Investigação mapeia elos entre Queiroz e miliciano
Investigações da polícia e do Ministério Público mapearam ao menos sete ligações entre o ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz, preso desde o dia 18, e o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, o capitão Adriano, morto em fevereiro. A relação entre os dois começou nos anos 1990, quando eram policiais militares, passa por 2003, ano em que a dupla foi alvo de uma investigação de homicídio, e chega pelo menos até dezembro de 2019. Naquele mês, familiares dos dois se encontraram para combinar fuga, de acordo com promotores.
Com a prisão decretada desde janeiro de 2019, capitão Adriano ficou mais de um ano foragido e, para não ser pego, teria contado com uma rede de proteção formada por policiais, políticos e advogados. Um desses “amigos” seria Queiroz, de acordo com a investigação. Assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) entre 2007 e 2018, ele é apontado pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ) como o operador financeiro do suposto esquema de “rachadinhas” e de nomeações fantasmas no gabinete. Ele nega a acusação.
Queiroz e Nóbrega se conheciam desde os anos 1990, quando entraram na PM. Lotados no 18.º Batalhão da Polícia Militar, no Rio, em 2003, foram alvo de investigação sobre a morte de um suspeito, durante abordagem na Cidade de Deus. A apuração ainda não foi concluída. Nóbrega viria a ser expulso da corporação, envolvido em denúncias de ligação com o jogo do bicho.
Em 2007, Queiroz foi nomeado para o gabinete de Flávio na Alerj. No mesmo ano, a ex-mulher do capitão Adriano, Danielle Mendonça da Nóbrega, foi contratada para trabalhar no escritório. Segundo o MP-RJ, Danielle e Raimunda Veras Magalhães, mãe do miliciano contratada em 2015, receberam R$ 1 milhão de salários da Alerj entre 2007 e 2018, supostamente sem trabalhar.
Os investigadores conseguiram rastrear pelo menos R$ 400 mil sendo “devolvidos” para Queiroz, o que configuraria a “rachadinha”. Parte desse dinheiro saiu de contas de restaurantes de Nóbrega.
As investigações também mostram que o miliciano e o assessor se falaram sobre nomeações de familiares e sobre as investigações. O Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção (Gaecc) sustenta que Queiroz e Nóbrega agiram, desde o início das investigações, para atrapalhar o Ministério Público e a Justiça, com orientação de superiores hierárquicos e de advogados.
Para comprovar essa afirmação, os promotores citam trocas de mensagens em que os dois orientam a ex-mulher do miliciano a faltar a depoimento no MP-RJ no início de 2019. “E ordenar que a mesma não mencionasse em conversas telefônicas crimes praticados na Alerj”, diz documento da Promotoria anexado aos autos.
Por fim, em dezembro de 2019, a mulher de Queiroz se encontrou com a mãe de Nóbrega para combinar formas de escapar dos investigadores.
Defesa
O advogado Paulo Emílio Catta Preta, de Brasília, que defendia capitão Adriano em um processo do Rio sobre milícia, e representou a família após a morte do miliciano, assumiu a defesa de Queiroz após a prisão do ex-assessor.
Catta Preta disse que a participação de Queiroz no esquema de “rachadinha” se limitaria ao fato de ele ter sido assessor de Flávio na Alerj. Segundo o advogado, os promotores fizeram uma “leitura absolutamente equivocada” das movimentações financeiras, sem “suficiente suporte empírico” das transações bancárias do cliente.
Flávio Bolsonaro nega todas as acusações.
Pontos de interseção
– Polícia: Na década de 1990, Fabrício Queiroz e Adriano Magalhães de Nóbrega trabalharam na Polícia Militar do Rio. Adriano virou capitão no Batalhão de Operações Especiais (Bope). Foi expulso da corporação em 2014, após ser acusado de envolvimento com crimes vinculados a contraventores do jogo do bicho.
– Assassinato: Em 2003, Queiroz e Nóbrega foram citados em investigação da Polícia Civil para apurar a morte de um suspeito, durante abordagem policial, na Cidade de Deus. Apuração nunca foi encerrada.
– Nomeações: Queiroz foi nomeado para o gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj em 2007. No mesmo ano, Danielle Mendonça da Nóbrega, então mulher de Nóbrega, é nomeada para o gabinete. A mãe do miliciano, Raimunda Veras Magalhães, foi nomeada em 2015. Segundo o MP-RJ, elas nunca trabalharam na Alerj, mas receberam R$ 1 milhão em salários somados.
– Depósitos: O ex-assessor parlamentar recebeu, segundo a investigação, R$ 400 mil de contas ligadas a Danielle e Raimunda. Parte do dinheiro foi transferida de duas contas de restaurantes controlados por capitão Adriano.
– Telefone: Ainda de acordo com a investigação, Queiroz e Nóbrega conversaram, entre 2017 e 2019, para falar de nomeações na Alerj e sobre as investigações. Eles orientaram Danielle a não falar ao telefone sobre esquemas. Segundo o MP, partiu deles a orientação para que Danielle não fosse prestar depoimento.
– Encontros: Entre os dias 3 e 5 de dezembro de 2019, a mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, se encontrou com a mãe do miliciano, Raimunda, e um advogado de Flávio, Luiz Gustavo Botto Maia, em Astolfo Dutra (MG). Para o MP, o objetivo da reunião foi combinar formas de escapar dos investigadores.
– Advogado: O advogado Paulo Emílio Catta Preta passou a representar Nóbrega em 2019, no processo contra a milícia de Rio das Pedras. Após a morte do miliciano, assumiu a defesa da família de Nóbrega. Agora também é advogado de Queiroz.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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