Setores intensivos em mão de obra param em quatro estados
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Setores intensivos em mão de obra param em quatro estados

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A pandemia do novo coronavírus já provocou queda na demanda de carne, férias coletivas em frigoríficos e indústrias calçadistas de dois estados -que não descartam demissões- e paralisou o setor de confecções no agreste pernambucano e em Santa Catarina.
As férias coletivas são a medida mais tomada neste momento por empresas e entidades ouvidas pela reportagem como forma de amenizar os impactos do coronavírus, por preservarem a economia de escala das operações industriais.
O setor de frigoríficos aponta que a queda na demanda interna será de 20%, motivo pelo qual está orientando as empresas a diminuir a escala de abate nessa proporção, segundo Péricles Salazar, presidente da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos).
A entidade afirma que há superoferta de carne em razão de as pessoas terem ido para casa, o que reduziu compras de setores como restaurantes. Assim, com a redução no abate -o que deve gerar queda no preço do boi-, o setor consegue permanecer em atividade e sem risco de desabastecimento, em sua avaliação.
O Minerva dará férias coletivas a partir de segunda-feira (23) aos empregados de quatro unidades de abate, em Janaúba (MG), José Bonifácio (SP), Mirassol D’Oeste e Paranatinga (ambas MT).
Segundo a empresa, a decisão “está alinhada à piora dos cenários doméstico e global, que inclui queda da demanda no segmento de food service e limitações logísticas em diversas partes do mundo”.
Já o JBS informou que concede férias coletivas em 5 de suas 37 unidades por 20 dias devido à menor demanda de exportação e que “essas suspensões temporárias são comuns em resposta às dinâmicas do mercado”.
Já no setor de confecções, o polo do agreste pernambucano, que movimenta R$ 6 bilhões por ano e ocupa 250 mil pessoas entre empregos formais e informais, parou em razão do avanço do coronavírus.
São mais de 15 cidades envolvidas na produção de artigos têxteis, com informalidade de cerca de 80%. “Não sei o que será de nós. Vivemos disso aqui. Falei com o pessoal e expliquei que não vamos mais continuar a produção. Não tem mais feira para escoar o que a gente produz”, disse Rodrigo Silva, 40, que comanda uma produção de 500 peças por dia, que emprega informalmente 20 pessoas. Ele diz que esta sexta-feira (20) foi o último dia de trabalho.
Por ano, o polo produz 225 milhões de peças de vestuário, representando 3,1% do total nacional. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Bruno Schwambach, disse que é preciso a ajuda do governo federal para que o impacto seja minimizado.
Outro polo têxtil do país, Santa Catarina também está com as indústrias fechadas, em férias coletivas, em razão do decreto do governador Carlos Moisés (PSL) para conter o avanço do coronavírus.
São 9.042 indústrias dos setores têxtil e confecção no estado, com 159.591 empregados e receita de R$ 31,8 bilhões em 2018, representando 18% do total nacional, segundo a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção).
No Rio Grande do Sul, o polo calçadista é afetado especialmente pela queda do consumo. Com shoppings fechados em diversos estados e comércio de rua funcionando restritamente ou completamente parado, a demanda diminui.
Segundo Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira da Indústria de Calçados), 49% das indústrias tiveram cancelamentos ou adiamentos de pedidos. O ramo tem 2.000 indústrias no estado, incluindo ateliês, representando 33% do total do país. São cerca de 90 mil empregos diretos no estado, com parte significativa em férias coletivas.
“A primeira medida é a de férias coletivas. É um paliativo neste momento enquanto esperamos o que vai acontecer. A máquina está parando. Depois desses primeiros 15 dias é que vamos poder analisar como será o giro da economia.”
Demissões já ocorrem na indústria calçadista gaúcha, mas a Abicalçados ainda não tem estimativa.
A Grendene é uma das indústrias que concederão férias coletivas por 21 dias, a partir de segunda-feira.
Já no polo calçadista de Franca (SP), todas as fábricas paralisaram a produção por sete dias e os funcionários entraram em férias coletivas. O Sindifranca (sindicato da indústria) e outras entidades pediram à prefeitura a interrupção nas atividades.
O sindicato não descarta demissões nas indústrias, que fecharam 2019 empregando 17 mil trabalhadores. “Não é a nossa recomendação [demitir], mas isso pode ocorrer, vai depender da decisão de cada empresa, do momento econômico que cada uma vive”, disse José Carlos Brigagão do Couto, presidente do Sindifranca. A cidade fabricou 24 milhões de pares de sapatos em 2019.
A produção de carnes foi a exceção positiva do mercado de agronegócio brasileiro com a pandemia do coronavírus. Nos dois primeiros meses do ano, as exportações do Paraná para a China, por exemplo, aumentaram 78% em relação ao mesmo período de 2019. O estado é o maior produtor de aves do país e vice-líder em suínos.
Na avaliação do diretor da Frimesa, Elias Zydek, o Brasil deve, além de manter, fortalecer a produção de alimentos, como ocorreu em outros países atingidos pela pandemia. Para ele, é essencial que o país monte um plano para manter o fluxo de entrada e saída de proteínas. “O desafio de todos é manter viva a cadeia produtiva desde o produtor até o consumidor”, disse.
Francisco Turra, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), aponta que deve haver o mínimo de regularidade em relação a produção, como ocorre em países como EUA e Itália, mesmo no auge da crise. Ele receia que decisões judiciais sobre o trabalho de funcionários das indústrias atrapalhem as empresas.

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