Educação a distância impõe novos desafios às famílias
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Educação a distância impõe novos desafios às famílias

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Durante a quarentena, a terapeuta Vanessa Favero, de 42 anos, incluiu mais uma tarefa a sua longa rotina de atividades em casa: a de professora dos filhos. Pela manhã, ela acompanha o filho Theo, 5, nas aulas e tarefas escolares a distância. À tarde, é a vez de ajudar nas lições da mais velha, Pietra, 9.
“Tento só ajudar e orientar, mas acabo fazendo o papel de professora também. O ensino a distância ajuda a manter as crianças aprendendo, mas eles não conseguem fazer sozinhos”, contou. A escolha de muitos colégios particulares de continuar as atividades escolares em casa, durante a suspensão das aulas presenciais em enfrentamento a epidemia do coronavírus, tem trazido novos desafios às famílias.
Com pouca ou nenhuma experiência anterior das escolas na modalidade a distância, especialmente nas etapas da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental (do 1° ao 5° ano), os pais relatam ter assumido a difícil tarefa de atuar como mediadores das atividades propostas. Os colégios admitem que ainda estão buscando as melhores estratégias e que o modelo deve passar por ajustes nas próximas semanas.
Vanessa contou que a divisão dos horários em casa foi estabelecida ao perceber que teria de acompanhar as atividades das crianças enviadas pelo colégio Santa Maria, na zona sul da capital. “Não é o ensino a distância como a gente imagina, em que a professora entra ao vivo e explica o que a lição propõe e tira dúvidas dos alunos. Principalmente para a mais velha, que recebe uma lista de tarefas. Eu preciso ler, orientar, imprimir para que ela possa responder no papel, já que não está acostumada a escrever no computador.”
A orientadora Karina Ramos, do Santa Maria, diz que o objetivo das atividades propostas nesse momento não é dar continuidade ao conteúdo escolar programado para o ano, mas ajudar no desenvolvimento das crianças durante o período de isolamento. “Queremos que eles mantenham o vínculo com a escola, com o conhecimento. Não é uma preocupação com o conhecimento formal, depois nós recuperamos esse tempo. Mas estamos aprendendo a desenvolver junto com as famílias.”
CONVÍVIO
Sem contato com os colegas de classe, os pais também relatam perceber os filhos pequenos mais dependentes e exigindo mais atenção. Desde que as aulas foram suspensas, a gestora Soraia Felix, 35, já identificou algumas mudanças no comportamento da filha Manuela, 5.
“Antes, ela fazia as lições de casa, pintava e desenhava sozinha por um tempo. Agora, pede a minha atenção o dia todo. Acho que por estar se sentindo só, com saudade dos amigos”, contou. Nessa segunda-feira (30), a lição enviada pela escola pedia para desenhar o que mais gostaria de ganhar de presente da fada do dente. Manuela contou a mãe desejar que o coronavírus vá embora e se desenhou ao lado dos amigos de sala.
César Marconi, diretor do colégio Mary Ward, no Tatuapé, onde Manuela estuda, disse que os professores têm dialogado com as famílias para entender quais adaptações são necessárias à nova rotina domiciliar. “Os pais têm elogiado muito os vídeos gravados pelos professores, porque as crianças estão sentindo falta desse convívio e também porque elas seguem as instruções que são dadas na gravação. Então, devemos investir mais nisso.”
No colégio Santa Maria, os vídeos dos professores também agradam as crianças pequenas. “São feitas atividades diferentes, como contação de histórias, musiquinhas, brincadeiras com instruções mais simples, que eles podem fazer sozinhos copiando o que estão vendo e ouvindo”, contou Karine.
Os vídeos passaram a ser postados diariamente às 10h e 15h depois de um pedido dos pais. “Eles diziam que os filhos pediam para ver várias vezes a mesma gravação. Temos 187 alunos na educação infantil e o primeiro vídeo que postamos teve mais de 700 visualizações”.
Apesar de serem produções simples, feitas pelos próprios professores em casa, Karine disse acreditar que o interesse dos alunos se dá pelo vínculo. “Na internet, eles têm vídeos muito mais elaborados, com edições melhores, efeitos especiais e boas atividades propostas. Mas os alunos sentem falta de ver as pessoas com quem têm laços.”
A biomédica Evelyn Navarro disse que seu filho Vitor, 4, espera ansiosamente todos os dias pelos vídeos dos professores. Para ela, a escola deveria oferecer mais gravações, mesmo com atividades parecidas ou que não abordem conteúdos escolares. “Agora o importante não é o que ele vai aprender de conhecimento formal, mas que se mantenha ativo, ocupado, estimulado em um momento de tantas privações. Fico preocupada em como o confinamento pode mexer com ele.”
Ela também disse ter percebido que desde o início do isolamento Vitor está mais dependente e demandando mais atenção dos pais, além de ter desenvolvido novos medos. “Ele está mais agarrado a nós, começou a ter medo de escuro. Pode ser apenas algo da idade, mas em um momento tão difícil a nossa preocupação tem que ser com a saúde das crianças e acho que as escolas podem ajudar mais nisso.”
O que os pais têm percebido mais incomodar os filhos é a falta de convívio com os colegas e com crianças da mesma idade, levando as escolas a pensar em formas de colocá-los em contato. O advogado Rodrigo Gonçalves, 40, diz que o colégio Pio XII, onde sua filha Helena, 5, estuda, programou a primeira live entre os alunos. “Nós em casa já fizemos duas vezes com a família de amiguinhas dela e foi muito bom. Ela ficou muito feliz, mais animada.”
FLEXIBILIDADE
Para especialistas em educação, o momento que levou as escolas a recorrerem às atividades a distância exige flexibilidade dos professores e colégios em relação ao que vão desenvolver com as crianças. “Não é para adaptar o conteúdo e as lições de sala de aula para fazer em casa a distância. Isso não vai funcionar. É preciso pensar no que é importante para o aluno agora, em uma situação tão atípica”, disse Luciene Tognetta, doutora em Psicologia Escolar pela USP.
Para ela, as escolas precisam identificar de que forma podem ajudar as famílias em um momento complicado. “O pai não é e nem nunca vai ser um bom professor. O colégio precisa pensar como pode mais ajudar a criança em um momento de isolamento, de estresse, com famílias preocupadas”, disse, defendendo que propor brincadeiras que estimulem o lado físico e de criatividade são as melhores alternativas.
Neide Noffs, professora da Faculdade de Educação da PUC-SP, também defende que as atividades devem levar em conta o acúmulo de funções dos pais. “As crianças já entenderam que é um momento diferente, que a rotina mudou e que o quanto antes elas entrarem no esquema, melhor vão assimilar e aprender. Então podem e devem ajudar de forma lúdica com a arrumação da casa e cozinhar.”
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VEJA DICAS DE ESPECIALISTAS AOS PAIS:
– É um período de adaptação que exige calma de todos (pais, filhos e escola). “A boa notícia é que crianças são os que mais rapidamente se adaptam”, disse Luciene;
– A tarefa ensinar conteúdo escolar não é dos pais, mas da escola. O pai não precisa assumir o lugar de professor em casa e dominar os conhecimentos das disciplinas;
– Escolas devem propor atividades diferentes das trabalhadas em sala de aula, pensando que o ensino a distância tem um tempo diferente. Enunciados devem ser claros e diretos para não gerar dúvidas nos aluno;
– É normal a criança exigir mais tempo e atenção dos pais. Reserve um tempo exclusivo para brincar com ela, para que entenda quando for o horário em que os pais precisam trabalhar;
– Se as atividades da escola estiverem sobrecarregado a rotina, converse com professores e direção.

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