Em Portugal, classe média já recorre a bancos de alimentos

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – Arquitetos, dentistas, músicos. A paralisação econômica provocada pela pandemia do novo coronavírus empurrou para centros de distribuição de alimentos muitos profissionais liberais e famílias de classe média, de acordo com essas entidades.
Em Lisboa e no Porto, nas filas para receber refeições e cestas básicas, já não é incomum ver pessoas com formação superior e até então integradas na força de trabalho.
“Os perfis das pessoas que procuram a Cáritas são aqueles que, a nós, parecem mais estranho que sejam atingidos numa crise como esta. Estamos falando de classe média e média e alta”, afirmou, nesta sexta (8), o presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio da Fonseca, em entrevista à TSF.
Em um mês, a procura por distribuição de alimentos da organização subiu 40%.
Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, outra tradicional rede de assistência no país, Isabel Jonet disse que nunca viu uma situação tão ruim.
“São pessoas de profissões muito, muito diversas. Motoristas de táxi ou de Uber, pessoas que trabalham em academias, fisioterapeutas, dentistas, feirantes, cabeleireiras, manicures, pessoas das profissões ligadas ao turismo. E aquilo que temos hoje é um grande número de pessoas que, de repente, não têm qualquer remuneração”, afirmou ela, à rádio Renascença.
Além de ONGs e entidades religiosas, as câmaras municipais (equivalentes às prefeituras) estão prestando auxílio alimentar. Em Lisboa, algumas escolas foram convertidas em centros de distribuição de alimentos, que entregam refeições diárias. A procura quase triplicou desde o começo da pandemia.
Pressionado, o governo de Portugal também diz que vai ampliar a distribuição de alimentos à população afetada.
Especialistas apontam a precariedade laboral portuguesa –a terceira maior da Europa, atrás apenas da Espanha e da Polônia– como uma das principais razões para isso.
Apenas um em cada cinco trabalhadores portugueses está integrado de forma definitiva aos quadros das empresas, o que os deixa mais vulneráveis à demissão com poucos benefícios.
Sem contratos formais de trabalho, muitos trabalhadores acabam não beneficiados pelos pacotes de auxílio liberados pelo governo.
Diante das críticas ao “exército de vulneráveis” excluídos dos auxílios, o primeiro-ministro, António Costa, anunciou nesta sexta-feira (8) um pacote adicional, que inclui também as pessoas que vinham trabalhando informalmente, sem contribuir para o regime de Segurança Social.
Elas poderão recorrer a um auxílio mensal de 219,4 euros (R$ 1.380), o equivalente a 34,5% do salário mínimo nacional, atualmente em 635 euros (R$ 3.993).
Na fila para recolher refeições em uma escola do centro de Lisboa, uma dentista de 34 anos chora ao falar da situação. Ela relata que se viu, de uma hora para outra, sem qualquer tipo de renda, quando os consultórios que não prestam serviços de urgência foram obrigados a fechar.
Trabalhando emitindo notas fiscais mensais por prestação de serviço a uma grande clínica, ela diz que o apoio disponibilizado pelo governo é insuficiente até para custear as necessidades mais básicas.