Dólar quebra resistências técnicas e flerta com R$5,40 por exterior e temores fiscais domésticos
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Dólar quebra resistências técnicas e flerta com R$5,40 por exterior e temores fiscais domésticos

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) – O rali do dólar no exterior e mais uma rodada de preocupações fiscais domésticas catapultaram a moeda norte-americana ante o real nesta quinta-feira, com a divisa registrando a maior alta em mais de três meses e rompendo de uma vez só duas importantes resistências técnicas, em dia de expectativa frustrada por intervenção do Banco Central.

O dólar à vista saltou 1,82%, a 5,3999 reais na venda, perto da máxima da sessão. É a maior valorização percentual diária desde 23 de setembro (+2,18%) e o maior patamar de encerramento desde 23 de novembro (5,4353 reais).

A moeda já começou o dia em firme alta de 0,8%, lentamente desacelerou o movimento até virar e cair a uma mínima de 5,2997 reais (-0,07%) pouco depois das 11h. A partir de então, porém, as compras voltaram com força e levaram a cotação a bater a máxima do dia (de 5,414 reais, alta de 2,08%) por volta de 14h30.

A tomada de fôlego do dólar no exterior ajudou a puxar o valor da moeda por aqui.

O índice do dólar contra uma cesta de seis moedas saltava 0,6%, maior ganho desde o fim de outubro. O dólar subia ante 29 de seus 33 principais rivais, com pares emergentes do real –rand sul-africano (-2,6%), peso chileno (-2,2%), peso colombiano (também -2,2%) e peso mexicano (-1,9%)– liderando as perdas globais.

A moeda norte-americana no exterior se recuperava depois de tocar recentemente mínimas em quase três anos.

Aqui, preocupações do lado fiscal vêm aumentando a pressão sobre o real. O deputado federal e presidente do MDB, Baleia Rossi (SP), lançou oficialmente na quarta-feira sua candidatura ao comando da Câmara dos Deputados, defendendo rejeição da submissão ao Poder Executivo e a prorrogação do auxílio emergencial em meio à pandemia do novo coronavírus.

“Não há espaço para aventuras populistas no Brasil neste momento”, disse Dan Kawa, sócio da TAG Investimentos, citando a dinâmica dos mercados de câmbio e juros nos últimos dias.

Nesta quinta, as taxas de DI para janeiro 2024 e janeiro 2025 dispararam cerca de 25 pontos-base, em meio a receios de novos aumentos de gastos pelo governo neste ano, o que deterioraria ainda mais as já frágeis contas públicas.

O ano mal começou, mas o comportamento do real nas quatro primeiras sessões de 2021 parece um “déjà vu” de 2020, quando a moeda brasileira teve a segunda pior performance global.

O real já ocupa o posto de segundo pior desempenho global neste ano, com queda nominal de 3,86%. A divisa doméstica está melhor apenas que o rand sul-africano, que cai 4,9%.

“O real é uma moeda com um comportamento desconectado do resto do mundo. O Brasil mais uma vez não aproveita o bom momento do ambiente externo, favorável a países emergentes, principalmente no caso dos produtores de commodities”, disse Leonardo Monoli, gestor do Opportunity Total.

O dólar vem em rota ascendente desde 10 de dezembro, quando fechou numa mínima em seis meses de 5,0417 reais. Desde essa data, a moeda salta 7,10%.

Com o forte ganho desta quinta, a moeda rompeu, de uma só vez, duas resistências técnicas: as médias móveis de 50 e 200 dias, abaixo das quais a cotação estava desde pelo menos o fim de novembro. A 5,3999 reais, o fechamento desta quinta, o dólar já está perto de superar também a média móvel de 100 dias, no momento em 5,4143 reais.

A quebra de resistências técnicas pode acionar ordens automáticas de compras, retroalimentando o movimento de alta do dólar.

Mesmo com a forte alta do dólar nesta quinta, o Banco Central não interveio no mercado, diferentemente da véspera, quando vendeu 500 milhões de dólares via swaps cambiais.

Alguns analistas já defendem que o BC promova atuações regulares, talvez por meio de programa de leilões de câmbio, num contexto em que o fluxo cambial dá sinais de que continuará negativo à medida que exportadores não internalizam as receitas de suas vendas, preferindo deixar os recursos no exterior.

Em dezembro, o Brasil teve fluxo negativo de 3,932 bilhões de dólares na conta comercial (exportação menos importação), com o déficit total no mês, incluindo as operações financeiras, ficando em 8,353 bilhões de dólares. Em 2020, deixaram o país via câmbio contratado 27,923 bilhões de dólares, segundo pior resultado da história, após o rombo de 4,768 bilhões de dólares em 2019.

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