Juros longos voltam a cair com PEC do Orçamento
A curva de juros deu sequência à trajetória de desinclinação iniciada há alguns dias, com as taxas curta encerrando com viés de alta, as intermediárias, de lado, e as da ponta longa em queda firme. O desenho mais uma vez ficou na contramão da piora da percepção fiscal e do aumento do ruído político, após a confirmação da demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde e de mais declarações críticas de Rodrigo Maia ao governo na condução das medidas de combate ao coronavírus. O argumento para o alívio de prêmios nos vencimentos longos ainda é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Orçamento de Guerra, que foi aprovada ontem pelo Senado em primeiro turno e permitirá ao Banco Central temporariamente comprar e vender títulos públicos e privados no mercado secundário. A manutenção das debêntures na lista de títulos privados a serem negociados pelo BC foi considerada positiva. Também foi visto como “prudente” o cancelamento dos leilões de NTN-F nesta quinta-feira, o que retira pressão da curva.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou a 3,06%, de 3,042% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2022 passou de 3,70% para 3,67%. O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa de 6,95%, ante 7,122% ontem.
Profissionais nas mesas de renda fixa têm estranhado o tamanho do movimento de desinclinação desde o começo da semana e questionam se só a PEC do Orçamento seria suficiente para justificar o alívio de prêmios, num contexto negativo para a área fiscal. “Tivemos a aprovação do projeto para o BC comprar títulos, retiraram a questão das debêntures, colocaram o rating, ok, mas não era para esse fechamento”, disse a gestora de renda fixa da MAG Investimentos, Patricia Pereira.
“O mercado ainda está se abraçando à essa PEC, apesar dos sinais de que o BC só atuaria se a curva estressasse. Hoje teve o Tesouro cancelando de novo o leilão de NTN-F, o que tira a qualquer pressão tomadora nos longos, e mantendo as LTNs, com maior volume concentrado ao redor do janeiro de 2022”, disse um gestor.
No leilão desta quinta-feira, o Tesouro vendeu integralmente os lotes de 5,5 milhões de LTN e de até 500 mil LFT. “Vendemos R$ 10 bilhões em títulos e só não vendemos mais porque não precisa agora”, disse o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, reiterando que o Brasil tem uma situação extremamente confortável para o financiamento da dívida pública.
O clima político pesado em tese também recomendaria mais cautela na exposição ao risco pré. Com o País prestes a entrar na fase mais aguda da epidemia, o presidente Jair Bolsonaro demitiu hoje Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, por divergências em torno das orientações à população, uma vez que o presidente é contrário ao isolamento horizontal. Assumirá a pasta o oncologista Nelson Teich.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, segue em conflito com a equipe econômica na questão do socorro aos Estados. “Essa é uma disputa com a federação, do meu ponto de vista. E mais uma vez nós não vamos entrar nessa briga. Eu não vou entrar nesse jogo de números, nessa fake news da equipe econômica, usando números para tentar enganar a sociedade e a imprensa”, afirmou.
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