América Latina tem queda de trânsito maior do que Brasil
Uma análise do congestionamento do mês de março indica que o Brasil não tem diminuído o fluxo de carros nas últimas semanas tanto quanto vizinhos na América Latina – um sinal de que possivelmente o País também não está seguindo tão à risca políticas de distanciamento social pregadas por especialistas como cruciais para evitar a disseminação do coronavírus.
O tráfego de veículos no Brasil está em patamar mais alto do que em países da região e a circulação de carros aumentou no fim de semana. Os dados fazem parte de uma plataforma online montada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A instituição tem monitorado o tráfego por dados concedidos pelo aplicativo Waze para avaliar a queda de congestionamento na América Latina com as restrições de circulação e monitorar o impacto das políticas de isolamento.
“Na semana de 7 de março, muitos países na América Latina começaram a tomar medidas, ainda que parciais, de distanciamento social e queríamos mediar a mudança no comportamento. A medição de tráfego é uma forma de ver os sinais de distanciamento social”, explica o economista da instituição Oscar Mitnik. Os economistas do banco pretendem observar os dados e, depois, relacioná-los às políticas de combate à disseminação do coronavírus.
O Brasil, assim como outros países da região, vinha registrando queda no fluxo de veículos nas últimas semanas e estacionou na semana passada. Desde 11 de março, o movimento de carros veio caindo no País, com um pico de alta apenas no dia 15, data dos atos de manifestação em apoio ao governo Bolsonaro. A curva que mostra a trajetória do congestionamento voltou a apontar para cima na última sexta depois de passar a semana relativamente estável.
Na terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em rede nacional no qual chamou o coronavírus de “resfriadinho” e pregou a volta à “normalidade” e funcionamento de escolas. O movimento registrado no Brasil no fim de semana chama a atenção quando comparado aos demais países. Argentina, Colômbia e Peru, que já vinham registrando congestionamento em níveis mais baixos do que o brasileiro ao longo das últimas semanas, se mantiveram estáveis no fim de semana. As comparações têm como referência sempre a primeira semana de março. Cada segunda-feira analisada, portanto, é comparada com a segunda-feira de 1o de março.
“Trabalhamos duro para encontrar o ponto de comparação correto. Janeiro e fevereiro não são bons meses de comparação, porque há férias escolares. No Brasil, tem ainda o carnaval. No fim, estabelecemos a primeira semana de março como parâmetro”, afirma Mitnik
Os resultados do Brasil foram acompanhados de perto pela equipe do BID que monitora o projeto. O grupo tem dois brasileiros. Os economistas são cautelosos na interpretação do gráfico. Segundo eles, ainda é preciso acumular mais informações para relacionar o aumento ou queda no movimento às medidas de restrição de circulação aplicadas em cada país.
“Vimos esse aumento no Brasil (no último fim de semana). Não queremos tirar conclusões fortes ainda. Parece que no fim de semana houve movimento de alta, mas precisamos ver o movimento completo dos próximos dias para analisar se isso se sustenta”, diz Mitnik.
Medição
Na análise de todo o mês de março, o Brasil também perde para países da região, como a Argentina. Mesmo o patamar mais baixo de tráfego no Brasil, com queda de 70% do movimento comparado à primeira semana do mês, é mais alto do que o nível de outros países da região.
Enquanto Colômbia e Argentina reduziram em 92% e 91% a quantidade de fluxo de veículos na última medição, desde a primeira semana do mês, a redução no Brasil foi de 58%, similar à do México, de 55%. Assim como Bolsonaro, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, político de esquerda, vinha minimizando a gravidade do vírus e continuou a frequentar eventos públicos com aglomerações de apoiadores.
“Quando fazemos a comparação por países, se olharmos por exemplo Argentina, Colômbia, Chile e Brasil, vemos que o impacto na Argentina e na Colômbia parece ser maior do que no Brasil e no Chile. Não podemos dizer ainda se está relacionado com o fato de termos lockdowns totais na Colômbia e na Argentina”, afirma Mitnik.
Os dados têm como base aplicativos em que o usuário compartilha sua experiência. Países e cidades que têm mais pessoas usando o Waze, por exemplo, trazem dados mais confiáveis. O Brasil é o país com maior número de cidades analisadas no projeto por causa do grande número de usuários do aplicativo.
“Queremos facilitar o acesso a esses dados para a região. É uma fonte de informação valiosa e, com informação medida dia a dia, temos mudanças muito rápidas. Pensando do lado da iniciativa privada, vai ser muito valioso ter dados que nos ajudem a pensar como essa crise vai impactar a atividade econômica”, afirma Patrícia Yanez, diretora no BID Invest, braço privado do banco. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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