados todos os ministros, devem iniciar as discussões específicas por área.
Um dos integrantes da coalizão liderada por Lacalle Pou, o general Manini Ríos, conseguiu no primeiro turno 10% dos votos com um discurso mais vinculado ao da direita radical. Isso gerou um certo receio em uma parte da sociedade uruguaia, que teme justamente uma polarização em um futuro próximo.
Indagada sobre o caso, Argimón minimizou a questão. “Está se dizendo sobre Manini Ríos muita coisa, mas é preciso lembrar que ele foi chefe do Exército nos governos da Frente Ampla [de centro-esquerda] e não havia um conflito muito grande com relação a isso”, disse ela.
“Depois, o líder do governo é o presidente Lacalle Pou, e ele saberá lidar com qualquer tipo de comportamento que esteja fora dos alinhamentos que nós colocamos para aceitar os apoios. Essa crítica, por ora, é infundada”, completou.
Sobre as prioridades do início do governo, Argimón mencionou que haverá uma resposta rápida para a maior demanda que a população uruguaia mostrou nessa eleição, a relacionada com a segurança.
Embora seja considerado um dos países mais seguros da América Latina, o Uruguai tem visto um rápido crescimento de sua taxa de homicídios, que passou de 8 para cada 100 mil habitantes para 11,8 para cada 100 mil habitantes em cerca de dois anos.
Especialistas apontam dois fatores principais para o problema. O primeiro está relacionado a uma mudança no Código Penal realizada pela Frente Ampla, que, para esvaziar prisões lotadas, amenizou penas para crimes menores, fazendo com que criminosos voltassem para as ruas de modo mais rápido.
O segundo seria o fato de que, com a regulamentação da produção e venda de maconha, isso teria feito com que os traficantes tivessem de “mudar de ramo”, ou seja, passando a traficar drogas mais pesadas, como cocaína e heroína, que costumam trazer consigo mais violência.
“É cedo ainda para falar das medidas que vamos tomar, mas certamente esta é a prioridade dos primeiros meses de governo, a de apresentar um plano contundente para atacar o problema de frente”, diz a nova vice uruguaia.
Argimón mencionou, ainda, a economia, que também será dos assuntos prioritários. “Ela precisa de um novo impulso e temos de examinar bem, nesse período de transição, os números e os problemas, para que uma nova política econômica seja desenhada”.
O Uruguai, que cresceu uma média de 3% a 4% na maior parte do tempo da gestão da Frente Ampla, deve crescer neste ano pouco mais do que 0,6%.

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